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Chá fatal de erva do diabo

Um rapaz de 15 anos morreu quarta-feira no Funchal, Madeira, depois de beber, com outros três jovens, um chá de ‘erva do diabo’, uma planta tóxica com efeitos alucinogénicos espalhada pelos jardins da Região.

18 de agosto de 2006 às 00:00

A planta foi apanhada na quarta-feira de manhã na Praia Formosa, a oeste da cidade do Funchal, pelos quatro jovens – dois irmãos de 15 e 17 anos e dois primos destes, de 15 e 19 anos. Já em casa, na Travessa do Papagaio Verde, Funchal, os jovens fizeram um chá da ‘erva do diabo’, ao qual também é atribuída a intensificação da potência sexual.

Mas o resultado não foi o esperado. Pelas 12h30 os bombeiros foram alertados para uma situação de intoxicação. Deslocaram-se ao local duas ambulâncias e uma equipa da Emergência de Intervenção Rápida (EMIR).

No local, os socorristas assistiram três rapazes, já que o de 19 anos terá fugido.

Os três jovens foram conduzidos ao Hospital da Cruz de Carvalho, tendo um deles morrido. Aos outros dois foi feita uma lavagem ao estômago, o mesmo tendo sido realizado ao de 19 anos, que deu entrada na unidade hospitalar mais tarde. Estes três jovens estiveram sob observação mas tiveram alta ontem de manhã.

Filipe, de 17 anos, um dos jovens sobreviventes da experiência, disse ontem à comunicação social que o chá “dá para ver coisas”. “Fomos bebendo, bebendo e ficamos muito tontos, a ver coisas e adormecemos”, disse Filipe.

A ‘erva do diabo’ não é uma planta proibida e existe espalhada pelos jardins da região. Por isso, Maria Alzira, mãe de Filipe, apelou às autoridades para que destruam as plantas que “estão mais à mão para que outras crianças não sejam tentadas a experimentá-las”

Entretanto, restos do chá e da planta utilizada pelos rapazes para fazer a infusão foram enviados para um laboratório em Lisboa a fim de serem analisados, informou o coordenador da PJ na Madeira, Calado Oliveira, que adiantou estar afastada qualquer hipótese de crime.

No entanto, adiantou, uma vez que houve uma morte, a PJ “iniciou diligências no sentido de apurar o que se passou”.

MEIA DÚZIA DE BAGAS PODEM SER MORTAIS

A ‘erva do diabo’ existe nos jardins portugueses e é utilizada com fins ornamentais, apesar de a ingestão de algumas bagas ser o suficiente para causar a morte, alertou Carlos Cavaleiro, professor da Faculdade de Farmácia de Coimbra. Trata-se da Beladona, planta com o nome científico Atropa belladonna L., que pode provocar efeitos psicoactivos como alucinações, náuseas ou cegueira e a morte, quando ingerida em quantidades elevadas. Da família das Solanaceaes, a Beladona tem na sua composição um alcalóide (a hiosciamina) que é muito activo e desencadeia efeitos tóxicos.

A hiosciamina é um alcalóide do grupo químico a que pertence a cocaína e a morfina. Segundo Carlos Cavaleiro, o consumo de dez a 60 miligramas de hiosciamina (entre uma e nove gramas de bagas de beladona) é mortal. Sobre a sua utilização premeditada para fins alucinogénios, Carlos Cavaleiro disse desconhecer a sua aplicação, uma vez que até chegar à fase do delírio o consumidor passa por um “grande sofrimento físico”.

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