Associações de pára-quedistas preparavam-se para lançar acções de protesto ontem, em Tancos, durante as cerimónias do Dia das Tropas Pára-Quedistas, no receio de que a anunciada reestruturação do Exército possa pôr fim a este corpo de tropas ou atingir a grande unidade dos pára-quedistas, a Brigada Aerotransportada Independente (BAI).
“Não seria nada que pusesse em causa a disciplina, mas havia quem se preparasse para aparecer com gravata preta ou mesmo com cartazes”, adiantou um oficial.
Seria, no entanto, o suficiente para marcar a cerimónia, onde milhares de antigos pára-quedistas e famílias estiveram presentes associando-se às comemorações militares e oficiais. O protesto só não foi para a frente porque alguns sectores conseguiram à última hora demover os mais radicais e apelar à calma. “Conseguimos explicar que a reestruturação não aponta para o fim dos pára-quedistas e que nada é definitivo”, explicou um dos elementos contra os protestos previstos.
PREOCUPAÇÃO CRESCENTE
Há já sectores do Exército, porém, que começam a manifestar preocupação, uma vez que as associações são elementos-chave na angariação de voluntários e se se verificar um divórcio completo entre as associações e o Exército, as consequências poderão ser delicadas.
Ontem eram visíveis sinais de crispação. Manuel Silva, presidente da Associação de Pára-quedistas do Minho, já tinha “ouvido falar” da reestruturação e das consequências para os ‘páras’, mas, na sua opinião, “o Paulo Portas não deve cair nessa asneira”. Outro homem da velha-guarda atira: “Se ele aceitar reduzir os ‘páras’ é porque não percebe nada disto”.
E nem a mensagem enviada pelo Chefe de Estado-Maior do Exército, general Valença Pinto, lida às forças em parada, contribuiu para amenizar o ambiente. Manteve o mar de dúvidas, uma vez que não abordou a saída da BAI do batalhão de apoio e serviços, nem do grupo de artilharia e do esquadrão de reconhecimento e muito menos da ‘desactivação’ do 3.º batalhão de infantaria aerotransportada.
Em contrapartida, a mensagem de Valença Pinto abordou a constituição de uma força de reacção rápida com “subunidades de pára-quedistas e outras de elevada operacionalidade” – mas sem esclarecer quais, o que contribuiu para aumentar a confusão.
“Quem é que são essas?”, queria saber alguém e quando o CM esclareceu que “talvez pudessem ser os comandos” a resposta foi pronta: “Então mas não vieram quando os pára-quedistas passaram para o Exército e agora já vêm?”. E nem a promessa dos helicópteros – inserida na mensagem de Valença Pinto – convenceu: “Já se ouve falar disso há anos”.
MUDANÇA
Os pára-quedistas foram criados na Força Aérea Portuguesa (FAP), nos anos 50, pela mão de Kaúlza de Arriaga, depois de o Exército ter recusado esta força de elite. Entraram no Exército em 1993, quando o ramo terrestre das Forças Armadas conseguiu convencer o então ministro da Defesa, Fernando Nogueira, a apadrinhar a iniciativa. A transferência produziu muitos choques entre o Exército e a força então criada, a Brigada Aerotransportada Independente (BAI).
CRÍTICAS
O Exército criticava então o facto de a Brigada Ligeira Pára-quedista, da FAP, não ter sustentação própria e de apenas dispor de dois batalhões de infantaria, tendo em conta a doutrina, que pende para as estruturas de três. O Exército criticava também o facto de os pára--quedistas não disporem de apoio de fogo de artilharia, nem de uma subunidade de reconhecimento.
OPERAÇÕES
Desde a vinda para o Exército, os pára-quedistas têm sido a primeira força a avançar, sempre que o risco seja mais elevado. Foi assim na Bósnia, no Kosovo e em Timor, além da Guiné-Bissau, em 1998. Estão relativamente bem equipados face ao restante panorama do Exército. Na FAP sempre tiveram equipamento e armamento de primeira linha, pouco mas do melhor que na altura se fazia, das armas individuais às transmissões, passando pelos capacetes.
ACTUALIDADE
Na reorganização preconizada por Valença Pinto, a BAI fica com dois batalhões de infantaria, perde a artilharia e o reconhecimento, além do batalhão de apoio e serviços. A artilharia, o reconhecimento e o batalhão de apoio e serviços ficam num módulo conjunto com a Brigada Ligeira de Intervenção, a disponibilizar consoante o tipo de missão e o tipo de forças a empenhar.
UMA MEMÓRIA DA GUERRA DO ULTRAMAR
O colete não deixa margem para dúvidas. Bem definidas, a negro, as seguintes palavras: “Veterano de Guerra”. Daquela guerra que já lá vai, mas que deixou marcas em várias gerações de portugueses. Manuel Martins, de 55 anos, era um desses homens. Mas a boina verde na cabeça deixava outra mensagem: pára-quedista.
A câmara de vídeo manuseia-a freneticamente na direcção da formatura. “Venho cá sempre a Tancos, no dia 23 de Maio. É o dia dos pára-quedistas” – pois então. Como muitos destes homens, não gosta de falar da guerra. “Já passou, já lá vai”. Memórias que marcam e que a consciência faz por apagar cada vez que aparecem, mas a insistência do jornalista é maior. Olha, tira os óculos e dispara: “O que é que quer saber?”. Lá deixa escapar a memória, franjas de uma guerra que “já lá vai”, mas que nunca lhe sai da cabeça.
“Estive em Angola entre 68 e 70”. Passou por vários pontos da então província ultramarina, “sempre em guerra”. Um dia, no Chiume, foi apanhado numa emboscada, “trazia um prisioneiro às costas”. Às costas? “Sim era um miúdo, que eles também combatiam”. Logo de seguida os tiros rebentaram pela mata. Foram longos minutos, mas quando acabaram olhou para o camuflado e encheu-se de espanto: “Tinha o camuflado, junto à barriga, todo esfarrapado”. As múltiplas balas tinham passado de raspão – “Não morri porque não calhou”.
Mas o que mais o marca “nem foi isso”. Ainda hoje se lembra do Magalhães. “Éramos muito amigos”. Acabou por morrer numa picada, em combate, “mas até morrer fartou-se de sofrer. Não morreu logo, nem nada que se pareça”. O ataque foi já perto do quartel e ainda tiveram tempo para o levar para a enfermaria. Quando o Magalhães lá chegou, “quis despedir-se de toda a gente. Ele sabia que ia morrer”.
A conversa acaba ali e Manuel Martins volta a virar-se para a parada e continua a filmar. Não sabemos se para verter lágrimas reprimidas se para se esquecer da memória, mas ela não desaparece. Nem ela nem a boina verde dos pára-quedistas.
A ROSA PEIXEIRA E O ANÍBAL PÁRA-QUEDISTA
“Ó Rosa, Ó Rosa, está aqui o Correio da Manhã para falar contigo”. Rodeada de boinas verdes, a Rosa vira-se e sorri, sorri logo, sem mendigar – os olhos, a boca, as mãos. Que a Rosa sorri com as mãos, que giram encadeadas com o olhar vivo e matreiro. Mantém um encanto e uma graça que os anos nunca podem vencer, mas o seu coração, esse, “é do meu Aníbal”. E bate no peito, a palma das mãos acariciando o rosto de um homem fixo num medalhão.
Conheceram-se na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. Ela vinha da Figueira da Foz “para vender marisco a um restaurante”. “Estava lá o Aníbal, começámos a trocar uns olhares e pronto, apaixonámo-nos”. (“Não seria difícil”, penso eu, a pôr-me na pele e nos olhos de Aníbal). Aviva ainda mais os olhos grandes e negros e diz: “Amámo-nos muito, foram 18 anos de muita felicidade”. Ele era um pára-quedista inveterado. Tinha passado pela guerra em Angola e nos anos seguintes manteve a tradição de anualmente respeitar o Dia dos Pára-quedistas, cada 23 de Maio. Sempre rumara a Tancos, à Escola de Tropas Aerotransportadas, e Rosa passou a acompanhá-lo. “Vínhamos cá sempre e como já tinha o restaurante da Figueira da Foz trazíamos sempre o peixe para a incorporação de 63”.
Um dia, em 1995, o Aníbal entendeu que tinha que ir saltar. “Ele tinha aquela coisa e às vezes falava que queria ir saltar, mas nunca acreditei”. Mas um dia foi mesmo, a Rosa bem lhe pediu que não fosse. “Sou supersticiosa e tinha uma coisa que me dizia que ia correr mal, mas era a vontade dele”. Saltou e a queda saiu mal. “Partiu a coluna”, recorda a Rosa. “Ainda fui com ele ao hospital. E ele dizia-me ‘tu tinhas razão, desculpa’”. E foi já bem perto da morte que surgiu o pedido. “Até poderes vai todos os anos a Tancos, dar de comer àqueles cabrõezinhos”.
A Rosa explica: “Ele falava assim mas não era por mal, era a maneira dele de brincar, que eles são todos muitos amigos – são todos pára-quedistas”. E a Rosa Peixeira cumpriu a promessa, religiosamente. A conversa já vai longa, que o tacho de arroz de tamboril tem que vazar. E todos chamam a Rosa. Os trovões rebentam no início da tarde e a Rosa Peixeira tem uma explicação: “É o meu Aníbal lá em cima. Está-me a avisar que estão muitos homens à minha volta. Não te preocupes”.
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