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Foi como um cão que morreu

Maria da Conceição vai ao Tribunal da Boa-Hora sempre que há sessão de julgamento. Nove engenheiros e técnicos da Lusoponte/Novaponte são acusados de violação das regras de segurança na construção da Ponte Vasco da Gama. Sãozinha e Grigória, duas filhas de Maria da Conceição, morreram, em 1996, afogadas numa vala aberta na zona da obra. Ela vai ao Tribunal, nas não entra na sala de audiências. “Dizem sempre a mesma coisa. Passaram nove anos. Foi como um cão que morreu.”

05 de março de 2005 às 00:00

Maria da Conceição estava sentada nas escadas de mármore do pátio do Tribunal quando, “lá dentro” foi ontem ouvida a última testemunha da Defesa, João Morais Leitão, presidente do Conselho de Administração da Lusoponte. Morais Leitão atribuiu ao Gabinete da Travessia do Tejo em Lisboa, organismo do Estado, toda a responsabilidade de fiscalização da obra, nomeadamente nos aspectos de segurança e ambiente.

“Quando há muita gente envolvida, cada qual empurra para o parceiro do lado e ninguém é culpado”, comentou, em declarações aos jornalistas, a advogada Gracinda Barreiros, que representa a mãe das vítimas. A advogada lembrou igualmente as referências de Morais Leitão à grandiosidade da obra, qualidade e competência dos técnicos, ingleses, franceses e portugueses, notando: “Mas ninguém avança para ressarcir uma mãe que perdeu duas filhas.” Mais ainda se estranha quando, à conta do contrato a 25 anos com o Estado português relativo à exploração das portagens, a Lusoponte já ganhou o suficiente para construir uma nova travessia sobre o Tejo.

Gracinda Barreiros pretendia que o processo criminal entrasse na fase das alegações finais apenas quando o Cível estivesse resolvido (o pedido de indemnização deu entrada em 1999), mas a presidente do Colectivo, Ana Peres, não atendeu a tal solicitação. As alegações finais terão lugar no dia 1 de Abril.

RECORDAR SÃOZINHA E GRIGÓRIA

Naquele dia, 10 de Fevereiro de 1996, Grigória e Sãozinha Semedo, de 7 e 10 anos, que viviam no bairro de barracas da Quinta do Carmo, em Sacavém, decidiram ir brincar para a ‘piscina’. Era assim que chamavam à vala com água da chuva destinada à instalação de caixas de electricidade de apoio à construção da Ponte Vasco da Gama. A ‘piscina’ das meninas tinha 60 metros de extensão e oito de profundidade. Não estava vedada, nem no local existia qualquer vigilante.

Um companheiro de brincadeiras das irmãs lançou uma prancha de ‘bodyboard’ à água. Sãozinha disse que sabia nadar e logo se dispôs a ir buscá-la. Saltou para a água esverdeada da ‘piscina’ das crianças do bairro de lata.

Mesmo que Sãozinha soubesse nadar, a lama tê-la-á atraiçoado, prendendo-lhe os movimentos.

Na beira da vala, Grigória apercebeu-se da aflição da irmã e não pôde ficar-lhe indiferente. Quis agarrar a mão de Sãozinha, trazer a mana para terra firme. Grigória lançou-se também à água enlameada. Deve ter pensado que, no final do dia, aquele havia de ser apenas um susto, uma ‘brincadeira’ que não haviam de contar à mãe. Sãozinha e Grigória morreram afogadas. Só a mãe sabe o tamanho da dor que traz no coração.

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