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Correio da Manhã

Portugal
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Crise na Independente

Os quase três mil alunos da Universidade Independente podem ter os cursos em risco. A administração já acordou a venda de 67,5 por cento da instituição à UnI Angola, mas a equipa reitoral não aceita o negócio. Amanhã é a última oportunidade de acordo entre os parceiros. Caso contrário, vai tudo para os tribunais.
28 de Fevereiro de 2006 às 00:00
O futuro da Universidade Independente (UnI) pode passar pela via judicial, caso os responsáveis pela instituição não se entendam. Em causa estão quezílias internas entre a administração e a reitoria sobre a gestão financeira da instituição. Os professores queixam-se de não receber há meses, situação que está a provocar atrasos na atribuição de notas. Face a isto, os alunos estão preocupados com o que se avizinha.
Amadeu Lima de Carvalho, administrador e sócio maioritário da Sociedade Independente para o Desenvolvimento do Ensino Superior (SIDES), a sigla maior que está por detrás da UnI, diz que a situação da universidade é “drástica” e que “o futuro tem de passar pelo investimento de Angola”. “Caso não haja acordo entre as partes é o fim da universidade e as consequências disso podem ser graves para algumas pessoas.” Amanhã, equipa reitoral e administração reúnem-se para chegar a consensos.
RELAÇÕES INTEMPESTIVAS
A UnI foi a promotora da Universidade Independente de Angola (UniA), entrando com 10 por cento do capital social aquando da sua criação. Agora, a braços com uma grave crise financeira, um conjunto de sócios da Independente aceitou, em Assembleia Geral, vender as acções de Amadeu Lima de Carvalho ao Desenvolvimento do Ensino Superior de Angola (DEA, SA), o grupo que detém a UniA. Da instituição fazem parte o ministro da Educação angolano António Burity da Silva (principal accionista) e o irmão, Carlos Burity da Silva, como reitor.
Descontente com a solução, o vice-reitor da UnI, Rui Verde, interpôs uma providência cautelar para travar a venda, alegando que a SIDES está em dívida para consigo. Além disso, está marcada mais uma Assembleia Geral, no dia 31 de Março, para discutir o diferendo. Lima Gonçalves contradiz o vice-reitor. “Rui Verde e Luiz Arouca assinaram uma acta em que ambos me davam 22,5 por cento das acções que possuíam em troca de uma dívida de dois milhões de euros que o Rui Verde tinha para comigo”. O administrador diz que “houve má--fé da parte de Rui Verde ao apresentar-se como credor, quando se serviu da universidade para defesa dos seus interesses”. A Lima Gonçalves resta concluir: “Têm bloqueado a universidade ilegalmente”.
O vice-reitor, Rui Verde, prefere não se pronunciar sobre o processo de aquisição da UnI pela UnI Angola. “É uma situação complicada, que vamos ver como é que acaba. Qualquer resposta que dê pode não ser verdade.”
Quem perde com a ‘guerra de galos’ são os alunos. “Pagamos bem e somos mal servidos”, contaram ao CM alguns estudantes da UnI. Desde a falta de retroprojectores aos computadores avariados ou à falta de aquecimento nas salas, de tudo um pouco têm sofrido alunos e professores.
Em 2005, saíram vários professores, que só conseguiram reaver os valores em falta – nalguns casos alguns milhares de euros – depois de accionarem as vias judiciais. Um professor, que ministrou numa pós-graduação, ficou um ano sem ver a cor do dinheiro. Só o reaveu quando recorreu a uma advogada. Um outro docente, que está sem receber desde Novembro, acusa a “confusão organizacional” da Independente. “É um projecto interessante mas há muita tensão, porventura sem grandes motivos”, lamenta. “Temos recuperado, atrasado, recuperado, é um problema que queremos resolver e esperamos estabilizar já em Março”, assegura Rui Verde.
GANHAR FAMA COM OS NOTÁVEIS
A história da Universidade Independente (UnI), a funcionar desde Outubro de 1993, tem sido marcada pela presença assídua de individualidades conhecidas do grande público, quer como docentes quer como alunos.
Foi na UnI que o primeiro-ministro, José Sócrates, concluiu a licenciatura em Engenharia Civil, quando ainda era deputado pelo PS. Também foi na Independente queo socialista Armando Vara concluiu o curso de Relações Internacionais, três dias antes de ser nomeado para a administração da Caixa Geral de Depósitos.
A modelo Bárbara Elias também estudou na UnI (Ciências da Comunicação) e pelo Centro de Estudos de Televisão, dirigido por Emído Rangel, passaram algumas das caras mais conhecidas da televisão portuguesa: José Alberto Carvalho, Ana Sousa Dias, Catarina Furtado, Margarida Marante, Júlia Pinheiro, Teresa Guilherme, Manuel Luís Goucha e Baptista Bastos.
Um dos professores mais conhecidos da UnI é Fernando Carvalho Rodrigues (o ‘pai’ do satélite português), que dirigiu a Faculdade de Ciências da Engenharia e Tecnologia. O secretário de Estado do Desenvolvimento Rural e das Florestas, Rui Nobre Gonçalves, deu aulas entre 2002 e 2005. Alberto João Jardim é professor convidado do curso de Administração Regional e Autárquica e Filipe La Féria rege a cadeira de Arte e Imagem (Ciências da Comunicação).
A Universidade, dividida em quatro faculdades – Artes, Direito, Humanidades e Tecnologias – tem vindo a perder vagas desde 2002. O ‘boom’ de alunos verificou-se em 1997 – com mais 340 vagas que no ano anterior – mas nos últimos anos tem diminuído – em 2004 e 2005 abriram apenas 860 vagas. Em 2004/05, estudavam nas 14 licenciaturas 2804 alunos – 519 em Ciências da Comunicação, 385 em Engenharia Informática, 335 em Psicologia e 307 em Direito.
Ao nível estrutural, a UnI viveu o ano de viragem em 2000 – a Sociedade Independente para o Desenvolvimento do Ensino Superior (SIDES) duplicou o capital social, passando para cinco milhões de euros, e Rui Verde foi nomeado para vice-reitor. EM 2001, a SIDES passa a ser presidida pelo industrial Ilídio Pinho.
AMBIENTE DE CORTAR À FACA ENTRE PARCEIROS
O clima entre a Independente portuguesa e a angolana está de cortar à faca. Tudo porque Luís Arouca e Rui Verde (sócios minoritários da UnI) querem à força evitar a venda dos 67,5 por cento de acções do administrador Amadeu Lima de Carvalho aos angolanos. A UnI detém parte da UniA porque participou com capital aquando da sua criação.
Em maré de aflição financeira, os angolanos querem resolver os problemas da casa-mãe comprando a maioria de acções. O ministro da Educação Burity da Silva e o irmão são os rostos do negócio.
NÚMEROS DA UNIVERSIDADE INDEPENDENTE
- 14 licenciaturas ministradas na Universidade Independente.
- 822 alunos a estudar nas licenciaturas em 2004/05.
- 519 alunos do Curso de Ciências da Comunicação em 2004/05.
- 14 pós-graduações e MBA proporcionadas pela UnI.
- 9 mestrados disponibilizados pela Universidade Independente.
- 860 vagas fixadas para as licenciaturas em 2005/06.
- 1625 vagas fixadas para as licenciaturas em 1998/99.
- 25 alunos em Relações Internacionais, opção de Cooperação.
HISTÓRIA ATRIBULADA
BOAS INSTALAÇÕES
Desde 1995 que a UnI ocupa o edifício Pasteur, na Marechal Gomes da Costa. Para além do edifício principal, um dos ex-líbris da instituição é o estúdio de televisão, para o curso de Ciências da Comunicação.
SUCESSO ACADÉMICO
Em 2001 uma equipa de estudantes e professores dos cursos de Engenharia obteve o 2.º e 3.º lugares na ‘Formula Student’ (Inglaterra), com um protótipo de carro de competição desenvolvido na Universidade.
FUSÕES FALHADAS
As tentativas da UnI em juntar--se com outras instituições começaram em 1999, quando foi assinado um acordo com a Internacional e a Moderna para a criação de uma associação. Em 2004, surgiu a fusão com o Instituto Português de Administração e Marketing, que juntaria cinco mil alunos. A fusão durou um ano.
TRÊS MIL ANGOLANOS POR ANO
No caso da UnI Angola assumir o controlo da UnI há a possibilidade de três mil angolanos virem estudar para Portugal, por ano.
APOSTA NAS PÓS-GRADUAÇÕES
A UnI Angola pretende apostar nos cursos de doutoramento e pós-graduações, realçou Amadeu Lima de Carvalho.
ANO E MEIO DE ATRASOS
A falha nos pagamentos aos professores começou em 2004, quando foi anunciada a fusão com o Instituto Português de Administração e Marketing.
PREOCUPAÇÃO EM ÁFRICA
O portal ‘Notícias Lusófonas’ divulgou que a UnI deve ao BES dois milhões de euros e tem um conjunto de outras dívidas, que ultrapassam 10 milhões.
DECLARAÇÕES
RUI VERDE - VICE REITOR
“Vamos chegar a uma plataforma de entendimento para que a Universidade Independente de Angola funcione bem lá e aqui. É uma situação que está a ser negociada. Temos recorrido à banca, mas o que nos pedem é que estabilizemos para as coisas funcionarem. Mais não quero nem posso dizer.”
LIMA DE CARVALHO - ADMINISTRADOR
“Não quero ter a responsabilidade de demitir uma reitoria e não o fiz por respeito aos alunos e professores. Vamos tentar um acordo sério, não vou impor condições, mas sim tentar facilitar as negociações. Há possibilidade de chegarmos a entendimento a curto prazo, mas será a última hipótese.”
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