Vara chegou ao tribunal algemado depois de sair do Estabelecimento Prisional de Évora.
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O antigo ministro Armando Vara disse esta terça-feira em tribunal que o milhão de euros depositado na conta da sua filha era proveniente de serviços de consultoria efetuados antes de ser administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD).
Armando Vara, que esta terça-feira foi ouvido na qualidade de testemunha da filha, Bárbara Vara, na instrução do processo "Operação Marquês", apesar de ser também arguido, respondeu "ao que lhe foi perguntado" pelo juiz de instrução criminal Ivo Rosa, relatou à saída o seu advogado, Tiago Rodrigues Bastos.
Vara, que se encontra a cumprir prisão em Évora o âmbito do processo "Face Oculta" e que chegou esta terça-feira à tarde ao Tribunal Central de Instrução Criminal algemado, foi ouvido mais de "duas horas e meia" pelo juiz Ivo Rosa e terá respondido a questões relacionadas com a sua nomeação para a CGD e sobre um empréstimo do banco estatal ao projeto do empreendimento de Vale do Lobo, no Algarve, superior a 280 milhões de euros.
Tiago Rodrigues Bastos disse que Armando Vara respondeu "a todas as perguntas que o juiz lhe decidiu colocar", numa "inquirição exaustiva" e ao fim de mais de duas horas e meia recusou mais perguntas, por entender que tinha "esclarecido tudo".
"Foi bastante mais lata, bastante mais abrangente do que aquilo que era o pressuposto pela vinda dele aqui hoje", disse o advogado, explicando que foi mais abrangente porque "Armando Vara entendeu que devia responder a todas as questões que o senhor juiz lhe quisesse colocar e manifestou essa disponibilidade".
Segundo o advogado, o juiz Ivo Rosa entendeu colocar-lhe questões relacionadas com toda a matéria que lhe é imputada nestes atos e Vara respondeu.
Tiago Rodrigues Bastos disse que o antigo ministro justificou que o milhão de euros depositado na conta da sua filha -- que disse no processo desconhecer a existência daquela quantia -- era proveniente de rendimentos da sua atividade liberal como consultor, "por serviços prestados todos eles antes da sua nomeação para administrador da CGD" durante três anos.
Na acusação consta que o milhão de euros depositado na sua conta proveniente de uma offshore seriam "luvas" pelo negócio do empréstimo bancário ao projeto urbanístico de Vale de Lobo.
O advogado afirmou que Armando Vara sempre negou que tivesse recebido qualquer contrapartida por qualquer ato ilícito.
Quando questionado sobre o motivo pelo qual Vara não deu esta explicação na fase de inquérito, Tiago Rodrigues Bastos disse que "hoje foi a primeira vez que Armando Vara foi inquirido numa fase de instrução em que estão estabilizados os factos".
"Diria que pela razão simples de que aquilo que Armando Vara quis no passado explicar e aquilo a que se predispôs a explicar nunca colheu credibilidade junto do Ministério Público (MP). Penso que é manifesto que não há disponibilidade do MP para acreditar naquilo que o doutor Armando Vara diz, então as regras são estas: as pessoas falam à medida que sabem exatamente aquilo que lhe é imputado e como lhe é imputado", argumentou.
Disse que se Armando Vara "tiver que arrostar com alguns custos da sua posição está disponível para isso", vincando que o antigo governante socialista "admite que há uma situação fiscal e que está disponível para resolver a questão fiscal, para pagar o que tiver a pagar do ponto de vista dos impostos".
O advogado de Bárbara Vara, Rui Patrício, considerou que as declarações de Armando Vara "foram suficientes" para esclarecer a posição da filha no processo.
"O doutor Armando Vara deu as explicações que já toda a gente deu neste processo relacionado com a nossa cliente, isto é que ela não tem nada a ver nem com as contas nem com o dinheiro", afirmou.
Bárbara Vara responde por dois crimes de branqueamento de capitais no processo "Operação Marquês", onde o antigo primeiro-ministro socialista José Sócrates é o principal arguido.
O inquérito Operação Marquês, que teve início há mais de cinco anos, culminou na acusação a 28 arguidos, 19 pessoas e nove empresas, e investigou a alegada prática de quase duas centenas de crimes de natureza económico-financeira.
José Sócrates foi acusado de três crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, 16 de branqueamento de capitais, nove de falsificação de documentos e três de fraude fiscal qualificada.
Entre outras imputações, o Ministério Público está convencido que Sócrates recebeu cerca de 34 milhões de euros, entre 2006 e 2015, a troco de favorecimentos a interesses do ex-banqueiro Ricardo Salgado no Grupo Espírito Santos e na PT, bem como para garantir a concessão de financiamento da Caixa Geral de Depósitos ao empreendimento de luxo Vale do Lobo, no Algarve, e por favorecer negócios do Grupo Lena.
Entre os 28 arguidos estão Carlos Santos Silva, Henrique Granadeiro, Zeinal Bava, Armando Vara, Bárbara Vara, Joaquim Barroca, Helder Bataglia, Rui Mão de Ferro e Gonçalo Ferreira, empresas do grupo Lena (Lena SGPS, LEC SGPS e LEC SA) e a sociedade Vale do Lobo Resorts Turísticos de Luxo.
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