Pelo meio-dia, Manuel Alves chega pontualmente ao seu local de trabalho, o restaurante chinês Jade, em pleno coração de Lisboa, como fez ao longo dos últimos 24 anos. Com uma diferença: segundo contou ao CM, desta vez abrem- -lhe a porta, entra, fecham-na mal entra e ele ficava lá dentro, sozinho, no interior do estabelecimento vazio, porque está fechado há três meses. A meio da tarde é "libertado". A proprietária nega tudo.
Esta situação repetiu-se, alegadamente, durante onze dias, o último a 25 de Julho, e é o resultado de um litígio entre a proprietária do restaurante, Maria Loy, e o seu funcionário, Manuel Alves, chefe de mesa, que ao 11.º dia chegou ao limite da sua resistência psicológica. Uma "guerra" travada pelos seus direitos, que incluem o pagamento da indemnização, que pretende lhe seja paga, cerca de 9000 euros.
"Tenho consciência que estive sequestrado no restaurante, mas não podia fazer mais nada senão aguentar aquela situação para não perder os meus direitos", afirma ao CM Manuel Alves, 47 anos, declarações proferidas na via pública, frente ao n.º 3-A da Av. Duque de Loulé.
"Uma outra empregada da minha patroa vinha abrir a porta ao meio-dia, eu entrava, ela fechava a porta à chave e eu ficava lá dentro durante quatro horas, sem comida nem qualquer contacto com o exterior, porque o telefone estava fechado a cadeado e eu não tinha telemóvel. Às 16h00 vinha outra vez a empregada, abria-me a porta e eu saía.", explica Manuel Alves.
Por indicação da Inspecção do Trabalho, onde apresentou a denúncia do caso, comparece diariamente, à mesma hora, mas agora fica na rua.
Um vizinho, Manuel Quaresma, 82 anos, testemunhou tudo e mostra-se revoltado. "É verdade o que aconteceu. É incrível fazerem uma coisa destas a uma pessoa", critica.
Confrontada com a situação, Maria Loy recusa-se de início a comentar, para depois negar as acusações. "É impossível, é tudo mentira. Não fechei ninguém no restaurante."
O Instituto de Desenvolvimento e Inspecção das Condições de Trabalho (IDICT) vai notificar a proprietária do restaurante, Maria Loy, para ser ouvida, apurou o CM.
Manuel Alves acusa Maria Loy de não lhe efectuar os descontos mensais para a Segurança Social durante três anos.
O IDICT notifica a visada para entregar os documentos comprovativos. Se o não fizer será notificada para a regularização.
O IDICT vai apresentar queixa- -crime por subtração de documento se não lhe for apresentado o comprovativo dos descontos dos trabalhadores da empresa. Tem ainda conhecimento que a visada retém o passaporte de um funcionário e que não procedeu à sua regularização. Manuel Alves apresentou na PSP uma queixa-crime contra Maria Loy pelo crime de sequestro.
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