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Correio da Manhã

Portugal
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Cura para a diabetes 1

Pela primeira vez no Reino Unido um diabético do tipo 1 ficou curado depois de receber o transplante de células do pâncreas de dadores de órgãos. Esta técnica revolucionária é o mais importante passo para a cura dos insulinodependentes.
10 de Março de 2005 às 00:00
Richard Lane, de 61 anos, pôs fim a 30 anos de injecções diárias de insulina depois de receber as células pancreáticas de três dadores. “É um avanço científico no tratamento da diabetes do tipo 1 mas para que mais doentes beneficiem ainda vai necessário mais algum tempo de investigação”, afirmou ao CM José Manuel Boavida, endocrinologista e presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal.
Em Londres, Lane foi o terceiro diabético tratado no Hospital King College com esta técnica desenvolvida na Universidade de Alberta, Canadá, pelo especialista James Shapiro. O sucesso do transplante neste paciente foi total, ao contrário de dois diabéticos anteriores, que reduziram – mas não eliminaram – a necessidade de se injectar com insulina.
Lane submeteu-se a três intervenções – duas em Outubro e uma outra em finais de Janeiro – para receber uma quantidade grande de células do pâncreas, cerca de um milhão, não sendo por isso suficiente um único dador.
Há quatro anos, a diabetes deste doente descontrolou-se de tal forma que teve de ser ligado a um aparelho que lhe injectava uma dose de insulina de seis em seis minutos, mas o dispositivo começou a falhar. No ano passado surgiu a possibilidade de se submeter a um transplante, que consistiu em extrair as células do pâncreas de um dador, purificá-las, prepará-las e injectá-las no seu fígado numa operação que não demorou mais de uma hora, com anestesia local.
UM SONHO REAL
“Nunca me senti tão bem desde há 30 anos e às vezes tenho de me beliscar para acreditar que não estou a sonhar”, declarou Lane.
Os investigadores canadianos demonstram assim que os diabéticos do tipo 1 podem viver sem a insulina depois de um tratamento completo.
Os resultados deste transplante de dadores mortos entusiasmaram de tal maneira a equipa clínica que a especialista responsável pela intervenção, Stephanie Amiel, do King College, considerou que “as implicações para o futuro são enormes”.
A Associação de Diabéticos inglesa está a financiar a investigação para conseguir a cura dos diabéticos.
Entretanto, investigadores no Japão anunciaram recentemente já ter realizado esta técnica de ensaio clínico com transplante de células de um dador vivo.
ESTE É O DESEJO QUE TODOS NÓS ANSIAMOS
João Nabais, 36 anos, docente universitário e diabético há 24 anos.
Correio da Manhã – O que significa para si a notícia da cura de um diabético do tipo 1, como o João?
João Nabais – É o desejo, o sonho que todos os insulinodependentes ansiamos.
– De que forma este tratamento viria alterar a sua vida?
– Viria alterar a minha rotina diária, necessária para controlar a diabetes apesar de ter uma vida tão normal como outra pessoa qualquer. A minha rotina passa pela administração da insulina, a medição da glicémia e uma dieta alimentar cuidada, o exercício físico.
– É com entusiasmo que recebe então esta notícia?
– Com entusiasmo contido.
– Contido porquê?
– Porque os diabéticos transplantados precisam tomar os imunossupressores para que não haja rejeição. Além disso, é preciso ter a noção que uma cura total não vai estar disponível a breve prazo para os doentes.
– Enquanto não chega cá esta cura...
– Controlamos a diabetes o melhor possível no dia-a-dia.
FALAM OS ESPECIALISTAS NACIONAIS
“Portugal ainda não iniciou este tratamento por falta de verbas, mas apresentou um projecto. A introdução de células beta no fígado resolve a falta de produção de insulina no paciente, mas precisa tomar imunossupressores." Luís Cardete Correia, Dir. Ser. Endoc. H. Curry Cabral
“O transplante de células pancreáticas é a porta de entrada para a cura dos diabéticos, mas ainda se está na fase de investigação, não se pode falar em cura total. Faltam uns anos de investigação científica para aprofundar a técnica.” José Manuel Boavida, Pres. Ass. Prot. Diabét. Portugal
“O futuro do tratamento completo do insulinodependente passa pelo transplante das células estaminais, mais do que o transplante das células do pâncreas. Estes processos são muito onerosos e o País não tem dinheiro.” Manuela Carvalheiro, Pres. Soc. Port. Diabetologia
“O transplante das células pancreáticas ainda é uma técnica experimental, pode levar uns anos até ser generalizada. Este tratamento não pode ser aplicado a todos os diabéticos do tipo 1, apenas aos que têm doença descompensada.” Mendes Vasconcelos, Pres. Col. Endoc. Ordem Médicos
A SABER
O QUE É A DIABETES?
A diabetes é uma doença crónica caracterizada pelo aumento dos níveis de açúcar (glucose) no sangue. A acumulação de glucose que existe nos diabéticos deve-se à falta ou insuficiente acção da insulina, levando ao mau aproveitamento dos açúcares, gorduras e proteínas, que são a base energética do corpo humano.
DIABETES TIPO 1
No tipo 1 da diabetes (conhecido por insulinodependente) a destruição da célula beta do pâncreas é devido a doença auto-imune. Estes diabéticos necessitam de terapêutica com insulina para toda a vida porque o pâncreas deixa de a poder fabricar. Não está relacionada com hábitos de vida.
DIABETES TIPO 2
A diabetes tipo 2 (conhecida por não-insulinodependente), normalmente, está associada a um passado genético idêntico e a pessoas com excesso de peso e vida sedentária e atinge cerca de 90 por cento dos casos. Provocado por resistência à acção da insulina, associado a deficiência da secreção.
CONTROLO DA DOENÇA
Os diabéticos do tipo 1 têm que controlar, várias vezes ao dia, os níveis de glicémia (quantidade de açúcar no sangue) e aplicar insulina. Nas várias formas em que a doença se manifesta, aconselha-se uma dieta alimentar rigorosa e a prática regular de exercício físico.
SINTOMAS
Os principais sintomas são: sede excessiva e intensa; sensação permanente de boca seca; fome constante e difícil de saciar; aumento do volume de urina; fadiga; comichão no corpo (sobretudo nos órgãos genitais); visão turva e perda de peso. Nas crianças, ainda, dores de cabeça e náuseas.
IMUNOSSUPRESSORES
Os imunossupressores, que existem há cerca de uma década, são medicamentos indispensáveis aos doentes que se submetem a um transplante porque impedem que o organismo rejeite o órgão do dador. Estes medicamentos já não causam tantos efeitos secundários como inicialmente.
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