“Nasci com sangue A negativo e agora tenho um outro tipo – Ko (Kellnull) – que não existe na Europa. Se um dia precisar de sangue, morro”. Desesperada, Joaquina Galhetas, residente em Hortinhas, Alandroal, afirma não saber o que fazer da vida.
Esta paciente, de apenas 26 anos, disse ao Correio da Manhã, que a mudança do tipo de sangue ocorreu após uma transfusão no Hospital de Évora devido às hemorragias surgidas na sequência do parto do primeiro filho, uma menina com 9 anos. No entanto, o seu problema de saúde, cujos sintomas a levam a desesperar por falta de forças, só foi detectado seis anos depois, quando engravidou de um menino, agora com três anos.
“O primeiro parto, em 1993, até correu bem, mas pouco tempo depois, nos dias de calor, comecei a sentir vómitos, dores de cabeça e desmaiava com frequência. Fui aos médicos, fiz ecografias, mas estava sempre tudo bem”, referiu.
Passados seis anos, Joaquina Galhetas engravidou de novo e, nas primeiras análises de rotina, foi verificado um problema anormal no seu sangue, o qual, segundo os relatórios de um laboratório inglês enviados ao Instituto Português do Sangue, terá surgido após a transfusão realizada no Hospital de Évora. Este tipo de sangue, raríssimo em todo o mundo, deixou a jovem sem algumas das suas defesas no organismo e obrigou--a a permanecer internada na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, nos últimos três meses de gravidez. “O menino nasceu com 33 semanas e corri muitos riscos de vida. Aliás, ficou com alguns problemas de saúde, sobretudo nervosos”, disse, referindo, em seguida, que: “Para não morrer, aconselharam-me na maternidade a fazer uma laqueação”.
O estado de saúde da jovem, que entretanto deixou de trabalhar, tem vindo a piorar. Já chegou a estar paralisada nos membros e quando faz um corte leva muito tempo a cicatrizar. Mesmo assim, ainda não lhe foi indicado “um único” tratamento. Do Hospital de Évora, recebe apenas consultas e, devido à falta de soluções, está a equacionar uma queixa em tribunal contra esta unidade.
MUITO DIFÍCIL DE OBTER
O sangue Ko do tipo “Kellnull” é, de facto, “bastante raro” e conseguir obtê-lo nos principais hospitais do País “é muito difícil, ficando muitas vezes essa tarefa a cargo do Instituto Português de Sangue”, adiantou ao CM uma fonte do serviço de imunoterapia do Hospital de S. José. Pela sua especificidade, as transfusões “são bastante complicadas de fazer”.
O CM tentou obter junto do Instituto Português de Sangue informações adicionais sobre o sangue “Kellnull” e da hipótese de tratamento daqueles que o possuem, mas foi-nos dito ser “impossível” fazê-lo ainda ontem.
Para ter tempo de se inteirar do processo desta paciente, o director-clínico do Hospital de Évora remeteu todas as explicações para a próxima terça-feira. “O nosso dever é voltar a olhar para o processo, ver se os procedimentos foram os correctos e responder à doente sobre dúvidas que possa ter“, assegurou António Sousa.
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