Dois cidadãos norte-americanos, de 55 e 67 anos, suspeitos de integrarem uma rede de pedofilia com ligações à Holanda, foram detidos em Portugal. As duas detenções efectuadas pela Polícia Judiciária, em cumprimento de dois mandados de detenção internacionais, tiveram lugar em Cascais, a 7 de Fevereiro e 14 de Junho deste ano, no âmbito de uma investigação levada a cabo pela Polícia holandesa.
Segundo apurou o CM, as autoridades contaram com a colaboração do filho de um dos pedófilos a residir no nosso país, também ele vítima, que terá sido fundamental na identificação de outros suspeitos. Até ao momento foram detidos quatro norte-americanos (dois em Portugal e dois na Holanda) e identificados três jovens holandeses como vítimas. A Polícia admite, porém, a existência de mais ofendidos, razão pela qual só agora deu conta das detenções e vai prosseguir com a investigação.
QUATRO DETIDOS
Segundo apurou o CM junto da Polícia holandesa, o caso teve origem numa queixa apresentada por três homens holandeses que resolveram denunciar os abusos sexuais a que terão sido sujeitos, em Amesterdão, entre os anos de 1987 e 1991, à data com idades compreendidas entre os oito e os 16 anos. As vítimas terão referenciado apenas o nome de um cidadão norte-americano que, em 1997, foi localizado a residir em Portugal.
Após a detenção deste indivíduo, o filho do suspeito revelou às autoridades que ele próprio fora vítima e colaborou com a Polícia na identificação de outros elementos que integravam a rede. Esta terá sido a pista fundamental que levou à detenção de outros três norte-americanos.
Os suspeitos estão actualmente presos na Holanda, onde deverão ser julgados, uma vez que os factos denunciados tiveram lugar em Amesterdão. Os detidos, titulares de passaportes holandeses e norte-americanos, são especialistas em informática. Apesar deste dado, a Polícia holandesa não fez qualquer referência à eventual apreensão de material pornográfico.
Recorde-se que, no início de Julho, as autoridades espanholas detiveram 42 pessoas suspeitas de integrarem uma rede de distribuição de pornografia infantil através da internet. Segundo a Guarda Civil de Navarra, Portugal foi um dos países receptores de fotografias de menores realizadas em Espanha.
A denúncia de uma jovem de 17 anos esteve na origem da operação, iniciada após a detecção de 27 arquivos fotográficos geridos por um grupo de utilizadores localizados em Espanha e Andorra, que integrava uma rede internacional.
REFERÊNCIAS A AMERICANOS NA CASA PIA
Carlos Silvino, principal arguido do processo de pedofilia da Casa Pia, revelou em julgamento que, nos anos 60 e 70, jovens da instituição foram levados para os Estados Unidos da América, para fazer “filmagens e sexo”.
Na 11.ª audiência, ‘Bibi’ identificou um norte-americano como sendo um dos cidadãos estrangeiros que costumavam recrutar miúdos na Casa Pia para práticas sexuais: Ken Rogers, conhecido como ‘o amigo americano’ por ajudar jovens casapianos.
“Dava-lhes banho e prendas, beijava-os. Fazia o que queria”, avançou ao CM, na edição de 8 de Dezembro de 2002, o padre António Emílio Figueiredo, de 76 anos, capelão da instituição, que fez queixa às autoridades. O processo no Tribunal de Menores foi arquivado e o padre afastado da Casa Pia, em 1971.
SIS IDENTIFICOU TRÊS GRUPOS INTERNACIONAIS
Os Serviços de Informação e Segurança (SIS) portugueses identificaram, em 2000, três redes de pedofilia internacionais a actuar no nosso país: uma liderada por um engenheiro informático francês e duas por cidadãos britânicos. Segundo o SIS, as redes operavam na margem Sul do Tejo, designadamente na Costa de Caparica.
Alguns dos principais membros frequentavam o Parque Eduardo VII e contavam também com a colaboração de cidadãos portugueses. Estas organizações dedicavam-se à exploração sexual de menores, que aliciavam para práticas sexuais com vista à realização de filmes e fotografias pornográficos. O SIS concluiu que Portugal era um dos destinos da Europa mais procurados por pedófilos, embora não se encontrasse na principal rota da pedofilia.
PRESOS EM PORTUGAL
Cerca de 209 pedófilos estavam, em Agosto do ano passado, a cumprir penas de prisão em Portugal. As idades dos condenados por abusos sexuais variam entre os 35 e os 64 anos. Todos eles foram condenados a penas entre os quatro e os nove anos de cadeia.
DETENÇÕES AUMENTAM
As detenções de abusadores realizadas pela Polícia Judiciária aumentaram desde a divulgação do escândalo de pedofilia da Casa Pia. Em 2003, foram detidos 93 indivíduos e, em 2004, a PJ prendeu 103 suspeitos. Já em 2005 foram abertos 400 inquéritos e detidas mais de 120 pessoas. A maioria das capturas ocorreu na área metropolitana de Lisboa.
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