Padre embaraça Igreja

Um ano após ter mandado publicar um anúncio em que dizia recusar a comunhão a quem usasse métodos contraceptivos e depois de condenado por difamação ao acusar de ‘serial killer’ a Associação de Planeamento Familiar, o padre franciscano Serras Pereira regressou ontem ao centro da polémica, defendendo que “a homossexualidade é uma doença”, que “o aborto é um crime pior do que a pedofilia”, que o uso do DIU (dispositivo intra-uterino) como contraceptivo é “assassino” e acusa, em afirmações ao CM, os outros sacerdotes de só não concordarem consigo por “má-fé” ou “ignorância crassa”.

11 de fevereiro de 2006 às 00:00
Padre embaraça Igreja Foto: Manuel Moreira
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Nuno Serras Pereira volta assim à ribalta, depois de uma entrevista ontem publicada no ‘O Independente’, na qual afirma que “a homossexualidade é uma doença” e que só não é assim reconhecida porque “o lóbi gay manda nas televisões”; considera que “um casal sem filhos não é uma família” e insiste em acusar a Associação de Planeamento Familiar (APF) de “assassínio em série”, já depois de condenado em Tribunal.

O padre entende ainda que “qualquer relação sexual que não vise a procriação é perversa”, defendendo que só “a castidade” e a contagem do período fértil da mulher “são métodos contraceptivos legítimos”, na medida em que o uso do preservativo ou pílula “falsificam a relação”.

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Já o uso do DIU implica para Serras Pereira a “violação do mandamento canónico ‘Não Matarás’, assim como entende que “o Estado não pode comparticipar a pílula do dia seguinte”, sob pena de se tornar num “modelo totalitário”.

ARGUMENTOS

Ao CM, o padre Serras Pereira confirmou as posições expressas na entrevista, das quais a Igreja já se demarcou, considerando que “mais do que o direito, a Igreja tem o dever de recusar a comunhão a quem pública e obstinadamente, sem arrependimento, viola os mandamentos”.

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Quando confrontado com as declarações do bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Carlos Azevedo, de que as suas ideias “não são conformes à última encíclica papal”, o padre franciscano responde ser “a opinião dele” e insiste estar convicto da razão.

Relativamente às acusações de “egocentrismo ou desejo de protagonismo” de que foi alvo o ano passado por parte de outros sacerdotes, aquando da publicação do anúncio, Serras Pereira disse não se pronunciar sobre “juízos de valor” que sobre ele se façam, insistindo que em termos doutrinários e no que respeita ao teor do anúncio “só não me reconhece razão quem estiver de má-fé ou por ignorância crassa”. E explica: “Não admito que haja má--fé por parte dos outros confrades, só posso atribuir as dúvidas à ignorância.”

Desafiado com a insistência em acusar a APF de “assassínio em série” mesmo depois de condenado em primeira instância por difamação, Serras Pereira lembra ter recorrido da sentença e salvaguarda que a acusação foi feita sobre uma associação congénere dos Estados Unidos.

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Ainda assim entende que “a juíza deu como provado que as afirmações não eram verdadeiras”, quando garante: “Eu posso comprovar com factos aquilo que afirmei”.

D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa: “Rudeza não conforme à encíclica”

Correio da Manhã – A Igreja revê-se nas declarações do padre Serras Pereira, como a de que a homossexualidade é uma doença?

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D. Carlos Azevedo – As posições do padre Nuno Serras Pereira são conhecidas pelo seu extremismo. A Igreja não se identifica com esta rudeza de linguagem. Não é compatível com a linha e atitude pastoral.

– E a equiparação entre os métodos contraceptivos e o homicídio?

– Insere-se tudo na mesma linha de expressão.

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– Pode-se concluir que a Igreja vê o padre Serras Pereira como um fundamentalista?

– Ele defende umas posições agressivas, com uma rudeza nada conformes à mais recente encíclica papal.

– A conclusão é então legítima, mas não usa o termo fundamentalista?

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– Não sou eu que vou fazer como aqueles que protestam contra as caricaturas e depois são mais agressivas do que a própria agressão de que dizem ser alvo.

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