Há uma multidão à espera dos jipes que desafiam as estradas de terra batida do sul da Guiné. Os portugueses são esperados com expectativa, sobretudo um deles: Alexandre da Costa Coutinho e Lima, o último comandante do quartel de Guiledje, o homem que, a 22 de Maio de 1973, após cinco dias de cerco e bombardeamento do PAIGC, decidiu evacuar militares, população e abandonar o quartel.
O régulo, líder tradicional da aldeia, abraça-o. O papel que Umaru Jaló tem na mão mostra o apreço pelos portugueses: ali estão os nomes de todos os comandantes militares de Guiledje desde 1964. Coutinho e Lima é engolido pela multidão. Todos o querem cumprimentar. Emocionado, o antigo comandante do quartel retribui.
Em 1973, o então major desrespeitou as ordens do general Spínola, comandante-chefe militar da Guiné, que lhe ordenou que resistisse ao cerco. Coutinho e Lima escolheu retirar-se. Seiscentos militares e civis fugiram para Gadamael Porto, a guarnição mais próxima. Foi preso e teve de enfrentar processo disciplinar, que acabou arquivado. “Não me arrependo de nada. Tomei a decisão de abandonar Guiledje para poupar as vidas dos meus homens e a da população. Voltava a fazer tudo outra vez”, explica ao CM. Pouco depois, numa cerimónia simples mas cheia de significado, recebeu do régulo de Guiledje uma túnica branca – cor dos mais velhos e sábios.
O regresso a Guiledje é um momento sentido por outros três ex--combatentes. Abílio Delgado, Sérgio Sousa e José Carioca cumpriram ali serviço militar entre Setembro de 1971 e Julho de 1973. Com 21 anos, Abílio Delgado, o mais jovem capitão do Exército português, comandava a companhia dos ‘Gringos de Guiledje’. 150 homens habituaram-se a viver sob ameaça permanente: “O período mais longo que estivemos sem ser bombardeados não passou de 15 dias. Havia sempre morteiros a cair e passávamos a vida escondidos nos abrigos”, lembra. A companhia teve duas baixas em combate, mas conseguiu aguentar o quartel até ao fim da comissão. Foram a última companhia a consegui-lo. Os militares que os substituíram, os ‘Piratas de Guiledje’, comandados por Coutinho e Lima, abandonaram.
O que hoje é um amontoado de ruínas e restos de munições era o ponto nevrálgico da guerra na Guiné. O corredor de Guiledje – a que os portugueses chamavam ‘corredor da morte’ e o PAIGC ‘corredor do povo’ – era a zona por onde a guerrilha fazia entrar todos os reabastecimentos oriundos das bases na Guiné-Conacri. “A perda de Guiledje foi um ponto de viragem. Tornou-se claro que o exército português nunca conseguiria ganhar a guerra”, diz o historiador guineense Leopoldo Amado, um dos participantes no Simpósio Internacional que começou ontem em Bissau, e que junta ex-combatentes dos dois lados do conflito e investigadores para debater a mais violenta guerra que os portugueses travaram em África.
COMANDANTES APERTAM AS MÃOS
O presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira (na foto), inaugurou ontem na capital do país o Simpósio Internacional sobre o Guiledje. Até sexta-feira, ex-combatentes guineenses, portugueses, cabo-verdianos e cubanos, e investigadores de várias nacionalidade, vão debater o momento crucial da guerra na Guiné, quando o PAIGC começou a ganhar supremacia militar sobre o exército português. Nino Vieira era, há 35 anos, o comandante das forças guerrilheiras no sul, e foi ele quem comandou o ataque ao quartel de Guiledje. Recordou que “foi uma oportunidade de demonstrar a vitalidade dos valores da luta e a unidade do PAIGC”. Na altura teve a oportunidade de apertar a mão a Coutinho e Lima, o oficial que comandava o quartel de Guiledje.
O QUE AINDA LÁ ESTÁ
VIAGEM DE EMOÇÕES
Durante dois dias, uma extensa comitiva percorreu os lugares mais marcantes da guerra no sul da Guiné. Uma das paragens mais emotivas aconteceu em Gandembel, o aquartelamento que os portugueses abandonaram em Janeiro de 1969, após terem sofrido cerca de 370 ataques em 9 meses. O cabo enfermeiro José Teixeira, que fez serviço militar nesta zona, deixou no local uma planta com uma mensagem inscrita: “Guineenses e portugueses, dois passos um rumo: paz”
AQUARTELAMENTO DO PAIGC
Os ex-combatentes portugueses tiveram este domingo a oportunidade de perceber como é que o inimigo vivia na mata. A visita ao Acampamento Osvaldo Vieira, nome de um combatente do PAIGC caído em combate, deu a conhecer a forma como a guerrilha se organizava e como executava as suas acções. Mulheres como Ulé Nabila, hoje com 60 anos, asseguravam a alimentação e a logística dos homens que viviam no mato.
A SANTA DE GUILEDJE
Na semana passada, a equipa que está a fazer o levantamento das ruínas do quartel de Guiledje encontrou uma figura metálica de Nossa Senhora. O achado foi imediatamente identificado pelos três elementos dos ‘Gringos de Guiledje’: “É a Virgem que os açorianos da nossa companhia esculpiram e que nos servia de protectora”, lembra José Carioca. A peça vai fazer parte do espólio do futuro museu de Guiledje.
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