Felisbela, a menina de seis anos baleada na cabeça num infantário do Pendão, Queluz, acordou ontem muito rabugenta. Queixava-se de dores no corpo, facto que emocionou os pais. “Coitadinha. Até me disse logo quando cheguei: ‘Quero ir-me embora. Pai, quero ir para casa’”, confidenciou José Dias, ao CM.
Comovido, o pai da menina baleada quarta-feira, esperava ontem, ao final da tarde, que os médicos lhe dissessem o que pensam fazer, depois de saberem, através de uma TAC (Tomo- grafia Axial Computorizada) realizada pelas 12h00, que a bala não se moveu, mantendo-se na base do cérebro, alojada no sistema nervoso central.
“Disseram-me que a bala se mantém no mesmo local e que estavam a aguardar os cirurgiões para decidir o que vão fazer”, contou ao CM José Dias, acrescentando que, devido ao adiantado da hora, só hoje deveria saber o futuro da filha.
Felisbela continuava internada no Serviço de Observação (SO) da Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Mas poderá sair já hoje. Quanto a um regresso a casa, essa possibilidade não se põe por ora.
Ontem e à semelhança dos dias anteriores, José Dias notou melhoras na menina: “Nem se compara”, salientou, referindo que, apesar de notar que Felisbela tem dificuldades em visualizar. “Ela repara nas pessoas, pelo que acho que vê qualquer coisinha. Talvez tenha uma visão um pouco ‘nublada’.”
José Dias elogia os cuidados que a filha tem recebido naquela unidade hospitalar: “Tem sido muito bem tratada. Não tenho nada a apontar. Eles, médicos e enfermeiras, têm sido espectaculares”, frisou, acrescentando que a menina se encontrava na companhia da mãe, Ana Florbela Oliveira, que ontem dormiu em casa dos padrinhos da filha, para tentar descansar.
Ana Florbela tem sido incansável ao ponto de preocupar os familiares e amigos, pois nos primeiros três dias não arredou pé de junto da filha.
ARMA ADAPTADA
Felisbela já foi operada na passada quarta-feira, depois de ter sido atingida, mas os médicos decidiram não retirar o projéctil, por ser perigoso.
A bala calibre .22 terá sido disparada de uma pressão de ar adaptada pelo guarda-nocturno reformado Hergulino Manuel Vidas, a quem os jovens, alegados atiradores, roubaram a arma.
“Fui eu que a adaptei. Alarguei o buraco para que, em vez de entrar um chumbo, entrasse uma bala”, confessou ao CM Hergulino Vidas, visivelmente consternado pelo incidente trágico, ocorrido na manhã de quarta-feira, quando a menina se encontrava no recreio do Centro Bem-Estar Social do Pendão, em Queluz.
É nesta instituição que Felisbela tem os seus amigos, pois foi aqui que concluiu o infantário tendo ingressado, este ano lectivo, no 1.º ano do ensino básico. “Antes, quando Felisbela tinha uns três meses, eu e a mãe decidimos entregá-la a uma ama, porque ambos trabalhávamos”, recorda José Dias, lamentando que a mãe da menina, com 40 anos, esteja agora no fundo de desemprego.
Emocionado, este homem quase não descansa. “Não consigo dormir e mal amanhece ponho-me a caminho do hospital.” Ontem, chegou manhã cedo. Foi almoçar com a mãe de Felisbela a casa dos padrinhos da menina, após realizada a TAC e regressou logo depois ao hospital.
Apesar de, segundo os pais, a menina ter tido alguma evolução, os médicos continuam a afirmar que Felisbela tem “prognóstico reservado”. E isto porque a bala não se moveu, pelo que continua alojada no sistema nervoso central, na base do cérebro, facto que pode afectar a visão, o olfacto, o tacto, os movimentos e a sensibilidade, explicou já ao CM Correia Cunha, director-clínico do Hospital de Santa Maria, acrescentando que o sistema nervoso central tem uma acção indispensável sobre certos órgãos.
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