A Câmara de Odivelas retirou da via pública os bens da família com três menores que desde terça-feira vive ao relento, após terem sido despejados. Pelas 15h00, funcionários da autarquia deslocaram-se à Rua Rainha Santa Isabel, em Famões, e informaram Joaquim Potes e companheira, Francelina, que iam ter os bens confiscados.
Joaquim Potes viveu 28 anos no 3.º dt.º do n.º 3, de onde foi despejado da casa da Câmara por incumprimento de renda – uma dívida de 30 euros, segundo dita a sentença, e não os 53 referidos pela autarquia.
A ordem incluía a rulote onde pernoitam. Mas o veículo escapou à limpeza – quando os funcionários se preparavam para içar a rulote com o reboque, Maria José Potes, irmã de Joaquim, tentou fechar-se na viatura. “A rulote é minha e ninguém me tira daqui”, gritava, quando caiu inconsciente. Como a jovem sofre do coração, temeu-se o pior.
Um agente da PSP entrou na rulote, ajoelhou-se e, visivelmente assustado, pediu que trouxessem água. Em lágrimas, a cunhada Francelina disse que a jovem apenas desmaiara. Autoridades e família chegaram então a um ‘compromisso’ – a rulote era poupada desde que a levassem para um terreno privado.
CARRINHA PARTE CHEIA
Francelina retirou de uma cómoda lençóis e cobertores, que guardou na rulote. Viu que a cortina da banheira estava desarrumada. Dobrou-a e colocou-a na carrinha da Câmara, que partiu até um armazém.
Sobrou um frigorífico. Na rua não podia ficar. Os vizinhos sugeriram então as escadas de um prédio. Ao arrastarem-no, a porta abriu-se. O leite entornou-se, os alimentos caíram. O grupo parou, guardou o que tinha tombado e colocou o frigorífico nas escadas. “Ponham também o fogareiro”, disse a mãe de três: Filipe, 17 anos, Andreia, 13, e Inês, a mais nova. Comemora hoje o seu oitavo aniversário.
'DEITARAM-NOS PARA A VALETA'
A dor e a revolta tomou conta dos moradores da Rua Rainha Santa Isabel, na Quinta das Pretas, em Famões (Odivelas). “Não se faz, colocar uma pessoa na rua por uma dívida de 30 euros e recusar depois aceitar o dinheiro”, desabafou uma das vizinhas. “Não é de um ser humano, é de uma pessoa que não tem dignidade.” Ana Maria Carvalhais mora ao lado de Joaquim Potes há 28 anos. “É quase como se fosse meu filho, vi-o crescer aqui, pois viemos todos desalojados das Patameiras tinha ele quatro anos.” Ao seu lado, o casal José Simões e Manuela Simões, vizinhos do 2.º andar, compreendem a dor do jovem que, há um ano, partilhava a casa com a companheira, Francelina Passarinho, e os três filhos menores dela. José Simões não sustém as lágrimas ao falar. “Isto é deitar uma família para a valeta. Não pagaram. E coloca-se uma família na rua por 30 euros. Onde é que está uma segunda oportunidade?”
DIA 24.09.05
Sentença determina que motivo de despejo é uma dívida de 30 euros. Acção junto do tribunal foi entregue em Setembro de 2003 devido ao não pagamento da renda mensal de dois euros desde Setembro de 2002.
DIA 14.10.05
Primeira ordem de despejo não se concretiza.
DIA 17.10.05
Família afirma que tentou junto da Câmara pagar dívida, mas que esta recusou.
DIA 11.11.05
Câmara contacta Joaquim Potes. Este informa que não tem meios para alugar uma casa.
DIA 06.12.05
Acção de despejo concretiza-se. Os bens ficam na rua e a família vive na rulote emprestada pela irmã de Joaquim.
DIA 09.12.05
A câmara remove todos os bens da família para um armazém, ordenando que a rulote seja retirada da via pública.
DIA 10.12.05
Inês Sofia celebra oito anos. O dia é passado em família, numa rulote sem água e sem luz.
D. Manuel Martins Bispo Emérito de Setúbal: “Políticos não são sensíveis”
Correio da Manhã – Na década de 80 denunciou a fome em Setúbal. Hoje, entende que a situação no País melhorou?
D. Manuel Martins – Na generalidade as coisas não melhoraram. Há manchas de pobreza no País 30 anos depois de estarmos em democracia e de nos terem feito sucessivas promessas. Um caso de miséria gritante é a habitação – como é possível morar tanta gente em barracas desgraçadas onde é possível estar, mas onde não se pode viver? É fácil andar a jogar com os números, mas o certo é que o desemprego significa grande sofrimento – a casa que não se pode pagar, os filhos que não se podem educar, os sonhos que não se podem ter.
– O que pode a Igreja fazer?
– A Igreja tem tudo a ver com isto. A Igreja é Mãe. A Igreja tem de olhar, olhos nos olhos, e alertar os responsáveis para estas situações.
– Como classifica a sensibilidade dos políticos para as questões da pobreza?
– Há uma grande faixa de irresponsabilidade. O Poder não está atento a estas situações. Os políticos olham para as Ota e para os TGV e não olham para o que está no chão. Ou até mesmo para aquilo que está debaixo do chão, que é a miséria escondida. Não há maneira de os homens do poder se tornarem sensíveis para as coisas que tocam os cidadãos. Resolvidos estes problemas, podemos então voar.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.