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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Centenas no funeral de José Franco

Centenas de pessoas estiverem presentes esta tarde no funeral do oleiro José Franco, no Sobreiro, em Mafra. O cortejo fúnebre saiu da capela de S. Sebastião e, antes de seguir para o cemitério da localidade, parou junto à aldeia saloia criada por José Franco, onde esteve durante alguns minutos, em silêncio, perante algumas das suas obras.

15 de abril de 2009 às 20:26

'Era um homem cheio de ideias. Se não fosse ele a aldeia era uma terra morta. É uma grande perda para o país. Vai deixar muitas saudades', disse ao CM Carlos Ferreira, amigo de longa data, visivelmente emocionado.

Fernando Ferreira Paixão, presidente da Liga dos Amigos do Sobreiro, lembra José Franco como alguém que se envolvia em tudo, com grande entrega. 'Era o património do Sobreiro. Se não fosse ele, muita gente não conhecia isto'.

Uma das personalidades que marcou presença na cerimónia foi Rui Nabeiro, fundador da Delta e conhecido empresário do Alentejo. 'Sou um amigo de há vários anos. Criámos uma grande amizade e admiração mútua. Não podia passar sem vir aqui prestar a minha homenagem a um homem ímpar, excelente, que deixa saudade ao nosso país', disse ao CM.

Na aldeia, todos recordam ‘o mestre' como uma pessoa de grande inteligência e com bom coração. 'Tratava toda a gente com carinho, tinha amor por todas as pessoas mesmo sem as conhecer', garante Mário Morais. Contudo, considera lamentável que a aldeia em miniatura esteja actualmente a servir propósitos comerciais e que o mestre nunca tenha tido a homenagem que merecia. Como tal, lançou uma sugestão: 'por que não fazer uma escola de olaria com o nome dele?'.

Foi em meados dos anos 40 que o artesão concretizou o sonho de reproduzir uma aldeia típica da sua terra, onde colocou o tradicional moinho de vento para moer o trigo, a cozinha rural, uma capelinha dedicada a Santo António, uma azenha movida a água, uma carpintaria, a adega, a barbearia e uma mercearia.

Pela sua importância no panorama português, foi condecorado pelo ex-Presidente da República, Ramalho Eanes, com a comenda de Cavaleiro de S. Tiago. Recebeu ainda a comenda Infante D. Henrique em 2001, era Jorge Sampaio o Presidente da República, e recebeu o prémio de melhor artista em 2005.

Até finais de Outubro de 2008 fez algumas peças de artesanato na ‘Adeguinha do Atenueiro', na aldeia que criou. A 25 de Dezembro sofreu uma queda e partiu o fémur da perna mas acabou por se recompor. Posteriormente, teve várias infecções urinárias, das quais resultaram complicações que levaram à sua morte. Faleceu aos 89 anos, na madrugada de 14 de Abril no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

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