Mãe de militar falecido acusa Azeredo Lopes, Exército e médico.
“Puxaram por ele até tombar”: Pais de Hugo Abreu apontam falta de assistência e abusos nos Comandos
"Estive na tropa e sei que as regras são rígidas e exigentes. Mas naquele momento não houve ninguém com coração para salvar o meu filho. Puxaram por ele até tombar. Sofremos e continuamos a sofrer. Desde aquele telefonema [a anunciar a morte] que não tenho vida, trabalho apenas para comer, nada mais vale a pena." Foi em lágrimas que José Abreu explicou em tribunal os efeitos na família da morte do filho Hugo durante a Prova Zero do 127º Curso de Comandos, em setembro de 2016.
"Perdi a alegria de viver. Tenho saudades das nossas brincadeiras. A notícia foi um choque e depois, vê-lo daquela forma na morgue... nem quis acreditar que era ele. Parecia que tinha 10 anos por estar tão magrinho, tinha os olhos fundos e estava todo negro. Nem o reconheci pela cara, só pelas mãos", explicou o pai de Hugo Abreu, que morreu na tenda.
A mãe, Ângela Abreu, manteve o tom, mas a meio do depoimento ‘quebrou’ e, num pranto, recordou a forma como foi tratada pelo ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes, por responsáveis do Exército e, particularmente, pelo médico militar Miguel Domingues, que estava ausente na altura em que os recrutas começaram a ter problemas.
"Disseram-nos que fizeram tudo para o salvar, que lhe deram sete litros de água, mas era uma grande mentira. Nunca ninguém nos explicou o que aconteceu, fui eu que fui descobrindo depois de falar com os colegas do meu filho nas semanas seguintes. Não somos tontinhos, sabemos o que é uma formação de Comandos. Quiseram passar a ideia que o Hugo não aguentou, mas ele estava preparado. O Hugo foi puxado para a morte", acusou a mãe. O julgamento continua esta quarta-feira.
Pormenores
Viagem de França
José e Ângela Abreu estão emigrados em França, onde vivem com a filha de oito anos. Trabalham como pedreiro e assistente operacional numa escola e viajaram nos últimos dias para Lisboa apenas para depor enquanto assistentes.
Água negada a recrutas
Na fase de instrução, o médico Miguel Onofre Domingues afirmou que, devido ao "cansaço extremo" dos instruendos, pediu ao capitão Rui Monteiro para que estes passassem por uma área com água para refrescar. A resposta foi negativa já que tal ação "iria atrasar a instrução".
Penas até 16 anos
Este processo senta 19 arguidos (oficiais, sargentos e praças) no banco dos réus por 539 crimes de abuso de autoridade por ofensa à integridade física – um crime militar – que culminaram na morte de Hugo Abreu e de Dylan Silva.
Arriscam penas de oito a 16 anos de prisão.
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