A “maioria do pessoal médico do Uíge está com medo da epidemia e não quer ir trabalhar. Dizem que falta material e condições de trabalho”, relatou ao Correio da Manhã o padre e director da Cáritas em Angola, Odilon Borjas.
“O país corre o risco de que a doença se alastre”, afirma o padre mexicano há sete anos em Luanda. “O problema está na morgue, onde não se distingue os corpos daqueles que morreram ou não de Marburg”. Mais: as autoridades sanitárias angolanas temem que o vírus atinja os familiares das mais de 80 crianças mortas pela doença.
A última vítima mortal sucumbiu ontem. Trata-se de uma jovem de 19 anos, órfã de mãe também falecida devido à febre hemorrágica. Contam-se 122 mortos. “Estamos à espera que comecem agora a morrer as mães, os pais, os irmãos mais velhos das crianças mortas”, disse à Lusa Carlos Alberto, do Ministério da Saúde angolano.
Apesar da chegada dos ‘Médicos Sem Fronteiras’ à província do norte de Angola, os técnicos de saúde continuam alarmados.
“Os médicos italianos saíram do país por força da sua própria Embaixada”, conta o português e bispo do Uíge, D. Francisco da Mata Mourisca. É uma consequência da morte de dois médicos, um vietnamita e outra italiana, infectados pelo vírus de Marburg.
Angola ainda não pediu ajuda à AMI e Cruz Vermelha Portuguesa (CVP). “Temos uma delegação no país e estamos a acompanhar a evolução das coisas para ver se é necessário ou não mandar uma missão”, disse Paulo Cavaleiro, da AMI.
A CVP considera plausível uma intervenção idêntica à ocorrida, há dois anos, na Guiné-Bissau. “Levámos soros e algum material hospitalar”, recorda Ricardo Almeida, um dos responsáveis da organização.
A Cruz Vermelha de Angola (CVA) limita-se a “acções de sensibilização e informação no Uíge”, revelou Ambrósio Casal, da CVA, ao CM.
"MÉDICOS NÃO ESTAVAM PREVENIDOS"
D. Francisco da Mata Mourisca bispo do Uíge:
Há muitos portugueses no Uíge?
– Ficaram dois ou três que não vão sair. Os últimos que viajaram para Luanda são recém-formados, voluntários no ensino.
Como estão a reagir os médicos à epidemia?
– No início, os médicos não estavam prevenidos nem pensavam numa epidemia deste género. Quando morreu um médico vietnamita e outra italiana, todos ficaram um pouco assustados.
E com a chegada da ajuda internacional?
– Chegaram ontem [domingo] dez ‘Médicos Sem Fronteiras’ que nos vão ajudar a informar a população para evitar o contágio da doença.
A população está muito alarmada com a situação?
– Há preocupação mas a vida continua. As escolas e o mercado continuam abertos. A Igreja tem uma nota para todos os párocos lerem durante a missa, onde informam sobre o contágio da doença.
MEDIDAS PORTUGUESAS LIMITAM-SE A UM FOLHETO
“Não podemos montar um dispositivo despropositado para este tipo de risco”, diz Graça Freitas, da Direcção-Geral de Saúde (DGS) a propósito das queixas dos passageiros que chegam diariamente a Lisboa provenientes de Luanda. A DGS tem um cartaz com o “alerta de saúde” e uma bancada com folhetos informativos sobre o vírus de Marburg na zona das chegadas dos aeroportos portugueses, que parece não ser suficiente para alertar os passageiros sobre os perigos da epidemia e as precauções a ter.
João Pinto foi um dos passageiros que levou a folha informativa para casa, depois da aterragem em Lisboa, no voo das 6h00, de sábado. O emigrante em Luanda fazia-se acompanhar pela mãe, transportada numa maca por força de uma doença oncológica, e mais dois familiares. “No aeroporto de Luanda não nos informaram de nada. Só soubemos da doença por ouvir conversas entre passageiros no avião”, conta.
Graça Freitas reconhece que “há pessoas que podem não ver os folhetos informativos”, mas duvida que em Angola se desconheça a doença. Afirma, no entanto, que os riscos estão controlados, sendo “impossível reagir de outra forma”.
Luciana Pinto, 52 anos, mãe de João, foi levada de ambulância para casa. Nada tinha a ver com a febre hemorrágica, mas também ninguém lhe fez perguntas. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras justifica que em casos como os de doentes acamados, apenas desloca o controlo da fronteira para a pista do aeroporto. As questões de saúde e sanitárias competem à DGS.
A ORIGEM DA FEBRE HEMORRÁGICA
PORTUGAL
Até ao momento, os serviços de saúde em Portugal apenas se defrontaram com dois casos de suspeita de febre hemorrágica. Um deles foi o de um indivíduo que morreu no sábado num hospital privado de Lisboa, à primeira vista, com malária cerebral. Outro caso anterior já foi desmentido.
MARBURG
O vírus foi reconhecido pela primeira vez em laboratórios de Marburg e Frankfurt, na Alemanha, e Belgrado, na então Jugoslávia, em 1967. Na altura 37 pessoas foram infectadas. As primeiras estiveram em contacto com macacos verdes – usados como cobaias – ou com os seus tecidos.
CURA?
Não é ainda conhecida uma forma de tratamento específica para este vírus. No entanto, é importante que as pessoas que sintam os sintomas da doença (ver gráfico) sejam hospitalizadas. Quem esteve recentemente no Uíge e se sentir doente dentro de 21 dias deve ligar para 808 211 311.
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