"Lisboa é a cidade do País com mais crimes graves e violentos" – 44 roubos a bombas de gasolina, 35 por cento dos assaltos no País a carrinhas de tabaco, no distrito com mais participações de crime em 2009: 108 735. A frase repete-se a cada ano, nas apresentações de relatórios de segurança interna, e marca a vida de quem lá vive. É a capital onde o medo invade os comerciantes que somam roubos e lutam para manter seguros; onde os corações aceleram quando se abre a porta do autocarro ou do comboio; onde automobilistas e taxistas se trancam à noite. É a capital formada e cercada por bairros, dominados pelo tráfico, de onde saem os grupos de assaltantes armados e onde muito poucos ousam entrar.
São 14h00, em Chelas. A tarde começa ao ritmo do hip-hop e o som sai alto por entre as janelas. A concentração começa no café Solar do Marquês e o andar arrastado de Cabes, 27 anos, adivinha mais uma tarde "a jogar às cartas, apenas". "Não somos ladrões nem traficantes", diz, desconfiado, no bairro que já "viveu tempos piores". "O barulho é muito, mas pelo menos não somos assaltados. Há que ter paciência", diz baixinho Adelino Moreno. O medo no rosto cansado do homem de 58 anos rima com os becos, pátios e recantos obscuros do bairro em que há tráfico e consumo constante de droga às claras.
O cheiro nos corredores não afecta quem lá vive. Com orgulho. "Isto não é mau. Tem algum mal fumar ganzas? Até as cotas da mercearia o fazem", diz ‘Mamad’. Provocador, faz soltar gargalhadas entre os amigos. "Não temos oportunidades. Queremos um lugar para nos divertirmos e não conseguimos nada", continua, assumindo-se vítima do estigma de viver num bairro problemático. "É o trauma que leva ao crime, ao ódio, à desigualdade", numa cidade de excessos. E sobra para a polícia. O alvo predilecto da fúria e do flagelo social. Somam-se agressões, injúrias à porta dos tribunais, na rua, transportes e até à porta das esquadras. "É uma vergonha. Já todos levámos com garrafas, pedras. Já perdemos colegas e quando saímos de casa não sabemos se voltamos a entrar", lamenta um polícia, sem esconder algum embaraço. Todos os dias são agredidos entre quatro a cinco agentes da PSP. "Temos medo. Não há nenhum polícia que não tenha. Mas sobretudo da Justiça, que faz pouco por nós."
DISCURSO DIRECTO
"ROUBOS COM FACA PREOCUPAM": CARLOS FIGUEIRA, Procurador-adjunto do DIAP Lisboa
Correio da Manhã – Qual o tipo de crime que mais preocupa em Lisboa?
Carlos Figueira – O roubo é um crime que assusta a maior parte das pessoas, principalmente aquele que é feito com recurso a facas, porque torna-se uma arma muito fácil de ser utilizada. Uma simples reacção da vítima dita a sua utilização. Muito mais do que uma arma de fogo.
– É correcto afirmar-se que a criminalidade violenta está associada aos bairros sociais, onde existem armas?
– Estatisticamente, é um facto inegável. Parece haver uma relação directa – que se prende com problemas de ordem social. Mas é preciso ressalvar que nem todos os bairros sociais são problemáticos. E há bairros onde o tráfico de droga não é acompanhado de criminalidade violenta.
– Como deve ser a actuação policial nestes locais?
– A intervenção policial deve ser pensada de forma a não pôr em causa o sistema, garantindo a cooperação e a investigação.
AGENTES POR CADA DIVISÃO DA PSP
A PSP é responsável pela segurança na totalidade do território de Lisboa. É composta por cinco divisões, cada qual com valências de patrulhamento e investigação criminal. A 3ª divisão, sediada em Benfica, comporta mais efectivos – 737 elementos –, seguindo-se a 1ª divisão, na Baixa Pombalina e que tem cerca de 500 polícias. A capital dispõe ainda do Corpo de Intervenção que acorre sobretudo a situações de violência concertada.
"LEGALIZEI LOGO UMA ARMA"
De pistolas ou facas em punho. Devidamente encapuzados e organizados, carros já estacionados, prontos para a fuga. Tudo montado ao pormenor para os assaltos serem eficazes. Em cada canto de Lisboa a sua história. Bancos, farmácias, lojas, ourivesarias, restaurantes, cafés ou postos de combustível são varridos pelo flagelo dos assaltos à mão armada. Mas também na rua. "Arranjei uma táctica. Não trago dinheiro nem ouro, nem nada nas malas", diz Laura Vieira, doméstica, em plena Baixa de Lisboa. "Ando muito a pé de dia e de noite. Tenho medo de que me apanhem."
Desconfiado, Manuel Barbosa Pinto, 59 anos, olha para a porta da sua ourivesaria na rua da Conceição e ainda fica em sobressalto com a entrada dos clientes. No ano passado foi roubado em mais de vinte mil euros em ouro e ainda agredido. Estávamos a 28 de Julho de 2009. Dois homens fizeram-se passar por clientes e quando Manuel se aproximou levou vários murros e pontapés de um deles. O outro partiu a montra.
"O que me valeu foi dois polícias que estavam na rua e começaram aos tiros. Ainda me recuperaram algumas das peças. Se fosse hoje já não era assim. Já tratei de me proteger mais e quero ver quem se atreve a vir assaltar-me", desafia Manuel Pinto.
Para além de colocar mais uma porta de segurança legalizou a sua arma. "Tratei de pedir licença de uso e porte de arma e se vierem cá outra vez não vou deixar que me assaltem", avisa.
SAIBA MAIS
PARTICIPAÇÕES
Lisboa foi o distrito do País que no ano de 2009 teve o maior número de participações de crime – ao todo foram 108 735.
7522
queixas de violência doméstica às forças de segurança na capital. Seguem-se Porto e Aveiro, com 7522 e 1929 queixas, respectivamente.
35
por cento dos ataques a carrinhas de tabaco deram-se em Lisboa, quase todos à mão armada e envolvendo sequestro.
GASOLINEIRAS
Dados do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) apontam que durante o ano 2009 houve 44 casos de roubos a postos de combustível.
BAIRROS PROBLEMÁTICOS DA CIDADE
ZONA J DE CHELAS
A Zona J de Chelas situa-se na freguesia de Marvila, parte oriental de Lisboa. É conhecida pelo tráfico de droga, nomeadamente dentro do ‘corredor da morte’, que já está a ser demolido.
QUINTA DO LAVRADO
A Quinta do Lavrado situa-se nas Olaias. Anteriormente chamava--se bairro da Curraleira e está associada ao tráfico de armas e droga e conflitos com a polícia.
BAIRRO HORTA NOVA
O bairro Horta Nova situa-se em Carnide e trata-se de um local normalmente associado a refúgio de assaltantes em perseguições policiais e ainda ao tráfico de droga.
BAIRRO DA CRUZ VERMELHA
O bairro da Cruz Vermelha situa--se na zona do Lumiar, na parte norte de Lisboa. É um bairro social degradado, associado a agressões violentas e armas.
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