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Correio da Manhã

Portugal
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MENINA DE TRÊS ANOS FEITA REFÉM DURANTE ASSALTO

A capacidade de reagir desapareceu no momento em que viu a filha de três anos com uma caçadeira apontada à cabeça. “Levem tudo, mas não façam mal à menina”, pediu.
21 de Julho de 2004 às 00:00
A partir daí, e nos minutos que se seguiram, o dono da loja de telemóveis limitou-se a ver a actuação dos três homens que, anteontem à tarde, invadiram o seu local de trabalho, num centro comercial de Fetais, perto de Camarate. Ao todo, entre telefones e dinheiro, o prejuízo ronda os cinco mil euros, mas o estrago mais grave não tem preço. “Ela ficou muito assustada, mal dormiu.”
Os assaltantes actuaram com precisão cirúrgica. Durante o dia estudaram o movimento, viram quem estava e quem não estava. Quase sempre, era a mulher do proprietário. Ao final da tarde, pelas 19h30, decidiram actuar. Pararam o carro à porta do Centro Comercial Palmares, em Fetais, irromperam pela loja de armas em punho e fecharam a porta. “Não te mexas que a tua filha vai à vida”, avisaram.
O proprietário da loja, que não quis ser identificado, ainda conseguiu alertar a empresa de segurança, mas sem resultado. Depois, viu a caçadeira na mão de um dos assaltantes e a sua filha com a boca dos canos encostada à cabeça. “Não fiz mais nada. É a minha filha.”
Sentado atrás do balcão, viu os três homens levarem 14 telemóveis que estavam na montra, mais 26 que estavam a arranjar, mais a mala da mulher, com dinheiro, mais as chaves do carro e as da casa, mais os documentos. E a filha sempre com a caçadeira apontada.
Um dos assaltantes chegou mesmo a agredir a criança. “Deu-lhe duas chapadas”, contou o dono, ele próprio agredido à coronhada. Os assaltantes fugiram num Honda Civic furtado que as autoridades recuperaram, mais tarde, na zona da Apelação, Sacavém. A investigação está a cargo da Polícia Judiciária.
TELEMÓVEL ROUBADO DE VOLTA
O rapaz chegou pelas 16h00 de ontem, exactamente 21 horas depois do assalto. Queria carregar o telemóvel. “Não posso, fui assaltado”, respondeu o dono da loja. “Então dá para pôr em português?”. O homem pega no telefone, abre-o e sorri. “Este telefone é o da minha mulher, foi roubado aqui, ontem. Onde é que o arranjou?’”.
O rapaz encolhe-se, diz que o comprou por 75 euros na Apelação (onde foi recuperado o carro usado no assalto) e acaba por sair de mãos a abanar. O dono da loja volta a sorrir. “Isto só dá para ir. Já andam a vender as minhas coisas.” É uma das marcas da pior noite da vida de três pessoas. O carro estacionado à porta, com os pneus em baixo, é outra. “Vazei os pneus porque eles também levaram as chaves do carro. Assim, não o levam.” Os olhos vermelhos são a terceira marca. “Passei a noite aqui sentado, na loja. Também levaram a chave daqui”, repete. A ausência da mulher e da filha é a última, mas talvez seja a mais forte. “A partir de hoje, trabalho sozinho. Elas nunca mais cá voltam”
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