Mulheres eram escolhidas após troca de fotos na net

Com eles era “ver para crer”. A alegada rede de tráfico de mulheres para a indústria do sexo, que ontem continuou a ser interrogada no Tribunal de Leiria, tinha angariadores que se deslocavam com frequência ao Brasil para fazer o recrutamento das mulheres. Escolhiam-nas ‘a dedo’ com a ajuda de recrutadores locais e, por vezes, faziam uma pré-selecção pela internet.

11 de janeiro de 2006 às 00:00
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Segundo informações recolhidas pelo CM, Alfredo Morais – o ex-sub-chefe da PSP apontado como um dos cabecilhas do grupo, à sociedade com o dono do Passerelle, Vítor Trindade –, dividia o seu tempo entre os dois países, presumindo-se que tenha sido quem participou em muitas das acções de selecção.

O esquema funcionava a partir de uma primeira escolha feita por angariadores locais. Em alguns casos, terá havido troca de fotografias pela internet, para avaliar os dotes físicos das mulheres. Mas o recrutamento era quase sempre feito ao vivo, com a deslocação de elementos do grupo ao outro lado do Atlântico.

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A investigação deste processo foi desencadeada pelo Ministério Público de Leiria, a partir de alegadas denúncias feitas por imigrantes ilegais. O trabalho de recolha de elementos incriminatórios foi feito de forma intensiva e quase secreta, com o recurso a dezenas de horas de escutas telefónicas.

MARATONA

Quando saíram para a rua na madrugada de domingo, os elementos da Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB) e das directorias regionais da PJ, iam com um objectivo bem definido. Recolher o máximo de documentos e provas relacionados com a actividade criminosa da rede.

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Foi assim que entraram, por exemplo, numa casa de striptease na zona de Leiria, de onde levaram dois sacos com papéis e outros objectos suspeitos. Ao mesmo tempo, aproveitaram para agir de forma preventiva e fiscalizaram a documentação das pessoas que trabalhavam nos estabelecimentos, o que levou à detenção de 26 mulheres ilegais no País. A maioria, segundo fonte judicial, estava com o visto de turista caducado e pediu para ser encaminhada ao centro de acolhimento do aeroporto, em Lisboa, para abandonar o País.

Ontem, o juiz de Instrução Criminal, Paulo Fernandes, cumpriu uma maratona para ouvir os suspeitos. O último a ser ouvido foi Alfredo Morais, o ex-polícia. Vítor Trindade, dono do império Passerelle, acabou de ser ouvido no primeiro andar do Tribunal de Leiria, na sala onde têm decorrido os interrogatórios, pelas 22h15.

De acordo com elementos da PJ, Trindade e Morais seriam os líderes de uma poderosa organização criminosa, acusada de tráfico de pessoas, lenocínio e auxílio à imigração ilegal.

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Ana Maria, a única mulher pertencente ao grupo, ocupar-se-ia da vertente administrativa e da assistência às imigrantes, sempre que tinham um problema de saúde.

Embora tudo indique que possam ocorrer mais detenções relacionadas com este processo, fonte da PJ garante que a operação ‘Yankee’ “excedeu todas as expectativas”. “Foi detido quem era para ser detido e foram recolhidos os elementos que contávamos recolher”, precisou. As medidas de coacção a aplicar aos oito arguidos serão conhecidas hoje.

TODOS OS ARGUIDOS ESTÃO ACUSADOS DE LENOCÍDIO

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Os advogados de dois dos arguidos afirmaram ontem a inocência dos seus clientes, alegando que têm estado a ser passadas “informações falsas” sobre a conduta dos dois homens. “O meu cliente não é o ‘rei do sexo’, nem pertence a nenhuma rede organizada porque ela não existe”, afirmou Miguel Reis, defensor de Vítor Trindade.

Segundo Carlos Coelho, advogado de Jorge Peixoto, proprietário do clube Passerelle de Coimbra, todos os arguidos estão acusados de “lenocínio e associação para auxílio a imigração ilegal”. Todavia, o jurista afiança que o seu constituinte não é culpado e foi apanhado neste processo “por arrastamento”. “Ele está a ser tratado como um criminoso, mas é um bom pai de família e uma pessoa muito considerada em Coimbra”, disse Carlos Coelho, acrescentando que casas como o Passerelle acabavam “a partir do momento em que tivessem prostituição”.

SEGURANÇA

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A PSP de Leiria foi obrigada a reforçar a segurança junto ao Tribunal, ontem à tarde, para garantir a entrada dos arguidos sem problemas. Os suspeitos foram encaminhados um a um e entraram pelas traseiras.

AMEAÇAS

Nos últimos dois dias, têm-se concentrado nas imediações do Palácio da Justiça grupos de indivíduos, apontados como seguranças dos estabelecimentos dos arguidos. Alguns, chegaram a lançar palavras intimidatórias aos elementos da Comunicação Social.

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SACRIFÍCIO

A vontade de concluir os primeiros interrogatórios judiciais o mais rápido possível, obrigou os magistrados, advogados funcionários e suspeitos a fazerem um almoço ligeiro, dentro do Tribunal. A comida chegou num carro da PSP.

INTENSIVO

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O ritmo dos interrogatórios do Juiz de Instrução Criminal tem sido intenso. Em média, cada arguido tem estado sob ‘fogo cruzado’ mais de duas horas. E só Ana Maria tem permanecido todo o dia dentro do Palácio da Justiça.

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