Aos 14 anos, a vida de Elisabete Magalhães mudou. A febre ou dores de garganta, sintomas consistentes com uma simples constipação, foram o prenúncio de uma adolescênc-ia que se tornou diferente. O diagnóstico de leucemia chegava pouco depois e deu início a uma batalha sem tréguas.
“Tive sorte”, afirma. Hoje, aos 30 anos, casada e mãe de uma menina, fala da doença que lhe roubou dois anos com à-vontade e sem revolta. Não foi preciso um transplante de medula óssea para que conseguisse vencer a leucemia, mas para muitos ele significa a diferença entre a vida e a morte. “A transplantação continua a ser uma modalidade de tratamento usada com alguma frequência e que pode ser potencialmente curativa”, explica António Parreira, Presidente da Associação Portuguesa contra a Leucemia. Mas para o fazer é preciso encontrar um dador compatível. E ele pode ser qualquer um de nós.
Em Portugal, o Registo Nacional de Dadores Voluntários de Medula Óssea foi criado em 1995. Em Dezembro de 2002 contava com 1525 dadores inscritos, números que hoje ascendem aos 25 mil. No entanto, ainda não são suficientes. “Calcula-se, com base na nossa população e no exemplo de outros países, que sejam necessários 40 mil dadores registados. É essa a nossa luta”, refere António Parreira.
DOAR MEDULA NÃO DÓI
“Doar medula não é a mesma coisa que doar um olho, um rim, um braço, um pulmão ou uma perna. É a possibilidade de contribuir, de forma simples e quase indolor, para salvar uma vida”, explica Filipe Botelho. Especialista por força das circunstâncias, fala com o conhecimento adquirido ao longo dos muitos dias passados no Instituto Português de Oncologia de Lisboa, na companhia da filha, Inês, que luta há dois anos contra a doença. E fala sobretudo para tentar afastar o fantasma da ignorância, um dos maiores entraves ao crescimento do registo de dadores de medula óssea, que pode salvar muitas vidas.
“Quando nos disseram que a minha filha ia precisar de um transplante, comecei a pedir às pessoas conhecidas, familiares e amigos, que fizessem os exames para saber se eram compatíveis com a Inês. E se houve pessoas que se prontificaram, muitas mais diziam que tinham medo, que isso ia implicar uma operação, que ficavam sem um pedaço da coluna... Percebi que havia uma ignorância total e decidi, por isso, fazer um apelo na televisão e tentar explicar que doar medula não é um bicho de sete cabeças, que a medula é aquilo a que chamamos tutano, é a fábrica do sangue. Na leucemia, a dada altura a medula deixa de produzir células normais para produzir células cancerígenas, que se multiplicam rapidamente”, afirma.
UMA DÁDIVA DE VIDA
Os resultados do apelo ultrapassaram todas as expectativas. Milhares de pessoas acederam a fazer os exames de tipagem e o registo nacional deu um salto nunca antes visto: cresceu até aos 25 mil dadores. “As pessoas sentiram-se motivadas com o problema da minha filha, mas o meu objectivo era alertar para a realidade nacional de doentes que hoje, neste preciso momento, estão a precisar de um transplante e podem morrer, se não encontrarem um dador compatível. E o apelo que fiz na altura gostava que fosse intemporal. Porque encontrar um doador compatível é uma lotaria”, diz Filipe Botelho.
Na realidade, em oito milhões de pessoas, Inês ainda não foi capaz de encontrar uma medula compatível com a sua. “Por isso, quantas mais pessoas se inscreverem, melhor. Já conseguimos contribuir para salvar algumas vidas, mas muitas mais há que precisam ser salvas.”
BANCO MUNDIAL COM 9 MILHÕES
Com o objectivo de aumentar as probabilidades de encontrar o maior número possível de dadores de medula óssea compatíveis foi criado, em 1988, um registo mundial. Reino Unido, França, Holanda, Alemanha ou Itália foram alguns dos países a contribuir com dadores para o registo. Hoje, são 36 os que dele fazem parte, com mais de nove milhões de dadores registados. Portugal é um deles e com números que nos colocam à frente de nações como a Grécia, Irlanda ou Finlândia. Um esforço grande para sair do último lugar da lista, que já ajudou a salvar vidas.
'PROCESSO TEM DE SER AINDA MAIS AGILIZADO'
Duarte Lima, ex-líder parlamentar do PSD, foi surpreendido por uma leucemia há seis anos. Sobreviveu graças a um transplante de medula óssea e, desde então, tem lutado pelo aumento do registo de dadores. Foi um dos fundadores da Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) e não tem dúvidas sobre a importância de que se tornam dádivas de vida.
Sabe que teria morrido se não tivesse um irmão compatível, uma sorte que não toca a todos. “E ainda mais se pensarmos que as famílias têm cada vez menos filhos. E havendo a possibilidade de encontrar um dador compatível, a probabilidade de sobrevivência é de 70 por cento”, explica.
Um dos grandes objectivos da criação da APCL foi e continua a ser o aumento de dadores registados. E apesar do crescimento assistido no espaço de um ano, Duarte Lima considera que o trabalho não parou por aqui. “Precisamos de mais pessoas e para isso é importante desmistificar, de uma vez por todas, o que significa doar medula óssea e fazer com que as pessoas entendam que é um processo fácil e pouco doloroso”, refere o advogado. No entanto, se por um lado se tem que apostar na tarefa de informar, outra há que precisa de atenção. É que há muitas pessoas que já manifestaram a vontade de serem dadores, sem que, no entanto, haja capacidade para dar resposta a esses pedidos. Faltam meios e verbas, uma batalha a que a APCL se decidiu associar, suportando parte dos custos. “É que o processo tem de ser ainda mais agilizado.”
DOAR É TÃO FÁCIL QUE ATÉ SE VÊ TELEVISÃO
Para os que desconhecem o que significa ser dador de medula óssea, Hélder Trindade, director do Centro de Histocompatibilidade do Sul, explica que começa com uma simples análise de sangue. “Quem tenha entre os 18 e os 45 anos tem de preencher um inquérito clínico breve, a que se segue uma avaliação por um médico que confirma que são saudáveis. Faz-se então a tipagem genética e a pessoa fica inscrita no registo nacional e mundial.”
Quando um doente precisa de um transplante e não tem dador compatível, os médicos consultam o registo nacional e mundial de dadores. Assim que surge a compatibilidade, o dador é chamado para a recolha. “E ela não é feita na espinal medula, mas pode ser, sim, nos ossos achatados da bacia ou numa veia periférica. O Dador só tem de se recostar na cama, a ver televisão, enquanto lhe são retiradas as células, durante não mais do que duas horas. Depois vai à sua vida normalmente”, afirma.
SINTOMAS
Os sintomas iniciais da leucemia são a fadiga, perda de peso, palidez, infecções e hemorragias.
ESPERANÇA
Até finais dos anos 60, a leucemia era considerada uma doença incurável. Hoje, a probabilidade de cura é de 85 por cento nas crianças e de 40 a 50 por cento nos adultos.
CAUSAS
Ainda não são conhecidas as causas da doença que, por ano, atinge 60 a 100 novas pessoas por cada milhão.
INÍCIO
A primeira transplantação de medula óssea foi conseguida com sucesso em 1956.
COMPATIBILIDADE
Apenas cerca de 25 por cento dos doentes consegue um dador compatível no seio familiar.
BANCO DE VIDA
Para mais informações pode consultar-se o ‘site’ da internet do Centro de Histocompatibilidade do Sul – www.chsul.pt - ou, por telefone, os três centros que existem no país, no norte, centro e sul.
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