Garcia dos Santos: morreu o general do 25 de Abril que fez guerra à corrupção
É a partir as 16h00 de domingo velado na Capela da Academia Militar, em Lisboa. Segunda-feira, há missa de corpo presente pelas 11h00. Será cremado no Alto de São João às 13h00.
Foi o homem que, no 25 de Abril de 1974, manteve as peças do xadrez da Revolução em contacto. Especialista em transmissões, Amadeu Garcia dos Santos era tenente-coronel quando recebeu de Otelo Saraiva de Carvalho a ordem: era preciso para planear, coordenar a executar as comunicações da Operação Viragem Histórica. Teve 15 dias para cumprir e conseguiu 'desviar' dos armazéns o material necessário. A 22 de abril colocou sob escuta GNR, PSP, a Legião, a PIDE e os ministros do Exército, da Defesa e o Chefe do Exército. A 23, dia do aniversário da irmã, com Otelo e Jaime Neves ("amigo do peito" a quem anos mais tarde deu 10 dias de prisão militar), ultimou a montagem do Posto de Comando do MFA, no quartel da Pontinha, a partir do qual e para onde clandestinamente foram montados 5 km de cabo aéreo telefónico desde os Pupilos. A 24, às 18h00 o posto de comando, o OSCAR, estava pronto, ligado e em silêncio. Amadeu Garcia dos Santos, o militar sem o qual o 25 de Abril seria mais difícil de fazer, morreu ontem, aos 89 anos, em casa.
Nascido na rua da Barroca, no Bairro Alto, Lisboa, filho de um sargento de Infantaria, foi o melhor do seu curso na Academia (entrada em 1953 e com 15,4 valores ganhou a espada de Toledo) e o único de Engenharia. Fez duas comissões no Ultramar e estava no batalhão de telegrafistas quando se começou a planear a Revolução. Era mais velho que os capitães, mas respondeu "entro já" quando foi seduzido a aderir. E esteve um ano depois no 25 de Novembro.
Amigo de Ramalho Eanes, foi chefe da sua Casa Militar quando o general foi eleito o primeiro Presidente da República em democracia - e chegou a ser PR interino na viagem de Eanes a Angola para o funeral de Agostinho Neto, em setembro de 1979. Foi membro do Conselho da Revolução (76-82) e Chefe do Exército (81-83), de onde saiu exonerado sem explicações por Mário Soares, a quem deixou mais tarde de 'mão pendurada'.
Tinha 48 anos e nunca mais teve um cargo militar, indo para a reserva em 1992.
Foi secretário de Estado e presidente da Junta Autónoma das Estradas, onde se notabilizou por combater a corrupção que dizia lá existir e saiu em choque com o ministro João Cravinho, em 1998 - em tribunal recusou nomear os corruptos e pagou uma multa. "Eu sempre fui de resolver os problemas à facada", disse em 2019 numa entrevista à 'Sábado'.
Passou à reforma em 2000. Casado duas vezes, com quatro filhos, Garcia dos Santos é a partir as 16h00 de domingo velado na Capela da Academia Militar, em Lisboa. Segunda-feira, há missa de corpo presente pelas 11h00. Será cremado no Alto de São João às 13h00.
"O General Amadeu Garcia dos Santos foi, ao longo da sua notável carreira, um exemplo de dedicação, coragem e integridade. Militar de exceção, homem de visão estratégica, rigor intelectual e profundo sentido de serviço, a sua vida confunde-se com a história recente do Exército Português", afirma ao CM o general Eduardo Mendes Ferrão, chefe do Exército. "Desempenhou um papel de grande relevância na preparação e consolidação do 25 de Abril, colocando o seu prestígio, a sua clarividência e o seu compromisso com os valores democráticos ao serviço da mudança histórica que transformou Portugal", refere, acrescentando que "deixou uma marca indelével na Instituição que serviu com honra e no país que sempre colocou acima de si próprio".
A morte de Garcia dos Santos foi também lamentada pelo Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa "recebeu com enorme tristeza a notícia do falecimento" de "uma das figuras fundamentais do 25 de Abril e, mais tarde, no exercício de altos cargos militares".
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, enalteceu o seu "legado militar e cívico de grande valor, marcado pelo amor à Pátria e pelo serviço a Portugal".
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