A relação entre o motorista e “a doutora” era apenas “profissional”, diz João Paulo ao tribunal. E o assassino de Paulo Cruz só não explica a frase “gostava de lhe dar um beijinho”, interceptada a 29 de Janeiro pela Judiciária a Maria das Dores. Viúva há nove dias. A mesma escuta telefónica em que a mulher que ordenou o crime pergunta ao carrasco: “Já leu o Correio da Manhã? Isto é lindo!!” – no dia em que noticiámos a forma como o marido foi assassinado.
Com o crânio esmagado à pancada.
O brasileiro juntou-se a um amigo cabo-verdiano, Paulo Horta, e com uma marreta das obras executaram o empresário à traição. A 20 de Janeiro Paulo Cruz foi atraído pela mulher ao 3.º direito do número 11 da Avenida António Augusto de Aguiar, Lisboa – e Horta lembra-se de o ver “a arrastar-se pelo chão. Aquele senhor sofreu”.
Os dois homicidas já confessaram o crime, insistem em empurrar um para o outro as pancadas fatais – e para João Paulo é indiferente. “Com marretadas, sem marretadas, a culpa é a mesma – eu assumo a minha responsabilidade”. Mas para o tribunal não é indiferente quem atacou primeiro o empresário e, já na próxima sessão, vão estar frente-a-frente.
A viúva continua em silêncio e a sessão de ontem ficou marcada pelo registo de chamadas e escutas telefónicas. O colectivo de juízes ficou a saber que nove dias depois do crime Maria das Dores se passeava por Torres Vedras acompanhada por “um senhor do SEF” – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras – que até lhe estava a conduzir o carro (ver caixa ao lado). Antes de a deixar nas mãos do motorista João Paulo.
A chamada da viúva para o brasileiro é interceptada às 15h11 de 29 de Janeiro: “Estou a telefonar do senhor dos seguros”, diz Maria das Dores. “E eu quero estar consigo”, responde-lhe João Paulo. “Os sócios [da Campotec, empresa do marido] só me atendem na sexta-feira, vou lá impor-lhes a minha posição”, diz ela. E pergunta-lhe: “Já leu o CM de hoje? Isto é lindo! Isto só é péssimo para o Duartinho [o filho com seis anos], ele pensa que o pai morreu porque estava doente... Estou aqui com o senhor do SEF, que me está a guiar o carro (...), mas você diga--me onde está, quero beber um café consigo”. E o brasileiro, que está em casa, diz-lhe para “dispensar o homem”. A viúva termina: “Gostava de lhe dar um beijinho”.
Na facturação detalhada do telemóvel de João Paulo a PJ concluiu que, já na madrugada do crime, 19 de Janeiro, este recebeu pelo menos sete chamadas do mesmo número – que o motorista brasileiro confirma serem “da doutora”. Paulo Cruz deveria ter morrido nessa noite, quando o brasileiro e Paulo Horta montaram uma longa espera à porta de sua casa.
Mas o empresário foi rápido a entrar no condomínio e o crime ficou para o dia seguinte. Maria das Dores já propunha o homicício “há quatro meses”, diz João Paulo. E quando regressou de Nova Iorque com o marido, no início de Janeiro, “ofereceu 150 mil euros” para o matarem.
O "SENHOR DO SEF" AO VOLANTE
O juiz Carlos Alexandre preside ao julgamento e ouviu incrédulo a transcrição de uma escuta telefónica, feita a 29 de Janeiro, quando Maria das Dores diz ao brasileiro que lhe matou o marido estar “com um senhor do SEF” que até lhe estaria a conduzir o carro. “Eu começo a querer saber quem é o senhor do SEF”, avisou o juiz. Só que a viúva recusa-se para já a falar em tribunal e João Paulo, que foi motorista da família, foi o único interrogado na sessão de ontem. Contou que conheceu os Pereira da Cruz “através de um amigo”, o famoso cabeleireiro Duarte Menezes, para quem o brasileiro “já tinha feito uns trabalhos em casa”. Por exemplo? “Passear o cão”. E para “a doutora” era como “um braço direito, ajudava-a nas compras” e sempre pensou que ela o “tivesse como um filho”.
O TELEMÓVEL 'MISTERIOSO'
A viúva contratou o crime ao brasileiro João Paulo a partir de um telemóvel com cartão descartável, da TMN, mas deitou-o fora ainda na tarde de 20 de Janeiro. Só que, antes disso, o 112 foi accionado daquele número, o mesmo como foi feita uma chamada para o filho David, nos Estados Unidos, conforme o CM já adiantou. Ainda assim Maria das Dores negou à PJ que aquele telemóvel fosse seu – mas essa tese foi ontem desmontada por Francisco Dias Antunes, advogado da família da vítima. Na madrugada anterior ao crime João Paulo recebeu, pelo menos, sete chamadas daquele número – e o motorista brasileiro não tem dúvidas: nesse período só falou ao telefone “com Maria das Dores”. Os telefonemas continuaram ao longo do dia seguinte, sábado, com a viúva a ligar sempre que o homicida lhe dava “um toque”. Já Paulo Cruz estava prestes a entrar no apartamento onde morreu, depois das 17h00, quando o telefonema da mulher para o brasileiro demorou sete segundos. Depois do crime, ele ligou-lhe de volta: “Já está!”
VIÚVA COR-DE-ROSA
Maria das Dores continua por esclarecer o tribunal da sua inocência, mas apresenta-se na 6.ª Vara da Boa-Hora impecavelmente vestida: cabelo arranjado e, ontem, manteve o preto como cor base mas cobriu-se com uma écharpe cor-de-rosa. Na carteira levava água e uma fotografia do filho Duarte, sete anos, à guarda dos avós.
DAVID SEM BENGALA
Depois de se ter apresentado, há uma semana, de bengala (embora sem coxear), David Mota, filho do primeiro casamento de Maria das Dores, regressou ontem à Boa-Hora já bom da perna. E voltou a posar para as revistas cor-de-rosa.
A PRÓXIMA SESSÃO
O frente-a-frente dos dois homicidas é o momento esperado da próxima sessão, numa acareação marcada para as 14h30 da próxima quarta-feira.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.