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Murteira é agora aldeia-fantasma

Em Murteira, os gritos das crianças de regresso a casa depois das aulas não se ouviram ontem. As lojas estão fechadas, não há água, e a igreja a poucos metros dali, já em Ribeira Brava, não abre as portas desde sábado. É uma freguesia-fantasma onde o silêncio só é quebrado pelo som das gruas e das orientações das autoridades, que não deixam avançar. "É perigoso", asseguram.

23 de fevereiro de 2010 às 00:30

Os cafés e restaurantes só têm lama, e os clientes habituais já não entram. Entretêm-se a ver as estradas cortadas que deixaram freguesias como Murteira isoladas.

'O morro vai cair e as pessoas até têm medo de estar em sítios fechados', diz Bruno Pereira, de 70 anos. Uma das estradas foi engolida ontem de manhã e a torrente ainda assusta. As lembranças de sábado voltam à memória.

Jaime Gonçalves está sozinho desde o dia da tempestade e olha para o céu mal começam a cair as primeiras gotas de chuva. 'A minha mulher e a minha filha fugiram de casa', diz com um sorriso tímido nos lábios. 'Têm medo e sentem--se mais seguras longe. E eu como as quero a salvo não digo nada.' Enquanto isso, a angústia invade a casa de Mariano Fernandes, que já não tem água para alimentar e lavar a filha Mariana, e por isso chamou os bombeiros, que tentam fazer chegar a água através de baldes. 'É para a minha filhota', diz com a voz cansada.

PONTA DO SOL EVACUADA POR SUBIDA DA RIBEIRA

O presidente da câmara de Ponta do Sol mandou evacuar a zona mais baixa da localidade, num total de mil pessoas, por segurança e não risco real. Algumas informações davam conta da possibilidade de derrocada em algumas zonas do concelho, adiantando que um helicóptero está a fazer a avaliação do estado das ribeiras que voltaram a subir com a chuva.

ROSTOS E RELATOS DA TRAGÉDIA

Os depoimentos de dor, tristeza e pânico provocados pelo dilúvio de sábado continuam a marcar os dias na ilha da Madeira.

'NÃO CONSIGO OLHAR PARA AS PESSOAS'

Ana Sousa, habitante do concelho de Santa Cruz, vive marcada pela imagem das viaturas a serem arrastadas pela lama. 'Não consigo olhar para a cara das pessoas que viram a lama entrar em casa e ficaram com o rés-do-chão limpo', disse.

'AINDA NÃO ESTOU REFEITA DO CHOQUE'

Liliana Ferreira, moradora nolugar de Eiras, no concelho de Santa Cruz, reconheceu ainda não estar 'refeita do pesadelo'. Ao mínimo som da chuva a preocupação aumenta. Pensei que a força da água vinha outra vez aí', desabafou.

'PASSARAM PEDRAS POR CIMA DE MIM'

'Vi pedras a passarem por cima, vieram postes, fios, rebentou tudo. Nunca vi nada semelhante.' Policarpo Capelo, de 30 anos, escapou da morte por pouco. Ele, a mulher e a filha. Perdeu a casa em Vereda da Cova, em São Roque.

'COMÉRCIO FICOU MUITO AFECTADO'

'Há prejuízos enormes. Esta zona tinha levado há pouco novas infra--estruturas, como canalizações, e agora rebentou tudo. O comércio também fica seriamente afectado', afirma Alcino Ferreira, presidente da Junta de Freguesia da Sé.

'SAPATARIA ABERTA HÁ UMA SEMANA'

'A sapataria tinha aberto a semana passada. A cave ficou inundada, tinha lá 3500 pares de sapatos. Pensei que o meu cunhado e a minha irmã tivessem sido arrastados para lá. Mas não. Estão bem', relata Duarte Monteiro, 41 anos, comerciante.

'A ÁGUA CHEGOU AOS JOELHOS E FUGI'

'O restaurante é numa cave que ficou inundada. Assim que a água me chegou aos joelhos não hesitei, fugi. Os bombeiros têm estado agora a bombear a água. Espero conseguir abrir daqui a um mês', conta Agostinho Ferreira, 54 anos. 

'PEÇAS IMPORTANTES ESTÃO EM LISBOA'

'Museu do Açúcar está com água a uma altura de três metros. Felizmente as peças mais importantes encontram-se a salvo numa exposição que está patente no Palácio da Ajuda, em Lisboa', revelou Francisco Clode, da Cultura Madeirense.

DISCURSO DIRECTO

'NÃO REPETIR OS ERROS', Raimundo Quintal, Geógrafo, Antigo Vereador no Funchal

Correio da Manhã – Quais os maiores erros urbanísticos cometidos que levaram ao agravar da tragédia?

Raimundo Quintal – Maioria de mortos ocorreu na parte alta do Funchal e não na baixa. A freguesia de Santo António foi muito atingida, sobretudo em zonas sem ordenamento, com origem clandestina, que sofreram com o galgar das ribeiras e com fortíssimas escorrências de entulho.

– Como deve ser feita a reconstrução?

– Segundo o modelo de recuperação do terramoto dos Açores de 1981. Em que não sejam cometidos os mesmos erros e com apertada fiscalização dos dinheiros pelo Tribunal de Contas.

BENTO XVI DESOLADO COM DRAMA

O Papa Bento XVI mostrou-se desolado face ao temporal que levou a morte e a destruição à ilha da Madeira. Na sua mensagem de pesar ao bispo do Funchal, D. António Carrilho, o Santo Padre refere estar 'consternado com as graves consequências dos recentes aluviões na ilha da Madeira, que provocaram dezenas de mortos e enormes danos materiais aos seus habitantes'. 'O Sumo Pontífice deseja assegurar a toda a comunidade local a sua solicitude', acrescenta ainda a mensagem. 'Bento XVI invoca reconfortantes graças divinas em penhor das quais lhes concede paterna Bênção Apostólica', assinala o mesmo texto.

MÁRIO SOARES: LAMENTO

O antigo Presidente da República Mário Soares lamentou a tragédia que se abateu sobre a Madeira, apelando à solidariedade de todos para com o povo da ilha 

VENEZUELA: TV ASSOCIA-SE

O canal Globovisión está a divulgar os contactos telefónicos do Consulado Geral de Portugal em Caracas, para que os luso-venezuelanos possam pedir informações

GAGO: RADAR DE ALERTA

O ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, afirmou que vai ser instalado um radar na Madeira, o que permitirá antecipar em duas a três horas os alertas emitidos

BABOSAS: CAPELA DESAPARECE

A capela de Nossa Senhora da Conceição, conhecida como capela das Babosas, na freguesia do Monte, desapareceu. No meio do lamaçalfoi resgatada a imagem de Nossa Senhora

CTT: DISTRIBUIÇÃO RETOMADA

A distribuição de correio foi ontem retomada, excepto em locais como a Baixa do Funchal, onde decorre a limpeza de ribeiras e a desobstrução de estradas

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