Fumo passivo mata

Para quem tivesse ainda alguma dúvida, as autoridades de saúde norte-americanas acabam de divulgar um relatório esclarecedor: o fumo passivo mata. E apresentam números. Por essa razão morreram, nos EUA, em 2005, 3000 não fumadores vítimas de cancro do pulmão, 46 000 indivíduos devido a doenças cardiovasculares e estima-se que 430 recém-nascidos tenham sucumbido à síndroma de morte súbita.

24 de setembro de 2006 às 00:00
Fumo passivo mata Foto: d.r.
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O Relatório Anual do Cirurgião Geral (equivalente a ministro da Saúde), divulgado pelo Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças dos EUA, dedicado aos efeitos do fumo passivo na saúde constata uma evidência devastadora: “Não existe nível seguro de exposição ao fumo para os não fumadores e o risco de virem a ter uma doença cardíaca aumenta de 25 a 30 por cento, enquanto que a probabilidade de terem cancro do pulmão é 20 a 30 por cento maior do que nas pessoas que não estão expostas ao fumo.”

Estes dados são esclarecedores para o médico e presidente da Confederação Portuguesa de Prevenção do Tabagismo, Luís Rebelo: “Não há dúvidas sobre os resultados porque este relatório, o primeiro do género, baseia-se em estudos e tem por base a evidência científica.”

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Luís Rebelo diz-se supreendido com a conclusão de “não existir segurança mínima de exposição ao tabaco” – ou seja, é tão perigoso para a saúde do não fumador estar exposto ao fumo de um ou de vários cigarros.

O elevado número de vítimas de doenças cardiovasculares, em comparação com os doentes das vias respiratórias, foi outra conclusão do documento que constituiu uma novidade para o médico.

Luís Rebelo admite que este relatório sirva para fazer aprovar leis restritivas ao fumo em Portugal: “Há pareceres científicos no relatório que espero venham reforçar a legislação nacional para avançar com a proibição do fumo nos locais de trabalho, incluindo restaurantes e bares.”

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CRIANÇAS SÃO VÍTIMAS

Sem margem para dúvidas, o documento conclui que “o fumo passivo é causa de morte prematura e de doença em crianças e adultos não fumadores e que as crianças expostas ao fumo passivo têm o risco acrescido de síndroma de morte súbita, infecções respiratórias graves, problemas de audição e asma”.

As consequências graves do fumo dos cigarros na saúde das crianças não ficam por aqui. O tabaco de pais fumadores irá provocar problemas respiratórios nos filhos, incluindo o crescimento lento dos pulmões. Quanto aos adultos não fumadores, a exposição ao fumo passivo provoca efeitos imediatos no sistema cardiovascular e é causa de doença cardíaca e do cancro do pulmão.

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A evidência científica indica que não há um nível de risco nulo de exposição ao fumo passivo. O relatório conclui que eliminar o fumo nos espaços fechados protege os não fumadores. Contudo, “separar fumadores de não fumadores e ventilar os edifícios não elimina a exposição dos não fumadores ao fumo passivo”.

BEBÉS DE BAIXO PESO

A evidência é suficiente para concluir que há uma relação causa-efeito entre a grávida exposta ao fumo passivo e o nascimento de bebés com baixo peso. Os dados sugerem (mas não concluem) a relação da exposição ao fumo nos períodos pré e pós-parto com os casos de cancro na infância.

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CANCRO DA MAMA

Os estudos científicos que serviram de base ao relatório agora divulgado sugerem, não concluem, que há uma relação entre o fumo passivo e o cancro da mama, das vias respiratórias e cavidades nasais e cervical.

CANCERÍGENOS

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Mais de 50 elementos cancerígenos – que são causa de cancro – foram identificados no fumo passivo. A evidência científica é suficiente para inferir a relação causa-efeito da exposição ao fumo passivo e os tumores em animais de laboratório.

"CONFIANTE NA LEGISLAÇÃO" (Correia de Campos, ministro da Saúde)

Correio da Manhã – O sr. ministro fuma?

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Correia da Campos – Não sou fumador.

– Como se dá em ambientes de fumo?

– Tenho dificuldade em respirar num local onde se fume, pelo que procurei, desde há muito, evitar que se fumasse em reuniões fechadas onde participo. Todavia, nada tenho contra o hábito de fumar ao ar livre, desde que o fumo se não oriente na minha direcção.

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– Preocupam-no os problemas associados ao tabaco?

– São indiscutíveis os riscos para a saúde do fumador activo. Demonstrou-se que o fumador passivo sofre um aumento em 20% do risco de contrair doenças causadas pelo fumo do tabaco. Desde que tive responsabilidades públicas na Saúde – quando fui secretário de Estado, há 27 anos, e ministro, há quatro anos – procurei que o País acompanhasse a tendência dos mais avançados para se prevenirem os efeitos nocivos do hábito de fumar.

– Considera-se antifumo?

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– Não sou fundamentalista nem ideólogo da ‘maldição da vítima’. Sei que muitos fumadores gostariam de deixar de fumar e é nosso dever ajudá-los, quer por legislação adequada, quer organizando os serviços de saúde de modo a facilitar as consultas e outros meios de cessação tabágica. Estou confiante de que a legislação virá a melhorar a saúde das gerações não fumadoras futuras e também a dos actuais fumadores.

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