Capitã Patrícia Almeida, comandante do Destacamento de Santarém, dá o nó com a cabo Teresa.
Viram-se pela primeira vez em Queluz, na Escola Prática da GNR. E quem as conhece diz ter sido "fulminante. Paixão à primeira vista". Reprimiram a exposição inicial, "tendo em conta preconceitos nas tradições de uma instituição militar" – mas o segundo impulso foi mais forte. Há mais de um ano "passou a ser normal, até frequente", a cabo Maria Teresa Dias de Carvalho, de 39 anos, ir buscar ou levar a capitã Patrícia Loureiro Almeida, de 27, ao posto de trabalho. A jovem oficial é a comandante do Destacamento da GNR de Santarém. E agora, embaladas pela lei, as duas militares dão o nó no próximo sábado. É o primeiro casamento gay na história da GNR.
Fonte oficial da GNR limita-se a recordar ao CM que o casamento entre pessoas do mesmo sexo "é um direito consagrado para qualquer cidadão" – logo, "parabéns às nubentes". E ficou apenas por confirmar se as mais altas patentes militares, no Comando-geral da GNR, estão convidadas e também vão celebrar o enlace da jovem oficial com a cabo Teresa.
O casamento será realizado na Conservatória do Registo Civil de Lisboa, sábado. Mas o local da festa foi mantido em segredo. A capitã Patrícia Almeida, que é conhecida por liderar com "pulso firme" mais de cem militares no destacamento territorial de Santarém, não quis ontem comentar o assunto.
A comandante vai dar o nó com a namorada de há cerca de dois anos, depois de as duas militares se terem conhecido em Queluz, localidade onde continuam a viver. Na altura, a oficial estava ali em formação, na Escola Prática, onde ainda hoje a cabo Teresa Carvalho – natural de Praia da Vitória, nos Açores – é formadora em investigação criminal.
Vão casar-se em regime de separação de bens. Deixaram de parte o regime geral de comunhão de bens porque a cabo Teresa tem um filho de uma anterior relação. E será este o primeiro casamento gay na história de uma instituição militar em Portugal. Também nas forças de segurança não é conhecido outro caso. Para uma fonte militar, "a seguir vêm casais de homens".
PERFIL
Patrícia Loureiro Almeida, 27 anos, formada na Academia Militar, foi há poucos meses promovida de tenente de Infantaria a capitã. Natural de Seia, é há dois anos comandante do Destacamento Territorial da GNR de Santarém.
"SERÁ SEMPRE RESPEITADA"
Militares que prestam serviço sob o comando da capitã Patrícia Loureiro Almeida garantiram ao CM que o facto de esta ter assumido um casamento homossexual não irá afectar a autoridade da figura de oficial. "Para nós, é a nossa comandante, e o que faz em casa não é da nossa conta. O importante é que seja competente para desempenhar as funções", disse um guarda.
CABO CAMPEÃ DE CORTA-MATO
A cabo Teresa Carvalho é conhecida na GNR como sendo uma atleta notável, principalmente na modalidade de corta-mato. Este ano, a formadora da Escola Prática da GNR, em Queluz, alcançou o terceiro lugar do XXXIII Campeonato Nacional Militar. No passado, a mulher também conquistou vários títulos em provas oficiais da GNR.
"INCOMODAVA GENTE NA GNR"
José Carlos Henriques, de 46 anos, está reformado desde 1998. Militar na GNR de Tomar, diz que foi aposentado compulsivamente por causa das suas preferências sexuais: "Eu fazia uma vida discreta, mas alguém me denunciou. E isso incomodava muita gente na GNR." Em finais de 1997, foi obrigado a comparecer a uma junta médica. "Começaram por me ordenar exames ortopédicos e depois diagnosticaram-me uma depressão grave que nunca existiu. Mas não queria continuar naquelas condições e aceitei sair da GNR por invalidez." Hoje trabalha para a firma que cuida das piscinas e do pavilhão municipal de Tomar, tal como o marido, Fernando Silva.
DISCURSOS DIRECTOS
"AINDA HÁ PRECONCEITO": César Nogueira, Presidente da APG-GNR
Correio da Manhã – Acredita que estas duas militares podem sofrer discriminações na GNR?
César Nogueira – Ainda há muitos preconceitos, principalmente numa instituição militarista como a GNR. Certamente que irão sentir problemas no dia-a-dia.
– Tem conhecimento de outros casamentos gay na Guarda?
– Acredito que seja o primeiro. Até porque não deve ser fácil assumir uma relação desta natureza sendo militar da GNR, precisamente por causa dos preconceitos.
– O facto de se tornar pública a relação através do casamento pode afectar as relações com os colegas e subordinados?
– Não deveria acontecer, mas acredito que as militares irão passar dificuldades, principalmente pelo facto de uma delas ser oficial.
"NÃO É UM TEMA TABU": Paulo Rodrigues, Presidente da ASPP-PSP
Correio da Manhã – Tem conhecimento de algum casamento gay na PSP?
Paulo Rodrigues – Acho que ainda não houve nenhum. Há muitos polícias homossexuais a viverem em conjunto, que ainda não deram o passo, mas não é um tema tabu.
– Pensa que pode haver discriminação por parte de colegas?
– Há uns anos, falou-se até em perseguições, mas penso que hoje em dia a própria sociedade está mais aberta e há muitos polícias a assumirem relações homossexuais .
– Acredita que a autoridade de um polícia pode ser afectada, assumindo uma relação gay?
– Não me parece que seja motivo de hostilização ou de brincadeira. A PSP tem tradições um pouco machistas, mas não acredito que se criem estigmas perturbadores.
UNIÃO DE LÉSBICAS EM FORÇA MILITAR INÉDITA NO MUNDO
A presença de homossexuais, gays e lésbicas, nas Forças Armadas e militarizadas é oficialmente admitida em 26 dos países da NATO. A única excepção é a Turquia, que tem forte influência muçulmana. E são já vários os casos destacados de casamentos entre militares gays, desde o oficializar da união de dois oficiais da Polícia Montada do Canadá, da base de Green-wood, na Nova Escócia, em Maio de 2005. Todavia, uma busca internacional não regista casos de casamentos de lésbicas em Forças Armadas, o que faz da união na GNR portuguesa uma estreia mundial.
A homossexualidade em forças militares tem mais de 24 séculos, a acreditar nos escritos do filósofo grego Plato (428-347 a.C.), que destacava um pequeno exército de amantes como o melhor preparado para grandes combates. A Grécia não teve contudo seguidores. Nas Cruzadas houve condenados à fogueira por relações sexuais com pessoas do mesmo sexo e na Guerra da Independência dos EUA o general George Washington expulsou vários militares por terem relações homossexuais.
Os casamentos entre militares gay tornaram-se comuns com o legalizar da união entre pessoas do mesmo sexo. A Espanha assistiu em 2006 ao casamento de Alberto Marchena e Alberto Fernandez, companheiros na Força Aérea. O Reino Unido estreou-se em Março de 2010 com a união de James Wharton e Thom McCaffrey.
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