Um dos jovens agredidos por militares da GNR em Palmela terá desmaiado duas vezes
Militares da GNR foram acusados de sequestrar e agredir três menores.
Os militares da GNR acusados de sequestrar e agredir três menores em Palmela terão obrigado os jovens a correr à frente do carro de serviço depois das agressões e um deles terá desmaiado duas vezes durante as agressões.
Segundo descreve o Ministério Público (MP) na acusação a que a Lusa teve acesso esta sexta-feira, os três jovens, que fugiram em abril de 2024, da instituição onde vivem, foram encontrados por dois dos quatro militares da GNR agora acusados perto de uma fábrica abandonada e, nesse local, os menores foram obrigados a encostar-se a um muro, de braços levantados e de mãos colocadas no muro.
Além de bofetadas, murros e pontapés, os militares da GNR, segundo a acusação, também insultaram os jovens com referências à sua cor de pele e etnia.
O Ministério Público descreve um momento particular das agressões que envolve um dos jovens e um terceiro arguido que não estava de serviço naquele momento e que foi chamado ao local.
Segundo a acusação, este militar da GNR agarrou um dos menores pela gola do casaco e levou-o até à fábrica abandonada tendo usado um bastão para agredir o jovem, que, "não aguentando as dores, acabou por desmaiar".
Indiferente ao sofrimento do menor, o militar levou-o para o interior da fábrica e continuou as agressões, que só terminaram, pelo menos naquele local, com a intervenção de outro dos arguidos.
Já junto dos outros dois menores, o jovem que tinha sido levado para a fábrica abandonada terá sido de novo agredido com uma bastonada na cabeça, tendo desmaiado outra vez. O militar, "ao vê-lo caído, colocou o seu braço, envolvendo com aquele o pescoço do jovem, com a traqueia daquele na dobra do cotovelo, ou seja, aplicou o que vulgarmente se designa por golpe mata leão", descreve o MP.
Os jovens foram depois levados para o posto da GNR, onde ficaram durante cerca de uma hora e onde estava o quarto arguido deste processo. As agressões terão continuado no posto, com os menores algemados e virados para uma parede.
Passada essa hora, os militares decidiram levar os menores até à instituição onde vivem, mas no percurso, e depois de todas as agressões, ainda os obrigaram a correr à frente do carro.
"Agora corram à frente do carro, de mãos dadas até à instituição. Quem parar, leva mais", terão dito os militares, de acordo com a acusação.
"As vítimas, apesar de combalidas física e psicologicamente, com receio pela sua integridade física, obedeceram e percorreram o resto do percurso, cerca de 1 km a pé sendo seguidos pela viatura caracterizada da GNR", acrescentou o MP.
Já na instituição, os militares terão ameaçado os jovens para que não contassem o que aconteceu, tendo mesmo, para ocultar as agressões, elaborado um auto em que escreveram que os três jovens terão dito que foram vítimas de agressões por parte de outro jovem que trabalha na instituição, identificando um suspeito e até referindo frases que os menores terão dito.
O Ministério Público considerou que os militares "subjugaram, humilharam, obrigaram a suportar bastonadas, bofetadas, murros e pontapés, abusando de todos os poderes enquanto autoridade policial", e pediu uma sanção acessória de suspensão de funções pela acusação dos crimes de sequestro, abuso de poder, injúria agravada, falsificação de documento e denúncia caluniosa.
Os militares continuam, no entanto, em funções e, a propósito deste caso, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, disse esta sexta-feira que aguarda a acusação do MP para tomar uma decisão.
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