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ABANDONEI-OS POR AMOR

“Deixei-os por amor a eles, porque não tenho condições para os criar”. J., de 19 anos e residente no Vale da Amoreira, expõe assim as razões que a levaram, na tarde de terça-feira, a abandonar os dois filhos, um de sete meses e outro a uma semana de completar dois anos, nas traseiras do posto da GNR da Baixa da Banheira. “Abandonei-os para os ajudar, por amor”, reafirma.

11 de março de 2004 às 00:00

J. falou, serenamente e depois de uma noite detida e mal dormida, ao Correio da Manhã. Explicou que só deixou os filhos na rua “porque não tenho condições”.

Não sabe do paradeiro do pai das crianças “há muitos meses”. “Nunca quis saber de nada, nunca ajudou”, recorda. J. refere que não pode trabalhar porque “é preciso tomar conta dos meninos”.

Angolana “já há alguns anos em Portugal”, mostra desalento nas palavras. A autorização de residência já caducou, porque não conseguiu contrato de trabalho. Mas para trabalhar teria de deixar os filhos em casa. Num quarto, alugado, onde vive, no Vale da Amoreira.

E foi em ‘desespero’ que tomou a decisão de deixar os filhos. Abandonou-os... nas traseiras do posto da GNR da Baixa da Banheira. Para que pudessem ser facilmente encontrados. “Não era um caso de polícia, era mais um caso social”, refere fonte policial. “Sabia que ao deixá-los naquele local, podiam ser recolhidos e reencaminhados correctamente”, continua a mesma fonte da GNR.

SEM RESPOSTAS

J. diz que só quer “ter as crianças” com ela. O mais velho completa dois anos no dia 16. Sofre de uma ‘alergia’ numa perna e precisa de acompanhamento médico regular. O outro tem sete meses. Mais um motivo para abandonar os filhos: estavam a ficar doentes. “Não tinha condições para lhes dar de comer, para dar um banho, que também é preciso, para tratar deles”, lamenta.

A jovem mãe afirma que recorreu aos serviços da segurança social do Barreiro. “Fui muitas vezes a pé do Vale da Amoreira até ao Barreiro, com os meus filhos, mas ninguém me ajudou”, diz. A única informação que lhe deram é que teria de aguardar pelo envio de um postal para comparecer nos serviços. “Nem quiseram saber se eu tinha ou não condições”, frisa J. Ainda sugeriu, recorda, que a assistência social colocasse as crianças num colégio durante algum tempo, “até eu conseguir estabilidade num trabalho”. Nada. E J. diz que não lhe faltam propostas de trabalho. “Ninguém compreendeu e nós não podíamos passar a vida a pedir, a depender dos outros”, diz.

“NÃO CONTOU OS PROBLEMAS”

Fernando Lopes, amigo de J., revela o sentimento vivido pelos conhecidos da jovem. “Ficámos chocados”, afirma, acrescentando que “quando as pessoas souberam disponibilizaram-se logo para ficar com os meninos”. No Vale da Amoreira, diz, “há um sentimento de entreajuda e se ela falasse e pedisse, podíamos ter ajudado ainda mais”. “Fechou-se, não contou os problemas que tinha”, lamenta Fernando. Outro amigo refere mesmo que J. já terá vivido na rua com as crianças. “A culpa é da Segurança Social”, diz.

Depois de ouvida pela juíza no Tribunal da Moita, J. saiu em liberdade, sendo-lhe imposta a apresentação regular no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, em Setúbal. As crianças ficam sob custódia do Centro de Acolhimento da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, até que a juíza decida o seu futuro. J. pode visitá-las e terá de mostrar “vontade de as reaver” e “capacidade para trabalhar”.

"AGARROU-SE ÀS PERNAS A CHORAR"

Isalinda Batista tão cedo não irá esquecer a tarde de 9 de Março. “Fui a primeira pessoa que o menino viu e agarrou-se logo às minhas pernas, a chorar”, diz, emocionada, esta residente no Largo da GNR, bem em frente do posto e a pessoa que encontrou o filho mais velho de J., à porta do prédio onde vive. Como tinha visto J. durante a tarde, pensou “que a criança se tinha perdido da mãe. Peguei nele e fui ao posto porque pensei que a mãe estivesse lá”. Não estava. “Um casal do Vale da Amoreira que estava no posto conhecia a criança e a mãe de vista”, conta Isalinda.

Como tinham sido vistas duas crianças, logo os militares da GNR encontraram o bebé mais novo – num carrinho de bebé, nas traseiras do posto. “Fui comprar iogurtes e papas e quando voltei ao posto, os guardas estavam a dar-lhes bananas e bolachas”, recorda Isalinda. “Estavam cheias de fome”, diz. Mudaram as fraldas ainda no posto. Só depois as levaram para o Hospital do Barreiro e posteriormente para o Centro de Acolhimento da Misericórdia. Isalinda recorda que “as crianças estavam bem tratadas”, mas que “nem collants tinham. O mais velho só tinha umas calças de ganga”, diz.

Na zona, muitas vizinhas viram J. durante a tarde. E grande parte mobilizou-se para ajudar as crianças. Mas não deixam de censurar a atitude de J. “Quando temos problemas, pedimos ajuda aos vizinhos”, desabafou Lurdes Viegas, outra vizinha do posto.

APONTAMENTOS DE UM CASO

COM FOME

As duas crianças foram alimentadas no posto da GNR da Baixa da Banheira. Segundo contou ao CM Isalinda Batista, terá sido mesmo um militar daquele posto, que também é pai de um bebé, que terá mudado as fraldas.

ACOLHIDAS

Só por volta das 19 horas é que os dois filhos de J. ficaram entregues aos cuidados do Centro de Acolhimento da Misericórdia do Bar-reiro.

MÃE VOLTA

Quando J. se apresentou no posto da GNR, justificou o abandono com a falta de condições para os criar. Deixou-os perto do posto porque assim “sabia que alguém iria tomar conta deles, até arranjar emprego”, contou às autoridades.

BEM TRATADA

J. ficou detida uma noite. “Fui muito bem tratada no posto”, contou ao CM. Ontem foi posta em liberdade.

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