Fogo que começou em Arganil deverá ser o maior de sempre em Portugal

Incêndio que começou no distrito de Coimbra e que se estendeu aos distritos de Castelo Branco e Guarda já terá consumido cerca de 60 mil hectares.

20 de agosto de 2025 às 17:01
Incêndio em Arganil Foto: MIGUEL PEREIRA DA SILVA/Lusa
Partilhar

O incêndio que começou no Piódão, Arganil, no dia 13 e que continua ativo, será "muito provavelmente" o maior de sempre em Portugal, afirmou o especialista Paulo Fernandes, estimando uma área ardida de cerca de 60 mil hectares.

O incêndio que começou no distrito de Coimbra e que se estendeu aos distritos de Castelo Branco e Guarda já terá consumido cerca de 60 mil hectares, afirmou à agência Lusa o especialista em incêndios e membro das comissões técnicas de análise aos grandes incêndios de 2017.

Pub

O investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) recordou que o maior incêndio desde que há registos em Portugal é o fogo que começou em Vilarinho, no concelho da Lousã, em outubro de 2017, que afetou 53 mil hectares, seguindo-se o de Arganil, também nesse ano, com cerca de 38 mil hectares (excluindo os fogos deste ano).

A estimativa do investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) é feita com base em informação de monitorização de incêndios por deteção remota.

A área calculada por Paulo Fernandes é superior aos dados provisórios do Sistema de Gestão de Informação de Incêndios Florestais (SGIF), que apontam para uma área ardida de 47 mil hectares (até terça-feira) e do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), que regista 57.596 hectares, com a última atualização feita hoje.

Pub

"Muito provavelmente será o maior incêndio de sempre", vincou o investigador, referindo que há incêndios "que nascem para serem grandes", considerando que o de Arganil, iniciado há uma semana, "é um desses casos".

De acordo com o investigador, o incêndio começou de madrugada, a partir de dois raios, numa cumeada, o que levou a uma resposta mais lenta e sem possibilidade de recurso a meios aéreos no ataque inicial, "num sítio relativamente inacessível".

Num ambiente de trovoada que gera ventos, o incêndio "propagou-se muito rapidamente" nas primeiras horas, notou, considerando que essa é "a receita para que se torne num incêndio maior nas horas ou mesmo dias seguintes".

Pub

Tudo isto, constatou, aconteceu num "território muito complexo", não apenas pela acessibilidade, mas pelo efeito que a topografia "tem na evolução do fogo", numa região que arde sucessivamente, registando grandes incêndios em 1987, 2005 e 2017.

"Sabemos que a ocorrência de grandes incêndios fomenta maiores incêndios no futuro, porque torna a paisagem cada vez mais homogénea e, quando a vegetação recupera, cresce simultaneamente e teremos ali um contínuo de vegetação cada vez mais homogéneo - e se há coisa que o fogo gosta é dessa homogeneidade -", explicou.

Segundo Paulo Fernandes, o fogo que começou em Arganil é um incêndio convectivo, "muito dominado pela energia" e onde não há grande influência do vento.

Pub

Após a trovoada, este incêndio alastrou "para todos os lados lentamente", apontando para a própria forma arredonda que assumiu na sua progressão.

"Estes incêndios ocorrem quando temos muita vegetação, com uma atmosfera relativamente instável, em que não é realmente necessário vento e o incêndio não tem aquelas arrancadas muito rápidas e súbitas. Antes, cresce consistentemente ao longo do tempo, com muita biomassa seca e, por isso, muito difícil de combater", explicou.

Segundo Paulo Fernandes, desde 2017 o que se fez foi apenas planos.

Pub

"É sempre aquilo que é mais fácil de fazer. Basicamente, tivemos processos de planeamento [de alteração da paisagem], mas não de implementação no terreno", notou.

Para o especialista, as poucas ações que se viram com alguma escala depois de 2017 "foram da indústria do papel, com iniciativas para melhor gestão florestal" e um avanço do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) nas faixas de gestão de combustível.

Além do pouco trabalho de prevenção, Paulo Fernandes nota um combate "muito urbano" e em que se aproveita "bastante pouco" as oportunidades que eventualmente poderiam ser oferecidas pelas faixas de gestão de combustível criadas.

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar