Em Portugal ainda se morre de fome. Os últimos dados estatísticos oficiais indicam que, em 2002, faleceram por desnutrição 75 indivíduos. A grande maioria eram pessoas com mais de 65 anos.
Dados do INE – Instituto Nacional de Estatística –, referem que morreram por desnutrição cinco pessoas (quatro homens e uma mulher) com idades dos 35 aos 49 anos, enquanto 12 indivíduos tinham idades dos 65 aos 74 anos e 58 pessoas tinham mais de 75 anos.
Uma das explicações para a maioria destas mortes por desnutrição é dada ao CM por Fernando Carvalho, médico nutricionista: “Existem muitos idosos que vivem isolados, não têm um suporte familiar, vivem em aldeias ou nos grandes centros urbanos e não têm apoio domiciliário nem condições para cuidarem de si próprios, têm dificuldades em se movimentar e muitas vezes doenças associadas (diabetes e outros problemas) que conduzem a um processo de desnutrição contínuo que pode culminar na morte”, afirma.
Quanto às cinco mortes de indivíduos com menos de 50 anos, o especialista atribui a causa de morte à fome, ou seja à falta de ingestão de alimentos. “Até esperava que esse número fosse mais elevado, dado as graves situações de pobreza do País”, admite Fernando Carvalho.
Nestes casos, os sem-abrigo são quem se debate com a falta de alimentos. “Vão procurando comida nos caixotes de lixo ou recebem de vez em quando algum alimento. Mas acabam, ao fim de algum tempo, por ter falência de órgãos vitais e morrem”. Lembra ainda os casos de morte que surgem por desnutrição devido a doença grave, que impede a pessoa de se alimentar. É o caso de doentes que sofrem de cancro do esófago e a anorexia nervosa.
Rui Calado, da Direcção-Geral de Saúde, relativizou o número de óbitos por desnutrição (75) comparando-o com a média de óbitos por ano em Portugal, 100 mil. E fez questão de notar “que não se podem tirar conclusões sobre estas mortes e as condições de pobreza sem estudar os casos”.
IMIGRANTE NÃO AGUENTOU
Vasyl Lazarenko, ucraniano de 51 anos, morreu de fome, em Agosto. Foi encontrado por companheiros no exterior da barraca onde vivia, na aldeia da Vermelha, no Cadaval.
Há três anos deixou o seu país, a Ucrânia, para tentar melhor vida, como milhares de imigrantes. Durante os três primeiros anos teve emprego mas acabou por o perder. Vivia da mendicidade e dos almoços que a Santa Casa da Misericórdia do Cadaval lhe dava. No entanto, tinha de palmilhar dez quilómetros, na ida e volta.
Mas este não é caso único. Pavlo Vivsyaryuc, 41 anos, é outro ucraniano que sobrevive na aldeia da Vermelha. Alimenta-se com aquilo que lhe dão, e de pequenos biscates. Nas mesmas condições de miséria vive ainda um português.
FALÊNCIA DOS ÓRGÃOS
Mais depressa se morre por desidratação (falta de ingestão de água) que de inanição (falta de alimento). A morte por uma destas causas varia de indivíduo para indivíduo, consoante a idade e a sua condição física e as reservas que têm. Neste caso, os obesos estão em vantagem, segundo o nutricionista Fernando Carvalho, porque “têm mais reservas”.
O especialista lembra os casos (raros) de bebés que sobreviveram muitos dias soterrados após um sismo e das pessoas que fazem greve de fome. “Se estiver em bom estado nutricional ainda vive ao fim de um mês, mas os órgãos começam a ter problemas e podem entrar em falência”, disse.
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