Entre cinco a dez por cento das cerca de 20 mil camas existentes nos hospitais do Estado estão ocupadas por idosos que são abandonados pelas famílias – durante dias, semanas ou meses – ou que, apesar de recuperados, não podem ir para casa por precisarem de pequenos cuidados.
Feitas as contas a estes dados avançados ao CM pelo Ministério da Saúde, significa que há entre 1000 a 2000 utentes nesta situação. Um problema que os responsáveis dos estabelecimentos dizem ser dramático a nível humano e também financeiro. É que o Estado gasta cerca de 210 euros por dia com cada doente acamado nos hospitais.
No Verão, Natal e Páscoa a situação agrava-se e muitos hospitais tornam-se em verdadeiros depósitos de familiares indesejados. É o que se passa no Hospital São José, em Lisboa. “Em Julho, como nas épocas de festa, começam a aparecer pessoas com familiares idosos. Dizem que eles tiveram tromboses e que precisam de ficar internados. Passam dias, semanas e não aparecem. Vamos ver a morada e, às vezes, são falsas. Uns voltam para os buscar, outros não”, contou ao CM Durão Maurício, o director clínico do Hospital São José, em Lisboa.
Nestes casos é pouco o que o hospital pode fazer. ”Tentamos colocar os doentes em lares ou instituições, mas a maior parte está cheia e é difícil”, explica. O São José tem actualmente três ou quatro doentes abandonados, mas em certos meses, cerca de 10 por cento das 500 camas estão ocupados por idosos que não têm para onde ir ou que a família não tem condições para os receber em casa por necessitarem de certos cuidados.“É dramático porque são pessoas com mais de 70 anos. Muitas são abandonadas e outras não precisam de estar internadas, mas necessitam de apoio e também não podem ir para casa”.
Com o mesmo drama lidam os médicos e enfermeiros do Hospital Garcia de Orta, em Almada. “Todos os dias, com maior impacto no Verão e Natal, vivem-se essas situações difíceis. Há muitos doentes que apesar de terem alta clínica permanecem no hospital porque as famílias não os querem, ou porque a não têm dinheiro para os lares”, explica Álvaro de Carvalho director do Hospital.
O cenário, confessa, é “desesperante”. As camas não chegam para todos e muitos dos doentes, com verdadeiros problemas de saúde, têm de ficar em macas. “A situação é muito complicada.Tentamos convencer as famílias, prometendo apoio domiciliário e ajudando a encontrar lares mais baratos”. Em alguns casos, as famílias cedem, mas noutros não. “Há reacções de verdadeira rejeição. Pessoas que dizem ter descontado impostos e que têm o direito de ter ali os familiares”, explica.
Também no Garcia de Orta, o número de idosos aumenta no Verão e Natal. O hospital fica de mãos atadas, porque ninguém tem coragem de mandar o idoso embora. “É desumano e não faz sentido o idoso ficar num local pesado como o hospital, sem humanização necessária. Além disso, estão debilitados, correndo riscos com a infecções hospitalares” explica Paras Álvaro de Carvalho a solução “está na criação de uma rede de cuidados continuados” que dê aos idosos a dignidade que merecem.
UM ANO NO CURRY CABRAL
Durante um ano, uma idosa, abastada, teve de viver no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. O director do estabelecimento conta que só há pouco tempo a situação foi resolvida. “Os herdeiros não a queriam, antes de resolvida a herança. A situação só se resolveu porque o tribunal decidiu que a senhora ia para um lar em Torres Vedras”. Para o responsável, este “é um problema real que tem de ser resolvido com unidades de rectaguarda”. O drama começa agora a atingir não só idosos, mas também imigrantes, especialmente do Leste Europeu. O Hospital Santa Maria em Lisboa, serviu de casa a dois imigrantes durante meses:”Tiveram acidentes de trabalho e não tinham cá família, nem morada”. explica Correia da Cunha director clínico do hospital.
PROTOCOLO COM A MISERICÓRDIA
Os doentes internados nos hospitais sem necessidade poderão ser transferidos para as unidades das misericórdias. Fonte do Ministério da Saúde garantiu ao CM que o Governo irá aprovar um diploma que permite realizar protocolos com as misericórdias.
O objectivo é que certos doentes sejam transferidos para estas instituições, mas com certas regras. “O hospital tem de ter responsabilidade financeira. Caso contrário, enviam todos os doentes que não querem”, diz a fonte.
Em causa estão três tipos de utentes, que ao todo, ocupam entre cinco a dez por cento das camas dos hospitais: uns são idosos abandonados, outros doentes em que as famílias não têm condições de os receber e outros pessoas já recuperadas que precisam de cuidados que podem ser dados fora do hospital.
O diploma permitirá libertar camas dos hospitais onde cada doente custa 210 euros. Nas misericórdias os custos diminuem porque os número de profissionais e equipamento é menor.
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