"Foi um choque porque já não contávamos que aparecesse. Mas um alívio porque assim já podemos fazer o funeral". Paula Nunes, tia do pequeno Leandro, o menino vítima de bullying e cujo corpo apareceu ontem na Azenha do Saldanha, a 13 quilómetros do local onde se terá suicidado, não escondia a dor da descoberta. Ao lado dos pais, Paula Nunes tentava prestar todo o apoio à família. E confessava que o facto de o cadáver ter aparecido acabava por ser uma dura machadada na esperança que ainda os envolvia. "A dor voltou como no primeiro dia, porque apesar de já todos sabermos foi a triste confirmação da realidade. O Leandro morreu mesmo".
Os pais do menino receberam a notícia de manhã cedo. Dirigiam--se à cidade, para mais um dia de trabalho, quando foram avisados da descoberta. A mãe dirigia-se para o curso que frequenta em Mirandela, o marido acompanhava-a depois de terem deixado o filho mais velho na escola. Às 12h30, deviam ir ao Ministério Público de Mirandela para serem ouvidos no inquérito policial. A diligência foi obviamente adiada, depois da psicóloga ter sabido que um pescador encontrara um corpo de uma criança na margem do Tua. Interceptou-os ainda na estrada, pediu-lhes que a acompanhassem ao gabinete médico legal para identificarem os restos mortais do filho.
O momento foi de dor intensa. Os pais de Leandro não tiveram dúvidas em reconhecer o menino. O cadáver estava visivelmente decomposto, mas era o filho de 12 anos. As roupas confirmavam-no.
Na escola, onde a bandeira foi colocada a meia haste, o irmão gémeo de Leandro e os primos foram chamados por outro familiar. As crianças foram acompanhadas até casa para serem apoiadas em mais um momento de dor.
Às 16h00, quando a agência funerária transportou a urna, lacrada, para a Igreja de Cedainhos, eram muitos os que aguardavam a chegada do menino. A aldeia unira-se em peso para apoiar a família que se mantinha resguardada da imprensa. O pai e a mãe de Leandro não falaram e o gémeo Márcio, em silêncio, permaneceu ao lado do casal.
Hoje, pelas 10h00, o corpo de Leandro será enterrado. Os amigos da escola deverão comparecer, o conselho executivo do estabelecimento de ensino far-se-á representar pelo director que ontem mesmo esteve no local a apoiar a família.
DIRECTOR FALOU COM A FAMÍLIA
O director da EB 2,3 Luciano Cordeiro, José Carlos Azevedo, contactou ontem oficialmente e pela primeira vez os pais de Leandro, apesar de ter trocado poucas palavras com a família. "Apenas me deu os pêsames. Não me disse mais nada", contou Amália Nunes ao CM. Os elementos do conselho executivo da escola Luciano Cordeiro estiveram cerca de trinta minutos no hospital.
"VI LOGO QUE SERIA O MENINO"
"Assim que olhei para o corpo tive logo a sensação de que seria o menino desaparecido", disse Manuel Geraldo, o homem de 40 anos que encontrou o cadáver do pequeno Leandro. "Olhei para trás e pelo vulto, apercebi-me logo que era uma criança, estava preso em paus a uns dois ou três metros do leito do rio", adiantou Manuel Geraldo, que garantiu que o corpo não estava lá há mais de três dias. "Foi uma sensação estranha", confessou, ainda mal recomposto da descoberta.
NOTAS
AGRESSÃO: FOGE DA ESCOLA
Leandro terá fugido da escola após ter sido agredido por colegas mais velhos. O menino atirou-se ao rio quando se encontrava com o irmão, o primo e alguns amigos
PROCESSO: POLÍCIA INVESTIGA
A PSP abriu um inquérito para perceber os contornos da morte da criança. Também a DREN abriu uma averiguação para perceber se houve negligência da escola
BOMBEIROS: RIO DESCEU
"O leito do Tua desceu bastante e deixou a descoberto o corpo do menino", explicou o comandante das operações Melo Gomes, lembrando que tinha havido buscas naquela zona
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