José Luís Roque, 38 anos, viajava no autocarro com a mulher e o filho, de cinco anos, hemofílico.
"Foram minutos de pânico. O autocarro capotou de imediato, a dar a curva, e depois foi o pânico total. As pessoas ajudavam-se umas às outras como podiam. Algumas conseguiram saíram do autocarro pelo próprio pé. Eu tive de me aguentar para tirar de lá o meu filho", descreveu ontem ao CM, após receber alta no Hospital dos Covões, em Coimbra.
"Isto foi uma irresponsabilidade total do motorista, pela velocidade a que ele ia a sair da auto-estrada. Isto não se faz", adiantou José Luís Roque. "Eu por sorte sofri apenas ferimentos ligeiros e o meu filho e a minha mulher estão bem. Pior são as outras pessoas, para mais quem é hemofílico", referiu.
Frederico Tadeu, 45 anos, residente em Lisboa, um dos feridos que ontem recebeu alta, teve a mesma percepção de que o autocarro seguia "com um bocadinho de velocidade a mais". A determinada altura "começou a inclinar e a partir daí foi horrível", descreveu à saída do Hospital dos Covões, onde foi assistido. Visivelmente abalado, Frederico Tadeu conta que viajava com a mulher, "cuspida para fora do autocarro". E Frederico não conseguiu sair logo do veículo, o que aumentou o pânico: "Tinha uma pessoa sobre mim que não me deixava movimentar".
Ontem, familiares e amigos das vítimas, alguns dos quais já se encontravam no Luso para participar no encontro promovido pela Associação Portuguesa de Hemofilia, concentraram-se nos hospitais da cidade. "Ficámos em choque. É muito triste o que aconteceu. Todos nos conhecemos e estamos muito abalados", conta Pedro Ferreira, que já se encontrava no Luso para participar no encontro quando recebeu a notícia da tragédia.
Pedro Ferreira conhecia a vítima mortal, António Serra, e recorda-se do hábito que a família tinha de festejar o aniversário do filho durante o encontro. "Já no ano passado o fizeram", na iniciativa que decorreu no Fundão.
João Paulo Silva, presidente da Associação Portuguesa de Hemofilia, também estava no Luso quando soube da tragédia. "Tinha acabado de chegar num autocarro do Porto", referiu. E vê com muita preocupação o sucedido: "A situação é mais gravosa para os hemofílicos devido à doença. Quando há traumas há maior risco de vida".
HEMOFILIA AUMENTA RISCO
Sofia Madeira, médica do INEM que coordenou as operações no terreno, salientou que a hemofilia "aumenta o risco hemorrágico", podendo agravar a situação dos pacientes. Uma vez que a maior parte dos feridos eram hemofílicos foram adoptados cuidados redobrados.
"PRONTIDÃO E EFICÁCIA"
António Martins, comandante distrital de operações e socorro de Coimbra, fez o primeiro balanço do acidente. Destacou a "prontidão e a eficácia" com que o socorro foi prestado. Lembrou que foi instalado um posto médico avançado que encaminhou os feridos para os hospitais.
AVARIA OU EXCESSO DE VELOCIDADE
Várias equipas do Núcleo de Investigação de Acidentes do Destacamento de Trânsito da GNR de Coimbra estiveram ontem cinco horas no local a recolher vestígios com vista a apurar as causas que provocaram o despiste do autocarro da empresa Polibus. Excesso de velocidade ou avaria mecânica são as duas possibilidades apontadas como sendo as causas mais prováveis do despiste do veículo pesado de passageiros. Segundo o comandante do Destacamento de Trânsito de Coimbra da GNR, João Caleiras, o condutor do veículo foi submetido nos HUC ao teste do álcool, tendo feito ainda a despistagem de substâncias psicotrópicas, mas os resultados ainda não são conhecidos. Os militares estão também a analisar o tacógrafo do autocarro. O local onde se verificou o acidente só foi aberto à circulação às 17h15, depois de o veículo ter sido removido e os investigadores da GNR terem realizado todas as perícias.
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