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Conta bancária mexida

A Polícia Judiciária (PJ) está a investigar movimentações irregulares na conta de um empresário emigrado na Alemanha, que até meados de Agosto tinha o dinheiro depositado no Banco Espírito Santo (BES). A queixa visa sobretudo dois funcionários do banco, gerente e subgerente, que trabalhavam na Região Oeste, mas o BES pode vir a ser acusado de negligência. O lesado garante que o desfalque numa das suas contas ronda os 200 mil euros, denunciando ainda depósitos cuja origem desconhece. Entradas e saídas de dinheiro foram efectuadas sem o seu conhecimento ou autorização.

27 de agosto de 2007 às 00:00

O BES, cujos responsáveis não prestaram declarações sobre este caso ao CM, alega, em esclarecimentos prestados ao cliente, que todas as quantias envolvidas foram movimentadas por ordem do lesado via telefone, justificando assim a ausência de assinatura em várias transferências bancárias.

Domingos Pereira Mendes vive na Alemanha, na zona de Dusseldorf, há 30 anos. Curiosamente, trabalha no banco BKM (Bausparkasse Mainz). Em Abril do ano passado, inseriu o cartão multibanco num terminal na Alemanha e recebeu como resposta que não tinha saldo disponível. Estranhou e entrou em contacto com o banco, que o convidou a vir a Portugal explicar algumas transferências de montante considerável, mas que não tinham qualquer assinatura nem referência à origem do dinheiro ou ao seu destino.

Chegado a Portugal, descobriu que o banco nem sequer tinha os seus dados, com excepção do nome e de uma morada que coincidia com a do balcão do próprio banco. Ultrapassada esta fase, o empresário de construção civil exigiu ao BES um relatório com o rasto das suas poupanças.

Na resposta, o banco deu conta de algumas das movimentações efectuadas sem assinatura, entre 31 de Janeiro e 28 de Fevereiro de 2006: entraram verbas de 81 mil e de 25 mil euros e saíram valores na ordem dos 45 mil e 36 mil euros, em várias ocasiões.

No mesmo documento, o BES conclui que estas transferências são habituais na conta de Domingos Mendes, tendo sido ordenadas via telefone. Escreve mesmo que constituem procedimentos correntes na movimentação daquela conta, possibilitada pela relação de excelência entre o empresário e o então gerente.

De então para cá, a vida deste emigrante anda num virote. Durante um ano, diz, caminhou para o banco tentando esclarecer o assunto e conseguiu chegar à fala com os funcionários que geriam a sua conta, sempre na esperança de reaver o dinheiro. Este mês decidiu, finalmente, pedir ajuda às autoridades.

Como prova, juntou um papel manuscrito com a confissão do antigo gerente. Em tal documento, o funcionário assume a responsabilidade “por quaisquer danos que se venham a apurar da análise” dos extractos bancários de Domingos Mendes.

BES NA 'OPERAÇÃO FURACÃO'

Nos últimos tempos, o Banco Espírito Santo tem estado envolvido em alguns escândalos financeiros, com especial destaque para a ‘Operação Furacão’. Este caso, que envolve a maior investigação sobre branqueamento de capitais e evasão fiscal no sistema financeiro português, foi desencadeado em 2005, com buscas a quatro bancos nacionais (BES, BCP, BPN e Finibanco).

De acordo com um balanço feito pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), dirigido por Cândida Almeida, no final de Julho, foram já constituídos mais de 120 arguidos e realizadas cerca de 200 buscas. O Ministério Público estima que os montantes fiscais em dívida, apurados e entretanto pagos, atinjam 20 milhões de euros. Face à dimensão da operação, foi criada uma divisão específica no DCIAP para este caso.

CONTAS CAUCIONADAS

Domingos Pereira Mendes tinha três contas caucionadas no Banco Espírito Santo, duas com 100 mil euros e uma de 200 mil. Trata-se de uma modalidade de crédito que permite ao cliente utilizar fundos até um determinado montante, estipulado em contrato.

PRIVATE BANKING

O BES, a exemplo de outros bancos, tem um serviço específico de Private Banking, destinado a clientes com grande capacidade de liquidez (meio milhão de euros). Domingos Mendes é um desses casos.

CONFISSÃO

“Existem movimentos nessas contas cujo titular não terá autorizado nem tem conhecimento.” São estas as palavras que constam na confissão que o antigo gerente escreveu, numa altura em que prometia devolver o dinheiro ao empresário.

6000 clientes tinha o empresário na Alemanha. No último ano, Domingos Mendes esteve mais tempo em Portugal do que no posto de trabalho. Perdeu metade da clientela.

60 mil euros foi a indemnização paga a um emigrante português no Canadá, que perdeu 115 mil contos devido à falência da Caixa Económica Faialense, que aconteceu em 1986.

ESPANHA

No final do ano passado, as instalações do BES em Espanha foram revistadas pela Guardia Civil por suspeita de branqueamento de capitais. Os escritórios na Calle Serrano, em Madrid, chegaram a ser encerrados.

PORTUCALE

O nome do BES também aparece envolvido no chamado caso ‘Portucale’, envolvendo alegados depósitos em contas do CDS-PP, respeitantes a pagamentos, alegadamente feitos em dinheiro pelo ex-responsável pelas finanças do partido, Abel Pinheiro.

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