Manuel Gomes iniciou-se na profissão de padeiro quando tinha apenas 15 anos e rumou para França em busca de uma vida melhor, onde se juntou ao pai e aos irmãos. Era um rapaz franzino, mas com “muita vontade de aprender”.
Hoje, aos 51 anos, o padeiro natural de Penude, Lamego, assegura que mantém o espírito empreendedor da juventude para continuar a apostar no negócio da padaria.
Manuel Gomes trouxe o método de trabalho de França – o seu pão ‘fala’ francês, devido ao formato de baguete –, e apostou também nos produtos regionais, como o bolo podre e os ‘cornos’ de Penude e na pastelaria diversa.
A história da sua vida profissional começou quando, sem medo do trabalho, abraçou os segredos do pão nas terras gaulesas e depressa aprendeu a respectiva ‘linguagem’.
Já não se recorda do primeiro ordenado, mas é com “imensa ternura e respeito” que fala do seu mestre, monsieur Blaise, na pequena cidade de Tarbes, no Sudoeste de França, e que ao longo de seis anos lhe ensinou a arte de fazer pão e diversos tipos de pastéis e afins.
A sede de “conhecer o que havia do outro lado da rua”, como o próprio afirma, levou-o a sair daquele estabelecimento e dar azo ao seu talento, mas agora por conta própria.
O emigrante regressou a Portugal nos anos 80 e decidiu manter a aposta no ofício que o iniciou no mundo do trabalho. Corria o ano de 1986 quando Manuel Gomes e a mulher decidiram voltar, após três anos de casamento.
“A minha esposa não se dava bem com os ares de França e por isso acabei por ceder à vontade dela e regressámos à aldeia onde nascemos”.
Na mala não trazia o típico ‘pé-de-meia’, ainda que a vida lhe tivesse corrido bem. Por isso recorreu a um empréstimo bancário para investir na compra de material de panificação.
Com cinco mil euros e o sogro como fiador, deu o pontapé de saída como empresário da panificação e arrendou as instalações de uma antiga padaria, em Matancinha, uma aldeia perto da sua terra Natal.
“Apesar de nunca ter trabalhado por conta própria, decidi apostar neste negócio com toda a força, sabendo que teria que trabalhar de noite e descansar de dia”, diz o padeiro.
Escolheu uma sexta-feira, 13 de Julho, para inaugurar a empresa, e apesar de supersticioso, o negócio continua no bom caminho. “Graças a Deus estou a dar-me bem”, garante o empresário.
Nos primeiros meses o seu produto não caiu nas graças dos durienses. “Achavam estranho colocar o pão de baguete, cortado aos pedaços, dentro de um cesto. E o mais engraçado é que este pão era conotado com o cacete das rabanadas”, recorda.
Ao longo de 36 anos de carreira, o ‘fair play’ de Manuel Gomes fê-lo conquistar o respeito dos colegas de profissão.
“Tenho uma boa relação com os meus colegas padeiros. Cada um tem que zelar pelo seu negócio e não andar obcecado com aquilo que os outros têm”, salienta.
Sinal dessa abertura foi a presença de todos os empresários do ramo, quando em Julho de 2002 inaugurou as novas instalações da empresa. “Sou um ser humano sensível e gosto de conviver com todas as pessoas”.
A provar a sua dedicação à padaria está o facto de já ter ensinado “esta arte a centenas de jovens”, embora lamente que a sua profissão esteja rodeada de “muito preconceito: amassar o pão não é chique aos olhos das pessoas, mas tenho orgulho em ser padeiro”.
QUEIXAS 'LEVADAS' AO PATRÃO
Quando chegou a Portugal, este empresário tinha cabelos compridos, ar de cantor de ‘rock’, as roupas extravagantes e uma postura extrovertida, fisionomia que fez com que ouvisse comentários desagradáveis.
Um dia quando colocava pão num depósito, uma idosa descontente com a sua qualidade abordou-o com um recado para o dono da padaria.
“Diga ao senhor Gomes que o pão anda cada vez pior”. Surpreendido acabou por apenas dizer à senhora: “Não se preocupe que eu darei o recado”. Outra situação engraçada aconteceu quando um idoso, para ganhar um calendário, lhe perguntou pelo ‘senhor Gomes’.
“Tinha aspecto de tudo menos de padeiro”, concluiu o empresário.
BILHETE DE IDENTIDADE
O sector da panificação não tem problemas de falta de mão-de-obra, pois continua a aliciar muitas pessoas. Há, no entanto, uma clara diminuição de pasteleiros especialistas em padaria regional. No entanto, esse problema é minimizado com a passagem dos ‘segredos’ de geração em geração.
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