Dois investigadores australianos foram ontem premiados com o Nobel da Medicina por terem descoberto a cura para as úlceras no estômago. A atribuição do galardão deve-se à descoberta da bactéria ‘helicobacter pylori’ e à relação que mantém com as úlceras estomacais, o que permitiu encontrar a cura para as mesmas.
Um prémio “tardio e totalmente merecido” é como classifica ao CM o presidente da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia, Carlos Sofia, a atribuição ‘ex aequo’ do Nobel aos patologistas Barry Marshall e Robin Warren. “Este prémio vem atrasado porque a descoberta dos dois investigadores permitiu estabelecer a relação entre a bactéria ‘helicobacter pylori’ e as úlceras [em 90 por cento dos casos é responsável pela úlcera duodenal e em 80 por cento das úlceras gástricas]. Os restantes casos de úlcera são causados pelos anti-inflamatórios não-esteróides.”
DE CRÓNICA A CURÁVEL
De acordo com Carlos Sofia, até aqui os doentes eram tratados com remédios anti-secreção ácida. “O problema é que ao fim de um ano de tratamento, metade dos doentes tinha um recaída e voltava a ter problemas com a úlcera.” A partir do momento em que os pacientes começaram a tomar antibióticos, a bactéria passou a ser erradicada, passando de crónica a curável com apenas uma semana de tratamento.
BACTÉRIA DESCOBERTA EM 1982
Os patologistas australianos identificaram esta bactéria em 1982 e a sua identificação é considerada um dos acontecimentos científicos mais relevantes dos últimos 25 anos, sublinha a Assembleia Nobel.
A ‘helicobacter pylori’ é uma bactéria que existe em quase metade da população mundial. Sendo que em países com padrões sócio-económicos elevados esta infecção é menos comum do que nos países em desenvolvimento, onde quase todas as pessoas estão infectadas.
A infecção é geralmente contraída na infância, com frequência transmitida de mãe a filho e a bactéria pode permanecer no estômago durante toda a vida. Sendo que muitas pessoas infectadas com esta bactéria nem sabem que a têm, já que podem não existir quaisquer sintomas da sua presença. Contudo, estima-se que o desenvolvimento das úlceras duodenais e gástricas afectem entre 10 a 15 por cento das pessoas que têm a ‘helicobacter pylori’.
Os dois investigadores Barry Marshall e Robin Warren receberão o prémio, avaliado em cerca de 1,1 milhões de euros, no próximo dia 10 de Dezembro, data do aniversário da morte de Alfred Nobel, fundador dos galardões.
MENOS ESPAÇO PARA CANCRO
A importância científica dos dois investigadores australianos é ainda maior quando se sabe que a sua descoberta não só permite curar as úlceras duodenais e gástricas mas também pode evitar muitos novos casos de cancro do estômago, uma consequência da úlcera.
O gastroenterologista Carlos Sofia sublinha ao CM que a bactéria ‘helicobacter pylori’ pode ter uma acção carcinogénica, que favorece o aparecimento do cancro do estômago. “A bactéria é um dos factores que pode provocar o cancro do estômago, mas não é o único e não se pode tirar a conclusão que quem tem uma úlcera vai ter como consequência directa o cancro, pois muita gente sofre de úlcera e não desenvolve o carcinoma.”
O cancro do estômago é um dos mais fatais em Portugal, tirando a vida a cerca de 2900 portugueses todos os anos. Uma alimentação errada é um dos factores que pode causar a doença.
O único português premiado com um Nobel da Medicina foi António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, falecido em Lisboa a 10 de Dezembro de 1955, seis anos após ter sido laureado com o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia.
Era natural de Avanca, Aveiro, onde nasceu a 29 de Setembro de 1874. Doutorou-se pela Faculdade de Medicina de Coimbra em 1899 e em 1902, entrando depois para o quadro docente.
Em 1911 transferiu-se como professor catedrático para a Faculdade de Lisboa. Pelos seus trabalhos sobre angiografia cerebral tornou-se um clínico de renome mundial, abrindo horizontes no domínio da neurologia e cirurgia. No hospital de Santa Maria criou escola de neurologia e neuro-cirurgia. Mais informações sobre os nobel em www.nobelprize.org/medicine.
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