Um médico de clínica geral do Centro de Saúde de Elvas, acusado por assédio sexual às suas utentes, foi obrigado a aposentar-se em Dezembro por decisão do antigo ministro da Saúde, Luís Filipe Pereira.
As denúncias partiram de duas mulheres que, através do Livro Amarelo, contaram alegadas atitudes provocatórias durante as consultas do clínico de 51 anos, casado e pai de dois jovens. Segundo o CM apurou, o clínico mandava despir as doentes, sobretudo as mais novas, e apalpava-as quando estavam na marquesa até ficar excitado.
Após as denúncias, a Inspecção-Geral de Saúde passou a averiguar o caso e na altura foi aplicada uma pena de 90 dias ao médico, que trabalha no centro desde 1979. Segundo o director daquela unidade de saúde, Francisco Galvão, antes do término da pena “recebeu a conclusão da investigação e foi aposentado compulsivamente”.
Para alguns dos doentes deste clínico, que chegou a ser director do Centro de Saúde de Elvas e coordenador da Sub-Região de Saúde de Portalegre, as notícias não são novidade. “Toda a gente comentava que o médico de família gostava de apalpar as mulheres”, conta um utente dele. “Quando atendia idosas as consultas eram rápidas, mas quando eram mulheres mais novas tinha que esperar horas pela minha vez.”
"AUSCULTAVA COM AS MÃOS"
Uma doente do referido médico, que preferiu o anonimato, contou que durante uma consulta teve que abandonar a marquesa depois de ter notado que o clínico estava excitado e que tentava assediá-la.
“Sofro de bronquite e ele mandou-me tirar a roupa”, conta. “Em vez de auscultar-se o peito com o aparelho começou a fazê-lo com as mãos. Depois começou a aproximar-se de mim e notava-se pela bata que estava excitado. Levantei-me da marquesa e abandonei o consultório. Nas consultas seguintes passei a ir acompanhada e nunca mais tive problemas”.
Por sua vez, Célia Rodrigues, um dos 1800 utentes a cargo do médico, não tem razão de queixa. “Tive um cancro e foi ele que o descobriu. O que lhe estão a fazer é um crime.”
RECURSO
O CM tentou durante a tarde de ontem contactar com o clínico sem sucesso. No entanto, o nosso jornal apurou que o médico, que ficou proibido de exercer a sua profissão em instituições do Serviço Nacional de Saúde desde o passado dia 18 de Dezembro, deverá apresentar um recurso desta decisão.
APOIO
Apesar dos casos de assédio sexual a mulheres durante as consultas no Centro de Saúde de Elvas, muitos utentes dizem ter pena do clínico. “Esta é uma situação muito grave, mas durante todos estes anos sempre foi bom médico e era bastante atencioso”, referiu ontem um dos seus utentes. “Quando precisávamos de alguma coisa estava sempre disponível para ajudar.”
QUEIXAS
O presidente do Conselho Disciplinar da Ordem dos Médicos, Francisco Freire de Andrade, referiu ontem à Agência Lusa que não tinha conhecimento deste caso. Contudo, O responsável confirmou que a ordem está a analisar outras quatro queixas de utentes que acusam clínicos pelos mesmos motivos.
SOLUÇÃO
O aumento dos casos de assédio sexual de médicos a utentes nos serviços de saúde, nomeadamente em hospitais e centros de saúde, já levou algumas organizações clínicas, sobretudo nos Estados Unidos e em Inglaterra, a defenderem a presença de um terceiro elemento durante as consultas.
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