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Reclusos sobem ao palco do Teatro da Guarda para apresentar espetáculo "Suster"

Espetáculo, resultado de um trabalho de formação e cocriação iniciado em setembro de 2025, estreia-se a 29 de maio, às 21h30.

22 de maio de 2026 às 16:45

Vinte reclusos vão subir ao Teatro Municipal da Guarda (TMG), a 29 de maio, para apresentar o espetáculo de teatro "Suster", num projeto de cocriação desenvolvido pela associação cultural Terceira Pessoa.

O espetáculo, resultado de um trabalho de formação e cocriação iniciado em setembro de 2025, estreia-se a 29 de maio, às 21:30 e é interpretado por 20 reclusos e reclusas do Estabelecimento Prisional da Guarda, numa peça que surge a partir da ideia da "respiração como ato político e ato de resistência", disse à agência Lusa o diretor da Terceira Pessoa, Óscar Silva.

"A peça sugere que podemos inspirar fundo, suster a respiração e ir ao TMG e apresentar alguma coisa, ou também o contrário e pensar que estamos em apneia, em processo de reclusão, e vamos ao teatro respirar", afirmou.

O espetáculo é dividido em sete cenas, cada uma delas com um lugar associado a uma ideia de ar livre, que é ocupado pelos intérpretes, "de forma poética ou literal", explicou o diretor do projeto.

Para Óscar Silva, o espetáculo, apesar de ter sido construído numa prisão e apresentado num teatro, acaba por "ser feito ao ar livre, metaforicamente", numa peça em que são contadas pequenas histórias inventadas, onde a dimensão poética está sempre presente.

"Acreditamos que a poesia nos defende. É na poesia que nos queremos agarrar. Há uma frase que é dita neste espetáculo, em que se fala de liberdade e um deles diz: 'Aqui, a liberdade que temos é a liberdade poética'. Então, que seja extrema liberdade poética e começam a brincar com esse conceito", contou.

No espetáculo, surge uma praia, uma montanha, mas também uma discoteca, um armazém e até uma "sala de operações em que se faz um transplante de pulmão", com o ato de respirar enquanto constante da peça.

"Pensámos na ideia do ar e do ar associado ao ar livre e depois começámos a perceber que é um ato fisiológico, que nos mantém vivos e podemos perceber que, a partir do conceito de liberdade, temos sempre a liberdade de respirar. Respirar também é um ato de inscrição no presente -- eu estou aqui, porque estou vivo e porque respiro" -, afirmou Óscar Silva, referindo que a ideia também pode ser remetida para o ato de respirar fundo, que sugere um ato de reflexão sobe a vida e sobre a identidade de cada um.

O próprio processo de criação que começou em setembro remete para isso, notou Óscar Silva.

"Há que ter consciência de que nestes projetos estamos a mexer com a intimidade e identidade de cada um dos participantes. São pessoas vulneráveis, que estão num espaço de vulnerabilidade, muitas das vezes associado a violências de determinadas formas. O trabalho é diluir isso e cada um encontrar a sua confiança e a sua forma de estar no mundo", aclarou.

Com já vários anos de trabalho no Estabelecimento Prisional da Guarda, Óscar Silva entende que não há uma fórmula, mesmo que haja presos que transitem de um projeto da Terceira Pessoa para outro, considerando que é sempre preciso criar processos de confiança.

Durante a criação, os intérpretes tiveram a oportunidade de ser "provocados" por outros artistas, convidados a participar no projeto, foram desenvolvidas dinâmicas de grupo e começaram a surgir textos e improvisações, reunidos no espetáculo que agora é apresentado.

Além dos 20 reclusos em palco, outros participaram no projeto de cocriação, denominado "Ar Livre".

"Suster" é dirigido por Óscar Silva, contando com dramaturgia de Diogo Martins e assistência de direção de Paula Diogo e Jade Cambournac.

O espetáculo é uma coprodução do Município da Guarda e do Teatro Municipal da Guarda, em parceria com a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais.

Além da estreia no TMG, a peça será também apresentada para a população reclusa do Estabelecimento Prisional da Guarda.

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