MULHER OBRIGADA A ANDAR NUA
A mulher que no dia 6 de Outubro passeou nua pelas ruas da Guarda disse, em entrevista ao correio da Manhã, que não o fez como "uma prova de amor", mas porque foi “obrigada” pelo marido.
"Fui sujeita a andar despida na via pública e sob ameaças de pancada", afirmou Maria Manuela Coelho, de 38 anos, adiantando que nos meses em que esteve casada o marido lhe "bateu várias vezes”, conforme queixas apresentadas na PSP de Sintra e Guarda. A queixosa e o marido, António Correia de Almeida, de 39 anos, deram uma entrevista ao Jornal do Fundão, a 18 de Outubro, onde descreviam como “um momento de grande ternura” o passeio da mulher nua.
Esta situação insólita foi também noticiada pelo nosso jornal, a 23 de Outubro, e levou antigos vizinhos de Maria Manuela Coelho, residentes em Sintra (ver caixa), a denunciarem casos de alegada violência doméstica neste casal. No início, o casal afirmou que o acto pretendeu mostrar o amor que a mulher nutria pelo marido, mas agora Maria Manuela Coelho garante que foi "obrigada e sob ameaça de violência", pelo que meteu um processo de divórcio em Tribunal.
O acusado, no entanto, mantém a primeira versão dos acontecimentos, adiantando que a mulher lhe "foi infiel e quis provar o quanto gostava do marido, mas afinal não gosta nada". António Correia de Almeida reconhece, no entanto, que bateu na mulher “devido à sua infidelidade”.
Segundo Maria Manuela Coelho, numa viagem para a Guarda o marido “ameaçou” que a “deitava por uma ribanceira. Depois disse que ia comprar umas cordas, prender-me e obrigar-me a ir para a rua presa e nua. Eu nunca pensei que fosse capaz, mas foi. Chegámos a casa, despiu-me à força, prendeu-me com cordas e obrigou-me a ir para a rua. Foi a maior vergonha da minha vida”, contou.
A mulher terá percorrido mais de um quilómetro, até ser abordada por uma patrulha da PSP, que a levou a casa de carro, enquanto o marido regressava a pé.
“Quando fui à Polícia prestar declarações, ele obrigou-me a dizer que eu andava nua na rua para provar o meu amor por ele. Pura mentira, mas acabei por não apresentar queixa nessa altura", contou Maria Manuela Coelho. Este episódio, segundo adianta, "foi um dos muitos actos de violência” de que foi vítima. “Nos meses em que estivemos casados agrediu-me diversas vezes, uma das quais em Sintra, e fui assistida no Hospital Amadora-Sintra”.
Entretanto, a mulher afirma ter sofrido “mais agressões" depois do passeio e decidido fugir de casa, dando também início a um processo de divórcio. “Agora ele já me pediu desculpa e perdão, mas eu não o quero ver mais. Ele mete-me medo, vivo apavorada e num quarto alugado”, referiu Maria Manuela Coelho.
O seu advogado confirmou ao nosso jornal o início do processo de divórcio e que a cliente lhe disse que "o indivíduo (marido) a terá obrigado a andar nua na rua".
Quanto à existência de maus tratos, o causídico da Guarda apenas referiu que "para ela se querer divorciar é porque alguma coisa se passou".
Também o filho de Maria Manuela Coelho, de 17 anos, que não reside com a mãe, confirmou que esta lhe disse "que foi o marido que a obrigou a andar nua na rua".
Segundo o jovem, a mãe "é vítima de violência doméstica desde que se casou”. “Há algo de muito estranho nisto. Eles casaram-se muito rapidamente e depois ele começou-lhe logo a bater. Uma vez vi a minha mãe com nódoas negras em todo o corpo. Ela já deveria ter acabado com isto tudo há muito tempo", referiu o jovem, que solicitou o anonimato.
A PSP e o Ministério Público estão a investigar este caso.
Bati-lhe porque me traiu
"Bati duas vezes na minha mulher, porque ela me traiu", disse ao nosso jornal António Correia de Almeida, que confirma as acusações de maus tratos mas nega ter obrigado a mulher a andar nua nas ruas da Guarda no início de Outubro.
O indivíduo afirma querer "pôr termo a uma relação muito estranha e carregada de peripécias", adiantando que pretende "lavar a honra" e acabar o casamento com Maria Manuela Coelho.
Quanto ao passeio, António Correia de Almeida conta a sua versão: "O amante dela ligou-me para o telemóvel, disse-me que eu era um homem traído e ofendeu a minha honra. Fiquei desorientado e 'cego'. Disse à mulher que se me traíra tinha de redimir-se. Por isso, sugeri-lhe que fosse para a rua nua para provar o quanto me amava. Fui comprar a corda, chegámos a casa, ela despiu-se e viemos os dois para a rua. Aconteceu e não nego. Ela agora pode dizer que foi obrigada, mas eu apenas sugeri e ela aceitou".
No que respeita às acusações de violência doméstica e maus tratos, o indivíduo afirmou: "Bati-lhe duas vezes porque ela foi infiel. Arrependo-me de o ter feito, mas tenho que assumir que o fiz, porque sou um homem trabalhador e ela ofendeu a minha honra".
Sobre o processo de divórcio, António Correia de Almeida diz que "agora quem quer acabar com isto tudo" é ele, adiantando: "Dou-lhe o divórcio, mas tenho de defender os meus interesses, pois ela é muito instável e estragou-me a vida".
O indivíduo, trabalhador da construção civil, considera que a mulher "é mentirosa, inventa coisas e não sabe o que quer". António Correia de Almeida já foi ouvido na PSP de Sintra por causa da queixa sobre violência doméstica apresentada pela sua mulher.
Vizinhos de Sintra confirmam maus tratos
“Não acreditamos que aquilo tenha sido uma prova de amor. Tudo teve a ver com violência física”, refere quem conhece Maria Manuela Coelho em Várzea de Sintra, a sua terra natal, considerando que foi obrigada “através da violência física”.
O casal Bernardo e Maria Teresa Correia, e o irmão desta, Luís Pinto, são os gerentes de um café propriedade da queixosa, que já teve uma “considerável conta bancária” mas que as “agruras da vida se encarregaram de levar”. Depois de se ter divorciado do primeiro marido, Maria Manuela Coelho ausentou-se da Várzea de Sintra durante um ano e meio, regressando em Julho deste ano na companhia de outro homem, com quem garantia “querer casar-se”.
“Ele chama-se António Almeida e se a princípio tudo parecia correr bem, os problemas acabaram por vir depois, quando ela começou a aparecer marcada”, disse ao nosso jornal Maria Teresa Correia, para quem Maria Manuela Coelho “é quase uma irmã”.
Bernardo, Maria Teresa, e Luís Correia garantem ter recebido “com espanto” a notícia de que a amiga tinha dado uma prova de amor a “alguém que tanto lhe tinha batido”, passeando-se nua pelas ruas. Algum tempo depois, os inquilinos de Maria Manuela Coelho foram contactados telefonicamente pela queixosa. “Ela ligou-me e, quando a confrontei com a situação, começou a chorar, dizendo que tudo tinha acontecido depois de o marido lhe ter batido muito”, garantiu Maria Teresa Correia.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt