PROSTITUTAS LIBERTADAS

A Directoria do Porto da PJ e a Polícia espanhola detiveram ontem de madrugada seis pessoas por alegado envolvimento numa rede de exploração sexual de mulheres, tendo ainda identificado e resgatado 55 cidadãs brasileiras, autênticas ‘escravas do sexo’, que estavam sequestradas em três casas nocturnas em Mirandela, Vinhais, e Verin, Espanha.

21 de outubro de 2003 às 00:00
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Os detidos, quatro homens e duas mulheres, têm idades entre os 24 e os 57 anos, dos quais se destaca um indivíduo que há dois anos cumpriu pena de prisão efectiva por lenocínio e fomento da prostituição.

A operação – uma semana após a revista ‘Time’ noticiar o fenómeno da prostituição em Bragança – decorreu nos estabelecimentos ‘Palas’, Mirandela, e ‘Soeira’, Vinhais, onde foram encontradas 40 mulheres, exploradas sexualmente em regime de clausura. Em simultâneo, a polícia espanhola vistoriava o bar de alterne ‘Cantinflas’, em Verin, onde descobriu 15 brasileiras e deteve o gerente, um cabo-verdiano de 40 anos.

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As brasileiras eram colocadas nas três casas, onde não permaneciam mais de um mês e depois rodavam entre Mirandela, Soeira e Verin, sob a vigilância de dois seguranças que puniam as que tentassem fugir.

Na operação de ontem, as autoridades apreenderam 12 mil euros em dinheiro, três viaturas de gama alta, três pistolas (duas com aparência de telemóvel) e documentação. Os detidos e as brasileiras foram ontem ouvidos pelos tribunais de Mirandela e Verin (Espanha).

Relato de vítima

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Dalila (nome fictício), 24 anos, veio do Brasil para uma das discotecas referenciadas, onde esteve durante dois meses após o que fugiu e denunciou às autoridades as "atrocidades que eles faziam com as meninas".

"Vim directamente para Mirandela. Entrei pelo aeroporto de Madrid e logo que cheguei fui informada de que teria de pagar 3500 euros pela passagem. Enquanto não paguei, eles retiveram-me o passaporte e nem autorização tinha para sair sozinha à rua", relatou-nos.

A jovem explicou que eram obrigadas a dormir e a viver em quartos no edifício onde trabalhavam. "Eles fechavam a porta por fora, só abrindo às três da tarde para nos dar de comer. Quem se revoltava era agredida e castigada. No dia anterior ao que fugi vi o meu patrão entrar no quarto e bater na minha colega só porque pediu que a deixasse ir ao cabeleireiro", contou ao CM. "Pagávamos 20 euros de diária pelo alojamento. Por cada vez que subíamos para o quarto o cliente pagava 35 euros por 30 minutos. Vinte para nós e quinze para a casa. A percentagem nos copos era dividida metade para cada parte.”

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O sequestro de 55 colegas brasileiras desta prostituta acabou ontem com a acção concertada das polícias de Portugal e Espanha, nos dois lados da fronteira.

A HISTÓRIA DE DUAS ESCRAVAS

Os destinos de Svesta e de Leia cruzaram-se numa casa de alterne em Coimbra, onde se prostituíram durante meses dando lucros de milhares de contos aos patrões. Svesta, ucraniana de 19 anos, foi aliciada em Nápoles, Itália, por um compatriota que lhe prometeu emprego e legalização em Portugal. Leia, russa, respondeu a um anúncio para trabalho bem remunerado. A história de ambas começou à chegada.

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Em Coimbra, onde se encontraram, sem documentos, foram obrigadas a prostituírem-se, das 11h00 às 04h00. Não recebiam nada, os patrões ficavam com tudo. Luís Frias, inspector do Serviço e Estrangeiros e Fronteiras que as libertou, numa operação conduzida em 2001, contou a história das duas jovens no seminário sobre Tráfico de Seres Humanos. “Svesta disse que nos três meses que se prostituiu deu a ganhar quatro mil contos”, revelou o inspector do SEF. Na operação, conduzida em Julho de 2001, o SEF e a PJ desmembraram o grupo organizado que explorava as mulheres. Entre os detidos estava a ‘Madame Élia’, a mulher que, contou Luís Frias, depois de ter cumprido uma pena de dez meses de prisão, lhe enviou o convite para a reabertura do estabelecimento ‘A Residencial das Camélias’

NEGÓCIO MILIONÁRIO

O tráfico de seres humanos, uma nova forma de escravatura, rendeu no ano passado 12 mil milhões de dólares, podendo já ter ultrapassado o lucro do tráfico de droga, e movimenta por ano um milhão e 200 mil mulheres e crianças, indicou ontem o jurista Mário Gomes Dias, auditor do Ministério da Administração Interna. Na Albânia, uma mulher custa 50 euros a um traficante.

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CAPA DA 'TIME'

Bragança ficou nas ‘bocas do mundo’ com a publicação, a sema passada, de uma reportagem de oito páginas na revista ‘Time’, uma das mais influentes do mundo. O artigo descrevia a situação daquela cidade, em que um grupo de mulheres se insurgiu contra a presença de um grande número de prostitutas brasileiras. A publicação apelidou a cidade transmontana como o “novo bairro de prostitutas da Europa”.

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