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Correio da Manhã

Portugal
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Morte abala travestis

É sexta-feira, pouco passa das 23h00. As boîtes e casas de alterne no Conde Redondo, Lisboa, começam a receber clientes. Nas ruas, travestis e prostitutas escolhem um ponto, dão os últimos retoques no visual. Os carros começam a rondar.
2 de Março de 2008 às 10:00
A maior parte dos travestis que encontramos não são jovens, mas sim pessoas vividas de 40, 50 anos, e muitas histórias para contar. Em alguns são visíveis os implantes de silicone, os olhos rasgados por demasiada pintura, as roupas provocantes, ostentando visíveis traços de masculinidade nos rostos – marcados por muitas noites, muitos anos na ‘vida’. Na maioria não se intimidam com a presença de jornalistas, respondendo às perguntas, mas rejeitam as câmaras, não querem ser identificados por vizinhos e familiares.
A noite está mais sombria depois da morte de ‘Luna’, um travesti brasileiro de cerca de 40 anos, habitual frequentador da área, encontrado abandonado no contentor de lixo de uma empresa em Loures. A polícia ainda não conseguiu precisar as causas da morte, mas o corpo apresentava sinais de agressão. Na esquina em que costumava estar, na rua Ferreira Lapa com o Conde Redondo, o silêncio impera.
As suas colegas lembram-na como uma pessoa de bem, que não arranjava problemas nem roubava. Mas a custo falam de um lado mais negro de ‘Luna’ – toxicodependente, ávida consumidora de cocaína. Esse vício terá ditado a sua morte. Dizem-nos que poderá ter sido um ajuste de contas com alguém que lhe vendia droga, “alguma história com traficantes”.
‘Da Silva’ tem 48 anos, mas só está na ‘vida’ há quatro. Conhecia ‘Luna’ com quem se cruzava diariamente. “A ‘Luna’ já trabalhava cá há muitos anos. Dava-se bem com toda a gente, mas drogava-se. Já não a via há quatro dias, até fui perguntar ao ‘hotel’ (perto da esquina onde ‘atacava’) mas não sabiam dela. A mim disse que ia para o Brasil, deixar a ‘vida’. A família tinha-lhe pago um bilhete”, conta. “Ela, por causa da cocaína, metia-se no carro com dois ou três, fazia tudo para ter dinheiro para a droga”, solta. ‘Da Silva’ diz não ter medo, mas prefere os clientes habituais. “Não vou com gente nova, ainda há seis meses fui assaltada, meteram-me num carro, eram dois homens, encostaram-me uma faca ao pescoço e tiraram-me tudo, deixaram-me na rua só com o sutiã e a saia. Já soube que os apanharam. Estão presos”, fala satisfeita. Apesar de não ter medo, lamenta aquilo com que tem de viver. “É só merda que vem aqui, mandam pedras, chamam nomes, assaltam-nos”, desabafa.
Um pouco mais à frente está ‘Maria’. Prostitui-se há vinte anos e conta-nos que ‘Luna’ já trabalhava na zona há uns sete ou oito. “Conhecíamo-nos razoavelmente bem, ela ouvia mal, mas só hoje me contaram que andava na droga. Queixava-se de que o negócio não ia bem. Fiquei surpreendida quando soube que tinha sido morta”, narra-nos.
‘Margarete’, de 46 anos, deixa-se fotografar, voltou de França – onde vive há quinze anos – há uns dias. Conta-nos que o negócio vai mal, “mas também o País é pequeno”, suspira. “Em França ganho muito mais, mas é mais perigoso. Já fui agredida várias vezes, aqui não esperava que acontecesse uma coisa destas”, diz enquanto mostra as marcas no braço. Apesar de mais alerta, acha que Portugal é seguro, diz não ter medo, e não se sente discriminada.
'LUNA' JÁ ESTAVA A MUDAR DE SEXO
No Conde Redondo era conhecida por ‘Luna’, mais um travesti que se prostituía. Antes de aparecer morta num aterro de lixo na Estrada Nacional 250, perto de Loures, ‘Luna’ perseguia o sonho de ser mulher. E foi uma transexual da Opus Gay que, há ano e meio, a levou ao Hospital de Santa Maria. “Ela fazia tratamentos hormonais, já tinha peito, e ia em breve fazer a operação para mudar de sexo”, disse António Serzedelo, presidente da Opus Gay. No entanto, ‘Luna’ era dependente de cocaína e prostituía-se para sustentar o vício. “Terá sido levada de carro por um cliente”, opinou António Serzedelo.
PORMENORES
CONDE REDONDO
Moradores têm de conviver diariamente com a prostituição quer masculina quer feminina. Boîtes e casas de alterne populam a zona.
CLIENTELA VARIADA
A maior parte dos clientes tem cerca de 40/50 anos, mas há de todas as idades – contam as prostitutas. Os preços vão dos 20 euros por “beijinhos” (sexo oral) aos 40, com tudo incluído.
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