Ministério Público considera que agentes da PSP envolvidos em atos de tortura atuaram de forma "violenta, descontrolada, descompensada, exibindo requintes de malvadez"
Ao mesmo tempo que publicou o vídeo de um cidadão argelino algemado nos pulsos e nos tornozelos a ser agredido a pontapé pelo agente Óscar Borges, o seu colega Tiago Lourinho acrescentou um comentário: "Um açoriano a falar com um argelino, eles entendem-se bem".
No grupo de WhatsApp com 69 polícias, as reações à publicação do vídeo, filmado no interior da esquadra do Rato, em Lisboa, surgiram naturalmente: "fez um aiduken ao argelino?", questionou um participante, numa referência a um golpe do jogo "Street Fighter." O comentário mereceu uma resposta de Guilherme Leme, outro agente da PSP, que, juntamente com Óscar Borges, vai responder em julgamento por tortura: "Não viste as cabeçadas à Pepe".
Além das agressões a vários indivíduos no interior da esquadra, foi aquele tipo de comportamento que levou o Ministério Público a considerar - nos mandados que ordenaram a detenção de mais 15 polícias envolvidos em suspeitas de tortura e abuso de poder - que os envolvidos nas agressões, na esquadra do Rato, "aproveitavam a vulnerabilidade das vítimas para, de forma violenta, perversa, descontrolada, descompensada, exibindo mesmo requintes de malvadez as agredirem de forma violenta".
A consequente partilha de imagens dos detidos em grupos de WhatsApp, fosse no grupo dos 69 ou num segundo grupo com sete elementos, designado "Grupo sem Gordos", indicia que os polícias, por um lado, pretenderam "humilhar e degradar" as vítimas, ao mesmo tempo que "retirar prazer do sofrimento" causado, refere ainda a procuradora Felismina Carvalho Franco, no despacho que ordenou a detenção dos agentes da PSP.
Como o NOW adiantou, na quarta-feira, no "Grupo sem Gordos" foram partilhadas imagens de um cidadão cabo-verdiano, detido pelos agentes da PSP, a quem cortaram as rastas. Goncalo Rodrigues, agente da PSP, comentou a foto: "Vai andar na rua de cabeça baixa".
Seguiram-se outros comentários de polícias. Miguel Ferreira comentou: "Esse nunca mais se esquece"; Gonçalo Rodrigues: "Vai andar na rua de cabeça baixa; quando vir a cor azul, ele corre"; Miguel Ferreira voltaria à conversa: "Foi pena não ter morrido esse p********; eu metia o gajo no Tejo"; ao que Gonçalo Rodrigues advertiu: "Mano, se tivesse morrido, távamos na m****".
Quando foi detido e levado para a esquadra, o homem retratado na fotografia foi, de acordo com o Ministério Público, alvo de várias agressões. Detido por posse de uma faca, terão sido com este mesmo objeto que lhe cortaram as rastas e filmaram o momento, durante o qual, ainda de acordo com o Ministério Público, um dos polícias presentes, Rafael Freitas, comentou: "Vou mandar este vídeo à minha namorada".
Dois arguidos libertados
Esta quinta-feira, a juíza de instrução já ordenou a libertação de dois arguidos, um agente da PSP e um segurança privado, depois de ter considerado que a detenção este último foi ilegal
A informação sobre o pedido de habeas corpus foi avançada pelo advogado do arguido, Pedro Madureira, que explicou aos jornalistas, à porta do tribunal, ter feito um pedido de habeas corpus, alegando que a detenção não cumpriu os pressupostos legais.
A identificação dos detidos decorreu de manhã e durante a tarde desta quinta-feira decorrerá o interrogatório dos 14 arguidos que se encontram detidos no Comando Metropolitano de Lisboa da PSP.
Entre os 16 detidos na terça-feira, há 15 polícias - 13 agentes e dois chefes -, aumentando para 24 o número de elementos da Polícia de Segurança Pública envolvidos no processo de alegadas torturas e violações a pessoas vulneráveis como toxicodependentes e sem-abrigo, na sua maioria estrangeiros, na esquadra do Rato, numa investigação denunciada pela PSP.
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