O advogado Pedro Maduro, autor do disparo que vitimou o caçador Lourenço Candeias em Dezembro de 1999 quando se encontrava a caçar furtivamente na Herdade da Torre, perto de São Cristóvão, concelho de Montemor-o-Novo, foi ontem condenado por homicídio simples a uma pena de cinco anos de prisão e a indemnizações no valor total de 150 mil euros.
Uma sentença que provocou reacções imediatas na sala de audiências do Tribunal Judicial de Montemor com gritos de “assassino” e manifestações de revolta.
Emocionada, Lucinda Candeias, uma das três filhas da vítima, disse ao nosso jornal, após a leitura da sentença, que a pena de prisão foi injusta. "Esperava 16 anos. É uma injustiça. O advogado vai recorrer da decisão e, depois, irá cumprir menos anos de prisão", referiu.
Durante a leitura do acórdão, o presidente do colectivo de juízes, Gomes de Sousa, referiu que o arguido Pedro Maduro, de 37 anos, ex-agente da PJ militar e filho de um juiz do Supremo Tribunal de Justiça, confessou em tribunal ter sido o autor do disparo que vitimou Lourenço Candeias.
No entanto, sublinhou que não existiu qualquer fundamento para a alegada legítima defesa. Além disso, acrescentou que a vítima apresentava uma taxa de alcoolemia de 1,39 gr/l e que foi a mesma que provocou a tragédia ao entrar furtivamente numa reserva de caça e ao disparar o primeiro tiro.
Lourenço Candeias, 51 anos, encarregado de construção civil e residente em Montemor, encontrava-se a caçar sozinho na referida herdade - reserva de caça turística -, quando foi atingido nas costas por uma bala utilizada para a caça grossa.
"Homem pacato e bom trabalhador", segundo os familiares, este caçador deslocou-se após o almoço até à propriedade com alguns amigos, mas nenhum destes presenciou o crime, pois estavam a caçar numa outra herdade de regime livre.
A certa altura, a vítima terá disparado alguns tiros que chamaram a atenção do advogado. Este e um amigo, André Matos, deslocaram-se até ao local de jipe, munidos com uma caçadeira e cartuxos. Numa primeira passagem não viram ninguém, de acordo com a versão do homicida. Pouco depois avistaram uns cães e um homem escondido atrás de um sobreiro.
"Dirigi-me ao caçador para perguntar o que estava ali a fazer. Ele saiu do local e apontou-me a arma. Começou a afastar-se e, subitamente, disparou um tiro que acertou numa ramada", referiu o arguido ao juiz, na primeira audiência.
Nesse instante, o advogado disparou também com a sua arma que, entretanto, tinha ido buscar à viatura. "Apontei para o chão e não me apercebi que o tinha atingido", referiu.
RECURSOS
Após a leitura da sentença, o advogado de Pedro Maduro, Sertório Barona, decidiu interpor recurso. O arguido ficou, dessa forma, a aguardar os ulteriores desenvolvimentos do processo em liberdade com termo de identidade e residência. Além disso, ficou impossibilitado de entrar no concelho de Montemor.
A família de Lourenço Candeias recorreu também da sentença. Lucinda Candeias, filha da vítima, esperava uma pena de prisão de 16 anos.
PRESSÃO
Este crime, por ter envolvido pessoas de extractos sociais diferentes, designadamente um encarregado de obras e um advogado, suscitou o interesse não só da Comunicação Social como também da opinião pública. Este facto não passou despercebido ao colectivo de juízes, tendo o presidente Gomes de Sousa sublinhado que desde o início do julgamento aconteceram alguns incidentes e manifestações de “pressão”.
TRISTEZA
Tristes, não só pela morte de um ente querido, como também pela sentença aplicada ao homicida, a família de Lourenço Candeias disse ao nosso jornal que apenas um dos lados da história foi ouvido em tribunal. "O meu pai estava sozinho. Apesar de, naquele dia, estar a caçar numa reserva e de terem dito que de vez em quando o fazia, nunca teve problemas com a justiça. Não acredito que tenha provocado a sua morte", disse uma filha.
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