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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Câmara nega jazigo para casal sepultar filho

"O meu menino está aqui.” Elisabete Silva passa as mãos pelas flores que compõem a jarra, colocada na campa do cemitério de Benfica, como se acariciasse o rosto do filho. Para lá da dor da perda, está inconformada – não pôde sepultar o filho num jazigo e acusa a Câmara de Lisboa de recusar a venda do túmulo.

05 de fevereiro de 2006 às 00:00

Elisabete e o marido, Manuel Silva, moradores em Belas – concelho de Sintra –, não passam um dia sem irem àquele cemitério lisboeta. Querem estar junto à sepultura térrea onde foi colocado o corpo do filho, no dia 3 de Janeiro.

As olheiras fundas denunciam a dor da mulher de 39 anos. “Eu e o meu marido fizemos tudo para agradar ao nosso menino. Agora que morreu, não o queríamos sepultado na terra, mas num jazigo. A câmara recusou-nos esse último desejo.”

CRÍTICAS ACESAS

Elisabete critica a autarquia de Lisboa, por recusar a venda de um jazigo municipal. E diz não compreender porque autorizou o funeral no mesmo cemitério, o de Benfica. “Não sei se esta recusa em vender o jazigo municipal é só uma questão de burocracia ou má vontade. Teríamos dado o dinheiro que nos tivessem pedido.”

A escolha pelo cemitério de Benfica deve-se, explica, por ser mais perto da casa dos seus pais, que também vão amiúde visitar a campa do neto. Fábio, uma criança de 13 anos, sofria de doença neuro-muscular degenerativa. Morreu no primeiro dia do ano.

Elisabete recorda o filho com os olhos em água. “Apesar de falar pouco, era um menino alegre, gostava muito cinema e de festas. Nunca deixámos de fazer uma vida normal como qualquer família.”

Desde pequeno que o Fábio frequentou consultas de várias especialidades no Hospital Dona Estefânia. No Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral teve sessões de fisioterapia. A mãe diz que ele “sempre recebeu muito boa assistência, os profissionais sempre foram fantásticos com ele”.

RAZÕES DE DESPACHO

Fonte do gabinete do vereador António Prôa, que tutela a Divisão Cemiterial da Câmara, justifica ao CM a não disponibilização de um jazigo municipal com a existência de um despacho interno de 2001. “Por razões de gestão e limites de capacidade, os compartimentos de jazigo municipal são disponibilizados aos munícipes de Lisboa mediante compro- vativo de residência e recenseamento em Lisboa do falecido.”

A autorização do funeral foi dada porque, sublinha a fonte, “pode ser inumado no cemitério quem, não estando recenseado no concelho, falecer em hospital, casa de saúde, estabelecimento de assistência, clínica ou similar”.

Uma solução é apontada pela autarquia a esta família. “Pode adquirir um jazigo particular numa próxima hasta pública a realizar este ano, para o qual trasladará o filho, decorridos os prazos legais de inumação praticados em Lisboa (cinco anos).”

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