Herdou do seu pai a arte e o saber de uma profissão esquecida no tempo e em vias de extinção. Há mais de 15 anos que calcorreia as ruas de Braga empurrando a sua pequena oficina ambulante – um engenho de amolar tesouras e consertar guarda-chuvas, que invariavelmente ‘estaciona’ no Campo da Vinha.
Há cerca de 40 anos, altura em que o seu pai exercia o ofício, era ali mesmo que se concentravam mais de 30 amoladores, mas hoje Alfredo da Silva Peixoto, de 47 anos, é um dos dois últimos profissionais da região.
Porém, ao contrário do companheiro de trabalho, desistiu de ser ambulante e optou por um posto fixo, onde espera pelo serviço e “de vez em quando toca uma gaitada”, para atrair a freguesia, pois o negócio já conheceu dias melhores.
“Vai dando para pagar a sopa. Mas já não é o que era dantes. Agora há guarda-chuvas à venda por um euro e meio e isso é praticamente o mesmo que eu levo pelo conserto, porque as peças são muito caras”, lamenta o amolador, sublinhando que “o que vale são os guarda-chuvas caros, sobretudo os automáticos, que gastam peças das melhores, algumas difíceis de arranjar”.
A arte não lhe toma muito tempo, já que normalmente bastam 15 minutos para arranjar um guarda-chuva estragado, mas, ainda assim, Alfredo Peixoto sempre gosta de lembrar que “é uma coisa que não se faz com duas tretas”.
Embora seja pai de três filhos, o amolador garante que não tem a quem ensinar a arte, pois “todos estudaram e escolheram outras vidas”.
AS COSTUREIRAS
No que toca a afiar tesouras, o negócio é um pouco mais promissor, mas ainda assim não deixa de ser uma actividade sazonal, à semelhança do que se passa com o conserto de guarda-chuvas.
“Nesta altura do ano, há muitos jardineiros que trazem tesouras da poda para afiar. Mas as costureiras são as minhas melhores clientes. Mandam afiar a tesoura de cortar tecido pelo menos uma vez por ano, pois sabem que quando é amolada por mim, dura pelo menos uns seis meses”, comenta, enquanto ordena uma infinidade de ferramentas no seu engenho ambulante.
Orgulhoso, descreve o modo de funcionamento da sua pequena oficina de trabalho, sublinhando que se trata de uma armação em ferro, a que estão acopladas duas caixas de madeira (uma para guardar as ferramentas e outra para armazenar material) e uma bigorna, e que sustenta uma roda na parte inferior.
A roda de ferro serve para deslocar o engenho, como se se tratasse de um carrinho de mão, ao passo que a outra, um aro de bicicleta, é onde trabalha a correia, que tocada a pedal, faz rodar a pedra molar.
“Esta oficina é a minha vida. Já pertencia ao meu pai e eu depois fiz uns melhoramentos… Aqui há anos, um turista espanhol queria comprar-ma para um museu. Ofereceu-me mais de mil euros, mas eu não a vendi, disse que não era minha”, contou.
O amolador sustenta mesmo que “não há outra roda no País” como a sua, pois esta tem a particularidade de aproveitar engrenagens das antigas carroças dos cavalos.
Por isso, pinta-a regularmente e estima-a com todo o carinho, tendo chegado a colocar no interior de uma caixa uma pequena ferradura para a guardar do azar e trazer melhores dias ao negócio.
“É que no Inverno ainda me vou aguentando, mas no Verão, ninguém traz guarda-chuvas, por isso não tenho outro remédio senão trabalhar na construção civil“, lamenta Alfredo Peixoto.
UMA VIDA AO SOM DO REALEJO
Hoje em dia, e após mais de 15 anos de actividade, Alfredo Peixoto já não utiliza com tanta frequência o inconfundível toque do realejo, que tradicionalmente os amoladores fazem soar para atrair a clientela. Ainda assim, de vez em quando não resiste e vai buscar o pequeno instrumento de sopro, que pertenceu ao seu pai.
A primeira nota, a característica melodia, grata ao ouvido, espalha-se pela cidade, recordando aos minhotos memórias de infância e anunciando o tempo frio e a chuva miudinha.
Este invulgar som é produzido por um pequeno instrumento de sopro triangular, com seis tubos, que tudo indica ter origem grega, e cuja tradição está intimamente ligada às culturas do Minho e da Galiza.
BILHETE DE IDENTIDADE
Os amoladores encontram--se actualmente em vias de extinção, calculando-se mesmo que o seu número total não ultrapasse a meia centena em todo o país. Trata-se de uma ‘profissão liberal’, cujas origens se perdem no tempo e que é habitualmente transferida de pai para filho.
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