Deitada numa cama do hospital de Santo Espírito, em Angra do Heroísmo, a médica Helena Lima não cala a revolta. “Só oiço promessas de todos os lados, mas ainda ninguém assumiu responsabilidades pelo acidente de que fui vítima”. A falta de respostas levam-na a equacionar processar o Estado, uma vez que ainda não é claro qual a indemnização a que terá direito.
No dia 15 de Novembro, a médica ginecologista e obstetra fazia parte da equipa que se deslocou da Ilha Terceira para São Jorge para evacuar uma grávida que entrou em trabalho de parto. Quando a senhora estava a ser transferida da maca do centro de saúde das Velas para a do helicóptero EH101, da Força Aérea Portuguesa, o aparelho subiu repentinamente a uma altura de dois metros e caiu logo de seguida, estatelando-se na pista.
Os ocupantes foram projectados contra o tecto e as paredes. Cinco pessoas ficaram feridas – dois bombeiros, duas enfermeiras e a médica Helena Lima. O diagnóstico da médica é grave – a fractura com esmagamento da vértebra L1 vai obrigá-la a estar de baixa pelo menos um ano e pode ficar com os movimentos comprometidos para o resto da vida.
Aos 52 anos, a médica – que faz evacuações aéreas desde os anos 80 – pode ter de deixar de o serviço de obstetrícia: “Durante os partos tenho de adoptar posições e movimentos que ainda não sei se conseguirei voltar a desempenhar”, contou ao CM. Até Fevereiro, vai ter de usar um colete que só lhe permite estar de pé ou deitada. Só nessa altura fará um exame para saber se pode começar a tentar sentar-se.
A segunda vítima grave é a enfermeira de Velas, que também sofreu lesões na coluna. A sua lesão será menos complicada – “fracturou a vértebra L2. Não corre tantos riscos como eu, mas vai ter de ficar de baixa pelo menos seis meses”, diz Helena Lima. A enfermeira foi transferida para São Jorge, onde inicia a recuperação.
Os profissionais do hospital de Angra do Heroísmo que fazem evacuações aéreas têm um seguro, acordado com uma companhia privada, que prevê indemnizações em caso de morte ou invalidez permanente. No entanto, o seguro não é claro em relação a casos como o da médica e o da enfermeira feridas, que terão de enfrentar longos períodos de baixa.
A situação foi confirmada ao CM por fonte do gabinete do Secretário dos Assuntos Sociais do Governo Regional dos Açores, Domingos Cunha, que está a acompanhar o caso – e aguarda o resu ltado do inquérito da Força Aérea para apurar as causas do acidente antes de tomar qualquer iniciativa.
AFASTADA FALHA HUMANA
A Força Aérea ainda não concluiu o inquérito aberto ao acidente com o EH101 Merlin que fez a evacuação entre as Ilhas Terceira e São Jorge. De acordo com as Relações Públicas da FAP “já se chegou à conclusão de que não houve falha humana”. Helena Lima contou ao CM que o piloto lhe disse, durante a viagem de regresso entre São Jorge e a Terceira, que o acidente tinha sido motivado “pela entrada intempestiva em funcionamento do piloto automático”, que fez o helicóptero subir contra a vontade dos pilotos.
A médica já foi ouvida “por um tenente-coronel da Força Aérea”, mas desconfia do método utilizado: “Pediu para ficar a sós comigo e passou a conversa a tomar notas. Mas não me mostrou as declarações que fiz nem mas deu para assinar”.
ORDENADOS GARANTIDOS
Olga Freitas, presidente do Conselho de Administração do Hospital de Santo Espírito, garantiu ao CM que Helena Lima “vai receber o ordenado por inteiro enquanto estiver internada e terá direito a todos os tratamentos necessários à sua recuperação”. Diz ainda que o hospital já entregou o caso a um advogado, que está a “esclarecer as cláusulas do contrato do seguro, para sabermos se a médica tem direito a ser compensada pelas horas extraordinárias e serviços especiais – como é o caso das evacuações aéreas – que vai deixar de fazer por estar de baixa”. O processo será, no entanto, demorado, uma vez que a sua conclusão está dependente do inquérito aberto pela Força Aérea.
PRONTA A VOLTAR
Helena Lima faz evacuações desde os anos 80 e estava habituada às missões. A médica diz que, se estiver fisicamente apta, vai voltar às evacuações: “Só sei trabalhar a 200%. Não seria capaz de recusar assistência a uma doente”.
ALTERAÇÃO
O acidente aconteceu numa altura em que o hospital estava a negociar a alteração do seguro que cobre as evacuações. Um dos objectivos é clarificar as situações em que haja ferimentos graves, mas sem incapacidade total ou morte – como no acordo actual.
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