A eventual inimputabilidade de João Pinto, o homem que nos últimos dias de Maio asfixiou a filha de seis anos na casa onde morava, em São Mamede de Infesta, Matosinhos, poderá levar a que o arguido não cumpra qualquer pena de cadeia – mas sim de internamento. A Defesa do arguido assenta nessa tese e o Ministério Público pretende agora contrariá-la, juntando novos exames de personalidade do homicida.<br/>
O relatório foi pedido pelo MP à cadeia onde João Pinto está em prisão preventiva – com apertada vigilância, dadas as tentativas de suicídio – e servirá para fundamentar em que estado psíquico se encontrava o arguido quando o crime foi cometido.
O documento aponta no sentido da inimputabilidade com base em testemunhos do homicida: desde o início que diz não saber explicar por que matou a filha, embora tivesse planeado tudo ao pormenor. Diz que gostava dela e atribui o crime a um 'acto de amor'. Não é descrito como esquizofrénico; poderá porém ter perdido momentaneamente a capacidade de discernir o bem do mal.
No dia do crime, João Pinto brincava com a criança e, após o homicídio, mandou uma mensagem por telemóvel à mulher, de quem se estava a divorciar, a contar o que tinha feito. Maria João resistiu alguns minutos, mas o pai não abrandou a força. Matou-a com o cinto do roupão e ao som de uma canção de que ela gostava.
Com um pedido de parecer, o MP quer evitar a inimputabilidade. Os investigadores defendem que João Pinto estava na sua plena capacidade e forjou a tentativa de suicídio. Foi preso junto à praia, mas a PJ acredita que nunca se tentou matar.
'NÃO CONSIGO IR À CASA ONDE ELA MORREU'
Em Janeiro passado, João Pinto despediu-se do emprego. Recebeu a indemnização e durante meses viveu dos rendimentos. Não contou a ninguém que já não trabalhava. Na empresa, o patrão garante que ele nunca deu sinais de desequilíbrio, embora ninguém percebesse o que o fez afastar-se.
A casa de João Pinto foi posta à venda. Não arranjou comprador para o apartamento de São Mamede de Infesta, em Matosinhos, onde acabou por matar a pequena Maria João. Rosa Ferreira diz agora que continua a tentar vender a casa, mas que ainda não conseguiu lá entrar. 'Foi lá que morreu a minha filha. Ainda não tive coragem, mas vamos tentar vendê-la. Depois de tudo o que aconteceu, nunca mais poderíamos ficar com ela', afirma ao CM, visivelmente desgastada.
'NÃO PASSOU DE UMA VINGANÇA'
Rosa Maria Ferreira, mãe de Maria João, diz que vive um dia de cada vez. Não ultrapassou a morte da filha, nunca mais voltou à casa onde a menina foi estrangulada, mas tenta recuperar do choque. Não acredita, porém, que o marido seja inimputável. Diz que ele sabia o que fazia, que tudo não passou de uma vingança contra ela. 'Ele é muito inteligente. Sabia o que fazia e foi a forma de me tirar a minha filha. Quis castigar-me, vingar-se de mim. Sempre disse que me ia destruir, mas nunca conseguiu. Fez o que sabia que ia acabar coma minha vida', afirma ao CM, recordando que João Pinto já a tinha alertado de que era um ‘monstro’. 'Nunca acreditei, mas ele cumpriu as ameaças.'
Maria Rosa afirma que a dor continua a dominar-lhe a vida. 'Um dia tenho de tentar passar para o papel o que sinto. Será a única forma de tentar ultrapassar o que vivi.'
As irmãs de Maria João também tentam recuperar do trauma.'Vivemos um dia de cada vez.'
PORMENORES
SEM PERDÃO
Rosa Ferreira não tem dúvidas. Nunca perdoará o marido e nem o visitou na cadeia. Não falou com ele depois de receber a mensagem por SMS que lhe dava conta da morte da menina de seis anos.
FILHAS NÃO O VISITAM
As filhas de Rosa Ferreira (fruto de um primeiro casamento) sempre viveram com João Pinto, com quem mantinham uma boa relação. Nunca o visitaram na cadeia.
IRMÃ APOIA JOÃO PINTO
A irmã é a única que o apoia. Arranjou-lhe advogado.
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