Venda de ouro sem controlo
Quatro peças de ouro em cima do balcão. O conjunto pesa 42 gramas. E a parada começa baixa. A testar a ansiedade do vendedor. O desespero em função da necessidade. Depois sobe em flecha. "Vá, podemos chegar a 1300 euros", diz, por fim, com olhar condescendente sobre o fio, brincos e relógio – cuja origem só atrapalha. Não interessa. Na loja de compra de ouro no Montijo, de uma famosa cadeia, como nas outras sete onde o CM entrou na última semana, como mero cliente, não há lugar a perguntas nem a identificações. A compradora abre a gaveta para puxar das notas.
Os ourives, diz a lei, têm de registar as peças que compram, fotografá-las, retê-las um mês antes de serem revendidas, escoadas e fundidas. É obrigatório fazer ficha do vendedor, fotocópia do bilhete de identidade ou cartão do cidadão. E reportar de imediato à Judiciária – para controlo do ouro roubado, à mão armada, por esticão ou furto. Mas poucos o fazem. E ninguém fiscaliza. O negócio fala mais alto.
As lojas estão vazias, as cadeiras são confortáveis. Cara a cara com o comprador, fala-se baixinho. "Tem os cotovelos apoiados na mesa. Está a dar peso ao ouro", diz a funcionária entre risos. "Dou mil euros por tudo, se chamar o patrão pode chegar aos 1100, a senhora é que sabe", dizem-nos em Setúbal.
Faz-se silêncio. À nossa frente, a compradora, a balança e a calculadora. Não há mais ouro à vista, dinheiro só com negócio fechado. Recuamos. "Vou pensar melhor".
Próxima paragem, Cacém. Há dois funcionários, outra cliente. Ouvimos a conversa uns dos outros. Peças na mesa, breve troca de palavras e surge um pequeno martelo, sobre o vidro do relógio. "Posso destruir? Aqui só nos interessa o ouro". Trememos, mas até ofereciam 960 euros.
Na casa dos 40 anos, aspecto vulgar, apanhámos sobretudo mulheres. Simpáticas e despachadas. Não há janelas, as câmaras filmam a mesa do negócio. E raramente usam químicos para testar os quilates. Chega o peso. Quase nem usam óculo, é a olho.
Em Cascais, pedem meia hora para o patrão trazer 670 euros. "Estou, senhor A., está aqui uma senhora, não tenho dinheiro e os bancos já fecharam. São 750 euros", arrisca, enquanto nos pisca o olho. Oitenta euros a mais. Ponto positivo: o peso das peças é o mesmo em todas as lojas.
Lisboa e Alverca oferecem 600 euros. O preço da grama não obedece a regras. E o ouro, derretido, não deixa rasto. Nunca nos identificámos, ninguém quis saber.
ATENDEM UM ÚNICO CLIENTE À PORTA FECHADA
As portas das lojas – espaços pequenos, na maior parte das vezes sem janelas – estão abertas até à entrada de alguém. Mal chega um cliente, as portas são encostadas. Em situações excepcionais, admite--se a entrada de mais um cliente. Só um. Não há lugar para outros. A afluência também não é grande, tal a quantidade de lojas que abrem todos os dias, por todo o lado.
"ISTO É TUDO PARA DERRETER"
O fio que levámos para a reportagem tinha um nó junto ao fecho. Em jeito de conversa, pedimos desculpa pelo estado da peça e a resposta foi clara: "Não se preocupe que isto é tudo para derreter". A funcionária da loja de ouro, em Setúbal, não podia ter sido mais directa. De seguida, pegou nas peças todas juntas e colocou na balança.
DISCURSO DIRECTO
"POTENCIA MAIS ROUBOS", Luís Baptista, Coordenador da PJ na reforma
Correio da Manhã – A que pode levar esta falta de controlo dos compradores de ouro ?
Luís Baptista – Isto leva a mais crimes. Os compradores têm de ter a noção de que estamos numa altura de crise e que isto potencia mais roubos.
– Arriscam ser responsabilizados criminalmente?
– Sem dúvida. Em alguns casos podem ser constituídos arguidos por receptação.
– O que devem fazer os compradores para ajudar as autoridades?
– Devem enviar à Polícia Judiciária os mapas dos artigos que compram para avaliação.
– Por que é que isso não acontece?
– Porque a lei não é imperativa.
"OS PREJUDICADOS SÃO OS OURIVES"
Dedicado ao negócio do ouro há mais de 20 anos, António C., ourives em Lisboa, olha para as peças e diz, peremptório: "Isto vale 700 euros, mas não compramos ouro a pessoas. Se quiser tem as outras lojas, que estão espalhadas por todo o lado."
Já identificados como repórteres do CM, o ourives diz-nos que já esperava que nas casas de ouro nos oferecessem mais dinheiro. "Os prejudicados são os ourives. A maior parte do ouro que cai nessas lojas é resultado de assaltos. Tenho clientes habituais a quem compro ouro e, durante pelo menos um mês, nem lhe toco. Preciso de uma semana para fazer o registo das peças para enviar para a Polícia Judiciária, que confere se o ouro não é roubado ou não resulta de actividades ilícitas. E isto demora pelo menos mais três semanas", explica António C. É o custo de quem cumpre a lei. Um grupo de trabalho no Parlamento está a trabalhar para a constituição de uma legislação mais apertada nesta matéria.
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