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Foi um dia de descobertas, no mínimo, estranhas. O mar trouxe ontem um pé humano e cerca de quinhentos quilos de polvos mortos para o areal da costa de Vila Nova de Gaia. Enquanto as entidades ambientais apuram as causas da morte dos moluscos, que ao que tudo indica terá sido um fenómeno natural, a Polícia Judiciária analisa o ADN do pé encontrado dentro de uma bota.
O membro pertencerá a um pescador desaparecido, mas os resultados só serão conhecidos dentro de um mês. Quanto à causa da morte dos polvos, os resultados demoram dez dias.
O alerta foi dado por um popular que assistia à recolha dos moluscos na praia de Canidelo. A bota estava entre o peixe e o lixo trazidos pelo mar. "O pé tem um mês de água. Está a decorrer um inquérito e não há relato de ter aparecido um corpo sem um pé", disse o comandante da Polícia Marítima, Fragoso Gouveia.
A possibilidade de o membro pertencer a um dos dois pescadores de Viana do Castelo desaparecidos no mar a 16 de Dezembro de 2009 é uma hipótese. No entanto, ao que o CM apurou junto de familiares de ambos, os pescadores calçavam galochas quando se afogaram.
Os moluscos foram encontrados entre as praias de Canidelo e de Valadares, numa extensão de cinco quilómetros.
A tarde de ontem foi de romaria ao local, com dezenas de curiosos no areal. "Moro perto daqui e fiquei curioso com este caso. Muito lixo dá à costa, mas nunca aconteceu uma coisa assim", disse ao CM José Nogueira, uma das muitas pessoas que passaram a tarde de sábado na praia.
Só na próxima semana as análises aos polvos estarão prontas, mas os resultados podem ser inconclusivos. "Só exames mais demorados é que podem apurar as causas. A hipótese de poluição está descartada porque com o mar agitado como está tinha de ser uma poluição muito forte", explicou o administrador do Parque Biológico de Gaia, Nuno Oliveira. Também é estudada a possibilidade de ter sido um barco a fazer uma descarga, mas o responsável não lhe dá crédito.
Os primeiros polvos deram à costa de manhã, quando a maré baixou. À tarde, com a subida das águas, foram encontrados mais. Antes das 11h30, houve quem recolhesse polvos. "Queria alertar as pessoas para que não consumam o peixe", avisou o vereador da Protecção Civil de Gaia.
"AINDA NÃO HÁ EXPLICAÇÕES"
Durante o dia foram recolhidos e analisados os polvos mortos, mas os resultados só serão conhecidos dentro de dez dias. "Desconhece--se as razões por que deram à costa. Ainda não há explicações. Foram retirados alguns espécimes para análise", disse o comandante daPolícia Marítima, Fragoso Gouveia.
O pé humano, dentro de uma bota, também seguiu para ser analisado. Mas os resultados ao ADN devem demorar cerca de um mês. Entretanto, a PJ do Porto deverá contactar familiares de pescadores desaparecidos para o reconhecimento do calçado.
DEPOIMENTOS
"O PRINCIPAL AGORA É A LIMPEZA DAS PRAIAS", Mário Fontemanha, Vereador
"Andamoshá dez diasa monitorizar todaa costa, por causa do mau tempo, e só hoje é que aconteceu. O principal agora é a limpeza das praias e que não haja qualquer tipo de foco de perigo. O pé encontrado é um fenómeno mais estranho ainda e já está com a PJ."
"TUDO APONTA PARA UM FENÓMENO NATURAL", Nuno Oliveira, Parque Biológico
"O facto de ser só uma espécie é muito esquisito, mas descarta a hipótese de poluição. Tudo aponta para um fenómeno natural. É fresco, não é congelado, há polvo juvenil e adulto e tinha alimentação recente. O resultado das análises demorará cerca de dez dias."
"QUEM LEVOU POLVO MORTO É IGNORANTE", Francisco Silva, Reformado
"Há quem tenha levado polvo, mas isso é mais ignorância que outra coisa. Não me lembro de ter havido algo semelhante nesta costa de Gaia. Acho que foi poluição, mas já andaram a dizer que não era. Pode ter sido alguma descarga, mas também não se sabe."
"É A PRIMEIRA VEZ QUE VEJO ISTO EM 75 ANOS", José Nogueira, Reformado
"Quando cheguei, estavam os polvos todos ao sol, porque era maré vazia. Isto foi uma descarga de material perigoso, porque só matou o que está no fundo. É a primeira vez que vejo isto em 75 anos. Nunca vi coisa semelhante."
DISCURSO DIRECTO
"TERÁ SIDO UMA EMBARCAÇÃO", Carlos Sousa Reis, Biólogo Marinho
Correio da Manhã – O que pode justificar esta quantidade de polvos mortos na praia?
Carlos Sousa Reis – Penso que possa ter sido a rejeição ao mar de uma qualquer embarcação de pesca aflita. Nessa região usa-se muito armadilhas do tipo alcatruzes para capturar polvos, que depois são armazenados em bidões. Para ser só uma espécie a dar à costa, podem ter caído vários bidões ao mar.
– Estes fenómenos são normais?
– Devido ao mau mar, podem acontecer arrojamentos. Mas para darem à costa tantos exemplares, certamente que mais ainda ficaram no mar. Os polvos não são grandes nadadores, mas são muito resistentes à hidrodinâmica e rapidamente encontram refúgio.
– Sendo um arrojamento como este, esperava-se mais espécies?
– Sim, mas a cadeia trófica do mar está bem planeada. Existem predadores necrófagos que, neste caso, não tiveram tempo de actuar.
PORMENORES
MARÉS
Os primeiros polvos deramà costa de manhã, quando a maré baixou. À tarde, com a subida das águas, vieram mais.
BOTA ENTRE O LIXO
O pé humano estava dentro de uma bota que foi encontrada junto ao lixo e aos moluscos, no meio do areal da praia de Canidelo.
FENÓMENO É NOVO
As entidades e os populares não se recordam de cenáriosemelhante. Terá sido a primeira vez que isto aconteceu.
ANÁLISES
Os resultados das análises aos polvos mortos sairão dentro de dez dias. Já os resultados do ADN ao pé devem demorar um mês.
LIXO: CINCO QUILÓMETROS
A maré baixa foi suficiente para trazer milhares de polvos mortos a uma área da costa com cinco quilómetros de extensão. As praias de Gaia, com bandeira azul, ficaram irreconhecíveis
ALERTA: COSTA MONITORIZADA
O alerta chegou de manhã à Polícia Marítimae à Câmara de Gaia. De acordo com os responsáveis, toda a costa de Gaia está a ser monitorizada há dez dias por causa do mau tempo
FENÓMENO: MUITOS CURIOSOS
Ao longo do dia passaram pelas praias dezenas de curiosos. A maior parte fixou-se na praia de Valadares, que ainda tinha, até ao meio da tarde, vários dos espécimes em sacos do lixo
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