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Legionela obriga à transferência de 12 doentes

Hospital da Régua está encerrado.

03 de março de 2016 às 00:20

Surto de Legionela assusta Régua

O diretor-geral da Saúde disse esta quinta-feira que vão ser transferidos 12 doentes do hospital da Régua, onde foi detetada a presença de 'legionella' na rede de água, embora nenhum tenha contraído a doença dos legionários.

"O sistema de vigilância da qualidade da água identificou a presença da bactéria ' legionella' e, uma vez identificada, foram tomadas as medidas, sublinho, em termos de boas práticas, que devem sempre ser tomadas: reduzir o risco dos doentes aí presentes, e do pessoal, em contrair a infeção", disse Francisco George à agência Lusa.

O presidente da Câmara da Régua, distrito de Vila Real, Nuno Gonçalves, avançou na quarta-feira à noite à Lusa ter sido informado de um surto de 'legionella' no hospital daquela cidade, uma situação que vai levar ao encerramento da unidade esta quinta-feira e à transferência de utentes e funcionários.

"A informação que temos também é pouca, mas o que nos informaram é que seria um surto de 'legionella' e que teriam de encerrar o hospital na quinta-feira, transferindo os doentes e o pessoal", afirmou Nuno Gonçalves.

Desinfeção do hospital

De acordo com Francisco George, a medida de desinfeção da unidade hospitalar foi tomada a tempo, uma vez que não há doentes com a doença dos legionários, avançando que 12 doentes já se encontram a ser transferidos.

"Os doentes e o pessoal de serviço já estão a ser transferidos, logo depois vão iniciar-se as operações de desinfeção da rede predial daquele estabelecimento, que se faz através de um choque de cloro ou de um choque térmico", explicou Francisco George.

Para o responsável, a forma como se fará a desinfeção terá a ver com aquilo que a rede predial suportará, lembrando que as colónias de bactérias da 'legionella' "são eliminadas pelo calor, acima dos 60 graus".

"Trata-se de uma medida de desinfeção que foi [tomada] ainda a tempo, uma vez que não há doentes com a doença dos legionários", afirmou, sublinhando tratar-se de "um exemplo de boas práticas: foi identificado um risco e esse risco foi eliminado".

O presidente da Câmara da Régua, Nuno Gonçalves, salientou que a comunicação sobre a "presença de 'legionella'" no hospital de Peso da Régua foi feita à câmara municipal na quarta-feira pelo Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), onde a unidade de saúde está inserida.

Os doentes serão transferidos para outro hospital do CHTMAD, que agrega ainda as unidades de Vila Real, Lamego e Chaves.

Familiares queixam-se de falta de informação

"Só soube esta manhã pelas notícias da televisão. A minha mulher está aqui internada mas ninguém nos avisou ou deu qualquer informação até agora", afirmou aos jornalistas Manuel Silva, residente em Fontes, Santa Marta de Penaguião.

Este familiar revelou-se preocupado também porque a mulher vai ser transferida para Chaves, que dista mais de 100 quilómetros da Régua e não sabe como é que a poderá ir visitar, já que não tem carro nem conduz.

"Ela foi operada em Vila Real, onde esteve 12 dias e agora, como lá precisam dos quartos, mandaram-na para aqui até ter vaga para fazer os cuidados continuados. Agora diz que vão ser transferidos para Chaves e eu não acho isto nada bem", salientou Manuel Silva.

Enfermeiros desconheciam situação

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) mostrou-se preocupado com o caso de 'legionella' no Hospital da Régua, salientando a falta de informações aos profissionais, de rastreios e a incerteza quanto ao futuro da unidade de saúde.

Alfredo Gomes, dirigente nacional do SEP, afirmou esta amanhã, junto ao Hospital do Peso da Régua, que os nove enfermeiros que ali prestam serviços foram surpreendidos na quarta-feira, ao final da tarde, com a informação de que hoje seriam, conjuntamente com os pacientes, transferidos para o hospital de Chaves.

As duas unidades de saúde estão integradas no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD).

"Mas ninguém informou sobre qual era o problema estrutural. Depois, mais tarde, mais preocupados ficámos porque se começou a falar sobre a presença de 'legionella' na água. Os doentes precisam de cuidados de higiene, precisam de utilizar a água e ninguém foi informado disto", salientou o dirigente sindical.

Além do mais, acrescentou, não foi desencadeada qualquer logística e "os doentes estavam esta manhã exatamente como estavam na semana passada".

"O senhor diretor-geral da Saúde veio hoje dizer que não há ninguém infetado, pois, em princípio não, esperamos que não, porque ninguém tem sintomatologia, mas não foi feito rastreio a ninguém. Acho que, no mínimo, as pessoas têm de, por uma questão preventiva, também fazer os rastreios", sublinhou Alfredo Gomes.

Sindicato estranha que 'legionella' leve trabalhadores para longe

O Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte (STFPSN) estranha que os doentes e trabalhadores do hospital da Régua, onde foi detetada a bactéria 'legionella', tenham sido transferidos para Chaves havendo unidades mais próximas.

O sindicato salientou, em comunicado, que os trabalhadores terão agora que "fazer cerca de 200 quilómetros para Chaves", viagem de ida e volta, quando existem outros hospitais do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD) que ficam "muito mais próximos", como Vila Real e Lamego.

"As outras duas unidades do CHTMAD têm condições adequadas para incorporar estes pacientes e os trabalhadores que serão transferidos, pelo que não se compreende a decisão da tutela nesta matéria. Esta escolha obrigará os trabalhadores a viajar cerca de 200 quilómetros por dia, sem justificação aparente", salientou o STFPSN.

O sindicato lembrou que os anteriores governos tentaram "várias vezes encerrar esta unidade ou entregá-la à Misericórdia" e frisou que receia que estejam "novamente a abrir-se os apetites privados em torno do Hospital D. Luiz I".

Por fim, o STFPSN defendeu que o encerramento provisório deste hospital deve "ser aproveitado para se efetuarem as necessárias obras de requalificação e modernização da unidade".

Medida de fechar o hospital é a correta

O enfermeiro considerou que a medida preventiva de fechar o hospital "é correta". "Se há presença da bactéria tem que se tratar. A questão que se coloca é a falta de informação para com os profissionais e nós não sabemos o que vai acontecer a seguir", salientou.

Ainda hoje o sindicato vai enviar um ofício ao Ministério da Saúde e ao Conselho de dministração do CHTMAD a pedir mais esclarecimentos sobre o que se perspetiva, "nomeadamente o tratamento que vai ser feito, o período em que isto vai estar encerrado ou se já regresso ao não".

Isto porque, continuou, "não nos podemos esquecer que este hospital volta e meia está nas bocas do povo para encerrar e nós esperamos que não seja por isto, mas temos que ter garantias para estes enfermeiros.

"Ou seja, de que, quando tudo estiver tratado tudo regressará à normalidade também", sustentou.

Restante água da rede sem registo de problemas

O diretor-geral da Saúde sublinhou que apenas a rede de água do hospital da Régua se encontra contaminada com 'legionella', não havendo problemas com a rede da cidade.

"Não é a rede da cidade que está contaminada, é só a rede daquele estabelecimento. [Estes casos] acontecem sobretudo em situações em que as canalizações da rede são antigas", afirmou o diretor-geral da Saúde, Francisco George, aos jornalistas à margem da apresentação de um relatório sobre doenças oncológicas.

Francisco George acrescentou que a unidade de saúde estará encerrada o tempo que for necessário, até que as próximas análises revelem se os tratamentos à água da rede eficazes.

"As pessoas que lá estavam internadas têm de estar absolutamente tranquilas", afirmou o diretor-geral, lembrando que ainda não há casos de pessoas com sintomas da doença dos legionários, uma infeção que se contrai pela inalação de partículas de água com a bactéria, como por exemplo no duche.

Para a Direção-geral da Saúde (DGS) o caso do hospital da Régua é "um exemplo de boas práticas", uma vez que foi identificada a contaminação das águas pelo sistema de vigilância antes de haver casos da doença.

"O que há a fazer é impedir que os doentes e o pessoal que aí trabalha estejam expostos a esse risco. Foi identificado um risco e vai ser eliminado o risco sem ter provocado a doença", acrescentou George aos jornalistas.

ARS garante que não há infetados com legionala

"Não há doença, nem há surto, nem há preocupação para a população da cidade. É importante passar esta mensagem relativamente há tranquilidade e há segurança dos doentes e profissionais de saúde", afirmou o presidente do conselho diretivo da ARS Norte, Pimenta Marinho, junto à unidade hospitalar.

"Num procedimento normal da vigilância da qualidade da água foi detetada a bactéria no sistema. Face a isso foram tomadas as medidas que visassem proteger os doentes e os profissionais da doença", salientou Pimenta Marinho.

A delegada regional de Saúde do Norte, Maria Neto, reforçou que a decisão de fechar o hospital foi "uma medida cautelar, de extrema cautela, que foi tomada pelo CHTMAD".

No entanto, a responsável especificou que a bactéria "foi detetada no dia 01 de março".

Também a subdiretora geral da Saúde esclareceu que a 'legionella' foi apenas detetada em pisos do hospital da Régua que não estavam a ser utilizados e que o contacto dos doentes e profissionais com a bactéria "foi zero".

"A primeira coisa que é importante dizer é que foi feita uma vigilância neste hospital à qualidade da água que permitiu detetar em apenas dois pontos, dois sítios, que não estavam a ser utilizados a bactéria 'legionella', afirmou a subdiretora Graça Freitas, à porta do Hospital D. Luiz I de Peso da Régua.

A responsável acrescentou que "nos sítios onde existiam doentes, onde existiam profissionais e havia utilização e circulação da água, não foi encontrada a bactéria" e, portanto, frisou que se trata "apenas uma questão de contaminação ambiental que não envolve infeção nem dos trabalhadores nem dos doentes".

"Os pontos de colheita do piso onde estavam os doentes e os profissionais foi zero, não há bactéria e não havendo bactéria não há possibilidade de as pessoas se terem infetado", afirmou.

E, reforçou, "neste momento a probabilidade de haver alguém infetado é ínfima, para não dizer zero".

Nesta unidade hospitalar estava apenas em funcionamento o serviço de internamento.

"Estamos a trabalhar todos juntos mas é uma situação perfeitamente controlada, em que houve uma contaminação do ambiente que foi detetada porque há um bom programa da vigilância da qualidade da água e em dois pisos onde não existiam nem doentes nem profissionais, a água estava estagnada e a bactéria teve condições para se desenvolver", reforçou Graça Freitas.

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