Uma otite, acompanhada por dores fortes no ouvido direito da filha, de seis anos, levaram Maria ao Serviço de Urgência do Hospital do Montijo, sábado à tarde. A falta de dois médicos transferiram-nas logo para a unidade de saúde do Barreiro, onde a criança foi assistida horas depois.
O problema da falta de pediatras não é local, é nacional, alertam os próprios especialistas. Pior: actualmente fazem falta, pelo menos, mais um milhar destes especialistas. E o problema tende a agravar-se.
A denúncia do grave problema da falta de médicos especializados em saúde infantil é feita ao CM por Libério Ribeiro, presidente da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP). “O número de pediatras é claramente insuficiente para a população infantil que existe em Portugal. Segundo as normas da Comunidade Europeia devíamos ter o dobro do número de pediatras.”
Segundo o responsável, hoje em dia há cerca de 1300 pediatras em Portugal para um universo de crianças e adolescentes – dos zero aos 18 anos – que ascende aos 2,3 milhões de indivíduos.
ENVELHECIDOS
O especialista ressalva que a falta de pediatras em Portugal é um problema que, não sendo novo, tem vindo a agudizar-se sobremaneira nos últimos anos. Mais: tende a agravar-se ainda mais nos próximos tempos, com a chegada da reforma.
“Nos últimos anos houve uma diminuição excepcional de pediatras, apesar de termos vindo a alertar os políticos e a tutela para a não abertura de vagas hospitalares. E o grande problema é que a maioria – cerca de 70 por cento – dos pediatras hoje em dia tem 50 anos ou mais.” Quer dizer que, a partir dos 50 anos, os médicos estão dispensados de fazer Urgências nocturnas e, cinco anos mais tarde, aos 55, os clínicos não estão obrigados a fazer serviço na Urgência durante o dia.
Sem querer avaliar o desempenho dos seus pares, Libério Ribeiro reconhece que “não têm a formação especializada e há patologias próprias da idade, desde a infância à puberdade”. Contudo, em 80 por cento dos casos, as crianças portuguesas são assistidas por clínicos gerais.
A directora clínica do Hospital Distrital do Montijo, Fernanda Duarte, está consciente das limitações do pessoal clínico. “Não abrem vagas para o quadro e não fazem falta só pediatras, também outros especialistas. “Aquele serviço de Urgência é assegurado pela contratação de dois médicos, que fazem equipa com um cirurgião, um internista e um anestesista.
CRIANÇAS
Das cerca de 100 pessoas que no sábado acorreram entre as 08h00 e as 24h00 ao Serviço de Urgência do Hospital do Montijo, 26 eram crianças. Durante a madrugada foram ainda assistidas mais duas crianças, sempre por médicos que não são pediatras.
SEM RESPOSTA
O CM tentou obter um esclarecimento junto do Ministério da Saúde no sentido de saber porque não têm sido abertas vagas hospitalares para pediatras mas todas as tentativas de contacto foram infrutíferas.
TRANSFERÊNCIAS
O Hospital de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, conforme rede de referenciação vigente, recebe os casos que o Hospital do Montijo não tem possibilidade de tratar. Assim, confirma “uma maior afluência de doentes do foro de Pediatria, enviados pelo Hospital do Montijo, no sábado passado”.
ASSEGURAR EQUIPAS
A falta de pediatras leva os hospitais a organizarem as equipas conjuntamente para assegurarem as Urgências. É o caso dos hospitais D. Estefânia e S. Francisco Xavier, que asseguram à vez as Urgências.
CLÍNICO GERAL ASSISTIU CARLA
Os pais da menina que morreu no Hospital da Figueira da Foz depois de lhe ser diagnosticada amigdalite apresentaram ontem queixa no Ministério Público contra o médico que a assistiu na urgência pediátrica, que acusam de negligência. Carla Alexandra, de dez anos, foi observada pelo médico – de clínica geral – duas vezes nas 48 horas anteriores à morte. Ele diagnosticou-lhe amigdalite, medicou-a e enviou-a para casa, apesar de a criança já não conseguir andar aquando do segundo atendimento. O director clínico do Hospital, José Couceiro, disse que tudo será feito para esclarecer o caso. Os resultados da autópsia são divulgados dentro de um mês, disse o director do Instituto Nacional de Medicina Legal.
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